quarta-feira, 5 de junho de 2019

Clube da Criança - O Disco || 35 anos ||




“Por detrás do arco-íris, além do horizonte, há um mundo encantado feito pra você...” Esses versos bem poderiam representar a indicação do “endereço” do Clube da Criança no imaginário infantil dos anos 80. Não por acaso, são eles que abrem o primeiro e único disco “Clube da Criança”, lançado em 27 de março de 1984.

Você já assimilou a data com o aniversário de uma certa loira, certo? Bom... o caminho é por aí, mas dessa vez nossas atenções serão divididas entre a fundadora desse Clube, a ilustríssima Xuxa,  e seus dois sócios honorários: Patrícia Marx e Luciano Nassin.

As carreiras fonográficas dos dois maiores sucessos em vendas de discos infantis partem do mesmo ponto: Xuxa e Trem da Alegria começaram no disco “Clube da Criança”. E para nos conduzir nessa volta ao tempo ninguém melhor do que o idealizador de todo esse projeto: Paulo Massadas. Prontos? O nosso “Carrossel” já vai começar a girar...

Clube da Criança - O Disco: Xuxa, a "sócia fundadora", Patrícia & Luciano, os "sócios honorários" e Paulo Massadas, o idealizador nosso guia nessa viagem através do tempo


🎼MPB – Música Para Baixinhos
Entre 1983 e 1984, o mercado fonográfico enfrentava uma crise que fez o Brasil cair alguns lugares entre os maiores consumidores de discos. Na contramão dessa situação, um filão se destacava e continuava crescendo: o da música infantil. Hoje pode parecer estranho falar de sucesso na música infantil sem que haja um disco de Xuxa no meio, mas até 1984, o destaque era a Turma do Balão Mágico, que bateu a incrível marca de 1,23 milhões de cópias do seu segundo disco (até então só Roberto Carlos tinha passado do 1 milhão).

Portanto, a gravadora que quisesse se livrar da crise, precisava investir nas crianças e até mesmo artistas que já tinham uma discografia sólida começaram a se abrir para projetos infantis. Bons exemplos são Maria Bethânia e “Brincar de viver”, Raul Seixas e “Carimbador Maluco” no disco “Pluct Plact Zuum”, Guilherme Arantes e “Lindo Balão Azul”... todos entre as mais tocadas nas rádios e originários de especiais de TV infantis.

Antes de Xuxa: o número de faixas infantis entre as mais pedidas das rádios era algo inédito. Se hoje crianças consomem música adulta, em meados dos anos 80, os adultos que demandavam boa parte dos temas infantis


Uma gravadora em particular, a RCA Victor, sentia a crise fonográfica mais de perto e amargava um lugar nada confortável nas vendas (mesmo tendo em seu catálogo nomes como “Os Menudos”). Para reverter a situação ela precisava se reinventar, trazer o novo. Foi quando o então diretor artístico, Miguel Plopschi, recorreu a Paulo Massadas e Michael Sullivan. A dupla estava sob os holofotes graças ao sucesso “Me Dê Motivo” (gravado por Tim Maia), mas já conhecia Plopschi de outros trabalhos e resolveu encarar o desafio.

Massadas e Sullivan: convite para a nova gravadora, a RCA


🎼MPB – Massadas Para Baixinhos
Paulo Massadas dispensa apresentações; cada um de nós sabe, no mínimo, uma dúzia de composições dele (e Sullivan) de trás para frente, de frente para trás. O que você pode não saber é a ligação de Paulo com o universo infantil.  E, coincidentemente, isso já começa no nascimento: aniversariante do dia 12 de outubro, sua primeira música composta foi infantil: “O Mago de Pornóis”, gravada por Vanusa e lançada em 1973.

Massadas já acalentava a ideia de fazer um projeto infantil há algum tempo e o momento não poderia ser mais favorável para colocá-lo em prática: ascensão do mercado de músicas infantis e casa nova onde poderia desenvolver seu projeto com mais liberdade:
Eu já havia falado com o Sullivan que precisávamos criar um projeto infantil. Já tínhamos até um nome provisório: A CARRUAGEM ENCANTADA. Quando fomos pra RCA, resolvemos tirar isso do papel e decidimos tudo em uma só noite para já no dia seguinte mostrar à gravadora. 



Vanusa gravou a primeira composição de Massadas: uma música infantil.
A faixa ganhou até clipe no Fantástico (Rede Globo), isso que podemos chamar de uma estreia e tanto!


👧👦A chegada de Patrícia e Luciano
O disco ainda não era do “Clube da Criança”, era o projeto infantil da RCA e a gravadora queria mais novidade. O “Balão Mágico” havia estourado, era de outra gravadora e de certa forma não pretendia sair de sua zona de conforto: as adaptações de músicas estrangeiras feitas por Edgard Poças. A solução era correr atrás de crianças tão carismáticas quanto.

Houve uma pesquisa realizada pela gravadora em São Paulo e eles ficaram sabendo da Patrícia e o Luciano, duas crianças talentosíssimas que já cantavam em shows de calouros, concursos e festivais. Eram o que precisávamos: crianças e com um potencial de voz incrível. Nós apostamos neles. Com a música certa, eles dariam certo. De qualquer maneira, dariam certo.



Patrícia e Luciano: duas crianças prodígio que já se apresentavam em shows de calouros e festivais de música


🍫É de Chocolate
A faixa que abre o disco também foi a primeira a ser gravada. Antes mesmo da gravadora se decidir por Patrícia e Luciano a composição já estava pronta a espera de seus intérpretes:
Precisávamos de uma primeira música. No apartamento do Sullivan, nos questionamos: e agora, vamos falar de que? Tinha que ser uma coisa arrasadora, impactante, afinal era a abertura do disco. Veio aquele estalo: ‘quando você quer agradar uma criança de imediato, ou você dá um sorvete ou um chocolate...’ A primeira vez que uma criança prova o chocolate, a vida dela muda. Então já que o chocolate é tão universal, por que não um tema como esse? “Vou te mostrar que é de chocolate, de chocolate o amor é feito...” (cantarolando), o processo de composição foi muito fácil.
Levamos para a gravadora a música gravada só com violão e nossa voz. Quando o Miguel ouviu ele não entendeu nada daquilo, era uma coisa extremamente nova, algo que ninguém estava preparado. Havia uma carência de novidade no mercado infantil. Quando mostramos a música os caras não botaram fé. Todos ficaram com um pé atrás. Foi passando de diretor para diretor, até que eles resolveram arriscar. 

O processo de gravação de “É de Chocolate” e as inovações de Lincoln Olivetti
Então lá fomos nós gravar a primeira música do disco. A guitarra da introdução é do Robertinho do Recife, que também faz os vocais da música junto com a então esposa, Emilinha. Os arranjos são do Lincoln Olivetti. No dia de gravar a música foi engraçado, pois quando eu cheguei no estúdio vi tudo vazio, não tinha ninguém. “Onde está todo mundo?” - Vi um setup com vários instrumentos dentro da parte técnica, onde estavam o Robertinho e a Emilinha. Um técnico deu o play e eu ouvi toda a base pronta. A única coisa “real” era a guitarra do Robertinho do Recife. O resto foi criado pelo Lincoln com os chamados “módulos multitimbrais”, que nada mais eram a música computadorizada, uma tecnologia onde já existiam todos os instrumentos musicais gravados. O Lincoln fazia tudo sozinho e arranjava toda a música com essa técnica. Uma inovação naquela época no Brasil. Ele foi pioneiro! Foi uma das primeiras gravações do Lincoln utilizando esse recurso. A sonoridade dele era única.

Lincoln Olivetti e seus famosos módulos multitimbrais (imagem ilustrativa): pioneirismo na música brasileira


🎶Mais Convidados
Era certo que Patrícia e Luciano seriam o destaque do disco, mas eles não eram conhecidos o suficiente para segurar a divulgação sozinhos. Massadas e Sullivan queriam tudo que agradasse à criançada e também nomes de sucesso para impulsionar o disco, mesmo que não tivessem ligação com o universo infantil. Vieram Vanusa, Sérgio Reis, Martinho da Vila e o grupo Absyntho.




🎠A Carruagem vira o Clube da Criança
Todos os discos infantis de sucesso da época vinham de algum programa de TV: Turma do Balão Mágico, Pluct Plact Zuum, Arca de Noé, Pirlimpimpim e a Rede Globo detinha os direitos das trilhas. Fora desse domínio, quem despontava era Xuxa no comando do Clube da Criança, na Rede Manchete.

Estava decidido: o Clube seria o principal instrumento de divulgação do disco. Portanto o nome tinha que ser “Clube da Criança”, até para que se criasse uma referência na cabeça das crianças: “o disco do Clube da Criança”. Tudo perfeito se não fosse um probleminha: Xuxa, a “sócio fundadora” desse Clube não queria de jeito nenhum participar, pois não sabia cantar.

Como fazer um disco do Clube sem Xuxa? Paralelamente a isso, Massadas e Sullivan já tinham convidado dois nomes do universo infantil: o palhaço Carequinha, que também tinha uma atração na Rede Manchete e Sérgio Mallandro que, apesar de não ter um programa infanti,l já conquistava a simpatia da garotada.

Quarteto Fantástico: Carequinha, Xuxa, Patrícia e Luciano.
Xuxa e Carequinha já eram estrelas da Manchete, Patrícia e Luciano seriam as estrelas do disco


👑Xuxa
Se tem uma coisa que ninguém nunca vai poder falar de Xuxa é que ela se acha cantora. Mesmo depois de vender milhões de discos, o que certamente lhe daria argumentos para aceitar a condição, ela sempre afirmou: "não sei cantar". Imaginem, então, ela aos 20 anos, sem nunca ter pisado num estúdio de gravação... “Na cabeça dela, era a mesma coisa que fazer um jacaré voar” lembra Massadas.

Por isso mesmo, Xuxa tem uma participação tímida no disco que levava o nome do seu programa e esse pouco não foi fácil:
Para tentar convencê-la, marcamos uma reunião na Manchete com ela e com o Miguel Plopschi. Levei a letra de “Carrossel de Esperança” para que ela pudesse ter uma dimensão da nossa ideia. Eu ainda não a conhecia pessoalmente.
No dia desse encontro, o Sullivan tinha feito a melodia, mas eu não tinha acabado a letra, já estava quase na hora da reunião e nada...  Terminei a letra dentro do metrô a caminho da emissora. Era tudo ou nada, era a chance de ter Xuxa no disco. Não podíamos errar.  Cheguei, chamei o Miguel num canto e mostrei. Quando a Xuxa ouviu, ela ficou com cara de perdida, no final dessa reunião o que sobrou foi um ponto de interrogação. Não convencemos, ela disse que ia consultar a mãe dela, o Dico (Pelé)...  Ela tinha muitas dúvidas se participava ou não, pois ela não sabia cantar.
Quando ela falou em consultar o Pelé, veio a ideia: vamos chamar o Pelé, isso vai deixa-la mais segura. E não deu outra. O Pelé topou na hora e ela se convenceu.



Xuxa e seu autojulgamento: não sei cantar!
(mas sabe encantar, loira...)


🙏Finalmente o disco!
Com todo o elenco definido e suas respectivas canções, o disco alinhou 14 músicas que traduziam bem o clima do programa da Rede Manchete.  A direção artística foi de Miguel Plopschi (compositor e ex-integrante do The Fevers) e a produção de Guti Carvalho (que também produziu, entre outros, “Profana” de Gal Costa -1984 e o primeiro disco do Kid Abelha).

▶️1. É de Chocolate
Como definiu Massadas, a música de abertura precisava ser “arrasadora” e assim foi. Já falamos da faixa e seu processo de gravação, mas vale lembrar que, exatamente dez anos depois do lançamento da versão original, “É de Chocolate” foi regravada por Xuxa para o repertório do seu disco “Sexto Sentido”(Som Livre – 1994).

A faixa original ganhou seu primeiro registro em CD no último disco do Trem da Alegria (uma coletânea com algumas faixas inéditas, lançada em 1992).

Um clipe foi feito pela gravadora para divulgação e Patrícia e Luciano participaram de vários programas, sendo um dos mais memoráveis a apresentação no concurso Miss Brasil 84, exibido no SBT.

Abertura arrasadora: É de Chocolate se tornou o maior sucesso do disco


▶️2.    Carrossel de Esperança
Carrossel de Esperança se tornou a segunda música mais famosa do disco. A faixa que foi a “isca” para Xuxa acabou não tendo os vocais da loira (embora seja creditada a ela) e as atenções ficaram com o grupo Roupa Nova, que estreava na RCA Victor. Foi primeiro trabalho deles na gravadora. Um chamariz e tanto pro álbum pois a banda já tinha público cativo e estava em ascensão.



Como parte da estratégia de divulgação, um clipe foi gravado no Playcenter (antigo parque de diversões de São Paulo) e uma versão da faixa sem os vocais do Roupa Nova era utilizada para que Patrícia e Luciano pudessem apresentar a música nos programas e shows que participavam.
A faixa apareceu em inúmeras compilações infantis lançadas nos anos seguintes pela RCA e foi regravada por vários artistas, como Mariane e Celso Portiolli (até ele!). A gravação mais recente é a de Michel Teló e foi lançada no disco Michael Sullivan apresenta "Carrossel de Esperança", de 2017.



▶️3.    O Mundo Encantado de Um Palhaço
Carequinha é o homenageado da vez. Patrícia e Luciano cantam versos cheios de carinho ao mais famoso palhaço da TV: “quem quiser encontrar o amor, siga sempre seus passos / Se quiser acabar com a dor, ele tem um abraço”. A composição traduzia bem um sentimento de Massadas:

O Carequinha era meu ídolo quando criança. Mesmo antes da TV, eu já participava dos shows que ele fazia. Ele não poderia faltar no disco.

O palhaço Carequinha era interpretado pelo artista George Savalla Gomes e nos deixou em 05/04/2006, aos 90 anos. Lançou discos, atuou em filmes e participou de vários programas de TV, além de ter seu próprio programa na TV Manchete: O Circo Alegre do Carequinha.



▶️4.    Dartagnan e os Três Mosqueteiros
Se você se acostumou a ouvir pelo menos uma música dedicada a um desenho animado nos discos do Trem Alegria, saiba que tudo começou aqui. D’artagnan e os Três Mosqueteiros é uma versão do tema oficial do desenho animado espanhol D'Artacan y los Tres Mosqueperros. O desenho é de 1981, mas foi comprado pela TV Manchete para ser exibido no Clube da Criança. Anos depois o SBT adquiriu os direitos e passou a exibí-lo. Como o nome já fala, é uma versão animada do clássico “Os Três Mosqueteiros”, porém todos os personagens são cachorrinhos. A Julliete da música é a camareira da rainha. por quem D’artagnan é apaixonado.



▶️5.    A Moda do Sapo
O LP era cheio de suportes para dar certo” lembra Massadas. Certamente um desses suportes era a presença de Sérgio Reis. O cantor já tinha uma discografia sólida naquela época, além de ser uma das estrelas do catálogo da RCA Victor (desde 1973). Sérgio estava em alta pois tinha lançado, em 1983, um dos maiores sucessos de toda sua discografia: Panela Velha. Quem não conhece? A incursão de Sérgio no universo infantil veio através da “Moda do Sapo”, uma espécie de ciranda (“bate palma pra dentro, bate palma pra fora”). Patrícia e Luciano também dividem os vocais com o cantor.



▶️6.    Xuxa Xuxu
O primeiro destaque de Xuxa no LP é uma música feita em sua homenagem. A canção traduz o carinho que as crianças do Clube tinham por ela e a vontade de brincar junto. Composição de Juninho Ferreira (que também compôs Sete Quedas para o disco “Xuxa e seus Amigos” – 1985) e Edgard Barbiere, Xuxa Xuxu fala do lado menina da apresentadora (“Xuxa criança também, Xuxa menina também”). Era interessante frisar esse lado, pois Xuxa vinha da carreira de modelo em que a imagem que as revistas mais queriam vender era a de mulher sensual e ali, junto às crianças, esse lado não tinha vez. Era a amiga das crianças e pronto. Os vocais são de Patrícia e Luciano.




▶️7.    Meu Ursinho Blau Blau
A música não foi feita para o disco, Meu Ursinho Blau-Blau foi lançada um ano antes, em 1983, e estava tocando bem em todas as rádios, mas o grupo Absyntho, que cantava a música, ainda não tinha lançado nenhum álbum no mercado (apenas um compacto de 7’). Era unir o útil ao agradável: a música sairia em um álbum e também serviria de chamariz para o LP do Clube.

Nessa época a música Meu Ursinho Blau-Blau já estava estourada, era um gancho que serviu de apoio para o disco. Era preciso dar certo. O Absyntho não teve LP na época, só três compactos. Então foi também a chance deles incluírem a música em um álbum. (Paulo Massadas)

O processo de criação também passou pelas mãos de Massadas (ainda na BMG), que se incumbiu de transformar a faixa “Na Toca da Ilha” naquilo que hoje conhecemos como “Meu Ursinho Blau Blau”.

Sylvinho, o vocalista, deu alguns detalhes:
"Éramos uma garotada com uma banda de "rock and roll" de estilo pesado mesmo. Fizemos umas músicas e levamos para a BMG. Eles ouviram uma canção que tínhamos, "Na Toca da Ilha", e falaram: "Vamos mudar essa letra para algo mais popular". Deram a letra para o Paulo Massadas e aí nasceu "Meu Ursinho Blau-Blau”. (Declarações ao jornal Folha de São Paulo, em 13/01/2001)

E Paulo arrematou:
O Miguel Plopschi, diretor artístico, me chamou e disse que tinham uns rapazes de uma banda nova que tinham uma música e queria que eu fizesse a letra. Eles começaram a cantar “lalalala, ui Blau Blau”. O “blau blau” já existia, era uma espécie de onomatopeia que eles criaram, apenas um som e não um personagem. Eles mostraram a melodia, o “blau blau” e falaram: agora você coloca uma letra. Aí eu pensei: o que tem a ver com Blau Blau? Eu levei uns 15 dias tentando descobrir como eu poderia dar um significado para “blau blau”, quase desisti, até que me lembrei de um documentário que eu havia assistido na TVE que falava de garotas que dormiam com bichos de pelúcia.
Pensei: é isso! Blau Blau vai ser um ursinho de estimação, amigo e confidente. E como o vocalista não era uma menina e sim um rapaz jovem, chamaria muito mais atenção. E foi um tremendo sucesso.






▶️8.Debaixo do seu Nariz
Rá! Só por esse início já dá para saber quem era o convidado da faixa... Sérgio Mallandro, mas a canção não tem nada de “pegadinha do Mallandro”. É uma das letras mais bonitinhas e ensina que a felicidade está nas pequenas coisas, “bem debaixo do seu nariz”. Se não fosse pelas brincadeiras faladas de Sérgio no meio da faixa daria até para se pensar “mas é o Sérgio Mallandro mesmo? Aquele meio louquinho?”

A faixa foi feita pensando nele, como conta Massadas:
O Serginho já tinha uma projeção com o lado infantil, a garotada também gostava, não era só o adulto, por isso o chamamos. Por mais que ele fosse amigo da Xuxa, isso não foi determinante.  O ato de compor é muito interessante, é quase uma incorporação. Quando a gente já sabe qual artista vai cantar, a gente tenta imaginar como ele imaginaria a letra.





▶️9.    Recado à Criança
Quando se fala em Pelé cantando, apostamos que você se lembra do “ABC... ABC”, embora essa música também tenha a ver com nosso assunto, não é hora de falarmos dela (ainda). Em “Recado à Criança”, Pelé é o compositor e o cantor. O jogador não tem seus melhores momentos na função, mas o faz com boa intenção, pois tinha consciência de sua influência na garotada que o via como ídolo no esporte.

Recado à Criança foi apresentada pela primeira vez no Especial de Natal do Clube da Criança de 1983. Pelé cantou a música ao vivo com o acompanhamento de um violão.




▶️10.Lápis de Cor
Quando se ouve “Lápis de Cor”, talvez você não consiga imaginar uma outra cantora no lugar de Xuxa, mas se for mais atento, vai encontrar algo que remete ao estilo de Rita Lee. Como disse Massadas, Xuxa tinha o potencial de fazer a “ritaleezação” da música infantil:

A ideia de Lápis de Cor era fazer uma coisa mais Rita Lee, mais sussurrada, já que Xuxa não queria evidenciar tanto a voz. A música foi feita pra Xuxa cantar, respeitando seu timbre e todas as limitações que ela tinha de voz. Como não era a faixa de abertura do disco, não precisava ter grande impacto, então fizemos algo mais gostosinho, docinho. O objetivo era Xuxa participar, então éramos nós que tínhamos que nos adequar a ela.
A Xuxa sempre teve a favor dela um autojulgamento muito bom. Ela sabe quando pode e quando não pode. E desde o começo, ela deixou bem claro: “eu não sei cantar”. E isso foi ótimo, pois pudemos ajudá-la da melhor maneira possível. E ela aceitou toda aquela ajuda.

Xuxa já contou que chegou a beber doze copos de água para conseguir gravar, Massadas lembra que isso acontecia porque ela ficava rouca rapidamente.
E a mistura de água, boa vontade, profissionalismo e ajuda de quem sabe causou boa impressão. Olha só o que disse a Veja sobre a estreia de Xuxa como cantora:




▶️11.Circo Alegre do Carequinha
Segunda música de Carequinha no disco, essa era também o tema de seu programa que levava o mesmo nome e era exibido na Rede Manchete. O programa “Circo Alegre do Carequinha” estreou alguns meses depois do Clube da Criança, em 17/10/1983.




▶️12. Dorme Meu Bem
Entramos na leva de canções mais calmas do disco, estrategicamente alocadas ao final como se fosse hora de “desligar” a garotada. Vanusa canta com Luciano uma espécie de diálogo entre mãe e o filho, que chama pela mãe após um pesadelo e não quer mais dormir. Uma delicada canção de ninar. Vanusa já fazia parte da RCA Victor há algum tempo e a maioria de seus discos saiu pela gravadora.




▶️13.Sonhos de Criança
Se na faixa anterior o destaque foi de Luciano, agora é a vez de Patrícia. Ela faz dueto com Martinho da Vila, outro importante nome da gravadora desde 1969. Composição do próprio cantor, “Sonhos de Criança” traz citação da cantiga popular “O Cravo e a Rosa”.

Hoje a canção pode causar certo espanto pelos versos “o cravo transou com a rosa”, mas é preciso se lembrar que no final dos anos 70 e início dos anos 80, o verbo “transar” não tinha a conotação exclusivamente sexual de hoje. Era um verbo “multiuso”: namorar era paquerar e era transar.  As coisas bacanas ou não, em geral eram transas. Transar era fazer, brincar, curtir… Então nada de criar polêmica onde não tem.

A música também segue na linha mais calma, diminuindo o pique para preparar a garotada para o encerramento do disco.




▶️14.Eu Vi
Imaginem uma música que toda mãe amaria... é essa! Fala exatamente tudo que nossas mães nos ensinam a fazer antes de dormir, da forma mais simples e didática. “Eu vi que é hora de dormir... mas antes vou guardar meus brinquedos pra amanhã, guardar também minha lição e antes de deitar, meus dentes escovar e depois fazer minha oração”.

Dá até pra imaginar alguma mãe de noite falando: “menino, vamos fazer igual a música da Xuxa, vamos?”... Pois é, a loira cantava essa música no encerramento do Clube e se tornou uma das marcas do programa. A música já existia mesmo antes do disco sair, porém com arranjos bem diferentes do registro oficial.



Trazê-la para o disco foi uma forma de reafirmar a necessidade de se criar um vínculo com o programa, facilitando a assimilação pelas crianças.






🎧Formatos e divulgação
Tanto se fala no LP do Clube da Criança – ou “disquinho do Clubinho”, como Xuxa preferia dizer – que a gente quase esquece que ele também foi lançado em fita K7. A fita, por razões óbvias, não tinha grandes atrativos, diferente do LP que, além da capa e contracapa bem coloridas, trazia internamente todas as letras das faixas numa segunda capa interna.



Clube da Criança em LP e K7

Cadê a estrelinha azul que tava aqui?
hahahaha quem percebeu a diferença?


Inicialmente foram liberados dois discos single: um para É de Chocolate e outro para Lápis de Cor. A arte principal das capas é a mesma, mudando apenas os convidados da vez.




Os discos-single foram distribuídos às rádios antes do lançamento do disco


Um fato curioso é que podemos ver uma capa “alternativa” para o LP principal, que ainda não tinha saído. A arte foi feita por Elifas Andreato, já consagrado por realizar capas de discos para Toquinho (Aquarela), Vinícius de Moraes (Arca de Noé 1 e 2) e Chico Buarque (Ópera do Malandro).

Qual vocês preferem? A provisória ou a definitiva?


Na TV, o disco ganhou um comercial com direito a uma exclusiva locução de Xuxa ao final. A exibição, obviamente, era na Rede Manchete.



A mídia impressa recebeu anúncios do disco, entre abril e maio, e também cupons de desconto, veiculados em gibis da Editora Abril, no mês de outubro. Esses cupons davam o abatimento de Cr$1000,00 (cerca de R$5,00 hoje) na compra do LP ou da K7.


Anúncio publicado nos gibis da Editora Abril no mês de outubro de 1984

Falando em cupom, dentro do disco vinha um para que a criança se tornasse “sócia” do Clubinho e ainda concorresse a prêmios sorteados por Xuxa e que também valia uma entrada no Playcenter.


Anúncio veiculado nas revista da Editora Bloch em maio de 1984
Com o disco já lançado, saiu ainda um compacto 7’ com 4 faixas: Carrossel de Esperança, Lápis de Cor, Xuxa Xuxa e Moda do Sapo. Era a RCA apostando alto!


O compacto de 7' reafirmava Carrossel de Esperança como segunda música de trabalho do disco




🎉Festas de lançamento
O disco foi o primeiro projeto infantil da gravadora RCA e ela já o aclamou com ares de grande estrela. Duas festas, uma em São Paulo e outra no Rio, foram realizadas para apresentar o disco à imprensa.

São Paulo
Realizada na discoteca Dancing, no dia 19/03/1984. A festa reuniu quase todos os intérpretes do disco. As atenções, claro, ficaram para Xuxa, Patrícia e Luciano. Cerca de 1000 pessoas se aglomeraram na boate para ver de perto os cantores. A ausência da noite foi Pelé, que tinha outros compromissos, mas mandou seu filho, Edinho, para representá-lo.



Rio de Janeiro
No dia seguinte, 20/03/1984, a festa aconteceu na boate Studio C. Estava todo mundo lá de novo e, dessa vez, Pelé apareceu e ainda cantou Recado à Criança com Patrícia e Luciano. Sérgio Mallandro, Vanusa, Roupa Nova... como disse a revista Manchete: “esse clube tem espaço para todos” (07/04/1984).







🏅Vendagem
E as apostas deram certo: de acordo com Paulo Massadas, em menos de 1 mês, o Clube da Criança ganhou o disco de ouro e vendeu 100 mil cópias. Em dezembro daquele ano, o álbum já havia vendido 250 mil. Patrícia e Luciano chegaram a ir ao programa do Velho Guerreiro receber a certificação.



A vendagem final foi informada pela revista Afinal, em matéria sobre o já consolidado Trem da Alegria, em 1988: 350 mil cópias vendidas, garantindo disco de platina duplo (na certificação da época). Um excelente número de estreia.



❓Curiosidades
Existiram faixas descartadas? Em entrevista à revista do Mickey, publicada em maio de 1984, ao ser perguntada sobre sua estreia como cantora, a loura conta algo interessante:

Toda criança gosta de ouvir historinha e músicas, né? Então gravei um disco onde conto a história de uma princesa que... bom, só sei que procurei transmitir uma mensagem de valor para todo mundo. Além de contar a historinha, canto outras três músicas e o disco conta ainda com a participação do Pelé, do Sérgio Mallandro e da turma do “Ursinho Blau-Blau”.

Clube da Criança – volume 2! Sim, houve o projeto de um novo disco para o Clube, mas com a chegada de Juninho Bill e a formação do Trem da Alegria, o que seria o volume 2 do Clube se tornou o disco de estreia do Trem da Alegria. E a ordem era não mexer em time que estava ganhando, tanto que alguns convidados são os mesmos: Pelé, Carequinha e, claro, Xuxa. Em março de 1985, Xuxa e Pelé entraram em estúdio para gravar algumas faixas, a imprensa chegou a noticiar o nome das músicas, que acabaram reaproveitadas no LP do Trem.

Lembraram do ABC... ABC...?
Pois é, seria para o Clube da Criança 2


🌈Xuxa menina também...
Hoje, 35 anos depois, conseguimos ver o quanto o destino já estava traçado. Quem diria que aqueles versos lúdicos de “Lápis de Cor”, seriam realidade? “Uma nave pra você viajar... Essa vida é doce... Se eu pudesse ser um dia uma fada, seu desejo iria realizar...

Sem saber, Massadas previu todo o universo que Xuxa construiria. A moça que não sabia cantar se tornou a recordista em vendas de discos no país, a voz tímida arrastou multidões e aquele lápis de cor pintou até um arco-íris.



Xuxa modelo, Xuxa apresentadora, Xuxa cantora... 
na formação de tudo: Xuxa menina também!


🏆Nosso agradecimento especial aos queridos Paulo Massadas e Sandra, que sempre numa gentileza ímpar, nos conduzem nessa volta ao tempo de maneira tão atual, fazendo com que 35 anos fosse como ontem. Muito obrigado por tudo!

terça-feira, 14 de maio de 2019

Xuxa na roda-viva do sucesso (Revista NOVA - Abril 1983)

Umas das coisas mais bacanas de se voltar no tempo é ver o quanto nós melhoramos com o passar dos anos; geralmente isso diz respeito à aparência, os gostos, às ideias... Melhor que isso é ver alguém que admiramos há tanto tempo, ainda hoje mantém sua essência exatamente como há mais de 30 anos e que, ao contrário do que muitos dizem, nunca foi um personagem.


Foto: José Antonio


Convidamos você a ler a primeira matéria que a revista Nova (Cosmopolitan) (1973-2018) fez sobre nossa Rainha, em abril de 1983. Mas antes, vale a pena lembrarmos alguns fatos:

▶️Essa não foi a primeira capa da loira para a publicação, foi a segunda. Xuxa fez dez capas, sendo a primeira em 1981 e a última em 1996.
▶️Aparecer na capa da Nova não era sinônimo de matéria interna. Pelo contrário, a regra era realmente só estampar a capa e pronto! Portanto, conseguir uma matéria de 4 páginas, além da capa, como foi o caso de Xuxa, era realmente um feito.
▶️São 4 páginas e UMA foto na matéria, ou seja, muito texto! Então vamos lá... Ah, você vai encontrar notinhas que fizemos em alguns parágrafos para lhe ajudar a se situar melhor no ano de 1983.



Ela caminha com graça pela casa, vestindo apenas o necessário: um mínimo short branco e uma miniblusa vermelha que quase descobre os seios conhecidamente belos. Mas que ninguém julgue Xuxa pelo pouco que veste – nesta família, a nudez é simplesmente uma coisa natural, nunca existiu, para nenhum dos cinco irmãos, uma exigência de pudores sem razão de ser. Para eles, o corpo é belo, é natural. É saudável, sobretudo. E se as pessoas se espantaram com a naturalidade da família de Xuxa em aplaudir suas famosas fotos sem roupa, sem dúvida os Meneghel até hoje se cobram com a cobrança que lhes fazem de uma atitude que sempre foi cotidiana para eles.

E a cabeça da menina – Maria da Graça – de 20 anos só aguentou as agressões sofridas pela nudez exposta graças ao carinho e ao apoio dos pais e irmãos, uma família que se gosta, se protege, se curte, e não deixa que ninguém seja ferido por estranhos. Tranquila, com um sorriso que ilumina o rosto inteiro e uma simpatia que conquista ao primeiro contato, Xuxa não dispensa a carinhosa proteção e a companhia constante de D. Alda – sua mãe e empresária – e de Bladimir – seu irmão e melhor amigo.
Nota do blog: Desde que começou a modelar, Xuxa ganhou ares de símbolo sexual e as revistas gostavam de explorar esse lado. Poucos meses antes, em dezembro de 82, havia saído seu ensaio de nu para a Playboy, um dos mais pedidos na publicação.


No início da década de 80, as revistas vendiam a imagem de Xuxa como sex symbol, em contramão à realidade: Xuxa estava mais interessada em passar seu tempo com os animais ou com sua família

O cabelo bem curtinho, quase dourado, os olhos miúdos, o narizinho bem-feito dão-lhe um ar de menina sapeca que contrata agradavelmente com o corpo perfeito de mulher. E, certamente, esta combinação é o segredo do seu sucesso. Bebendo chá digestivo (ela faz alimentação natural desde os 13 anos) e comendo balinhas de canela (“aquelas que o ET gosta de comer, no filme”), Xuxa fala muito, sem bloqueios, sem preparar frases de efeito. Por que este sucesso com as crianças? Xuxa responde: “Já me disseram que isso é só porque estou na moda. Quer dizer, se o E.T. está na moda, as pessoas gostam dele. Se a Xuxa está na moda, as pessoas gostam dela. Mas não acho que seja por aí, acho que é porque o meu trabalho é verdadeiro, é natural, é sincero”.
Nota: O filme E.T. - O Extraterrestre tinha sido lançado no Brasil também em dezembro de 1982 e era a febre do momento, por isso as citações de Xuxa ao simpático alienígena. Se fosse nos dias de hoje ela usaria alguma referências a Vingadores Ultimato ou Game of Thrnoes... Mas o mais interessante é ver que o interesse das crianças já existia, mesmo ela ainda não tendo feito nenhum trabalho para elas. É, não era moda, como ela achava. Era destino.


Muita gente acha que o que atrai a garotada é o ar sapeca de Xuxa, o fato de ser dentucinha. Ela acrescenta a isso a alegria e a soltura com que faz o seu trabalho: “Nunca fiz um trabalho em que não me expandisse, conta ela. Comecei a fazer fotos com 16 anos, em plena adolescência, e sempre fazia minhas fotos brincando, pulando, rindo muito. Estou sempre dando gargalhada, é difícil eu fazer coisa séria. Estou sempre mostrando os dentes, ou rindo com o olho. Apesar de que eu não gosto muito de tirar fotos sorrindo, porque me acho muito bochechuda, mas as pessoas dizem que esta já é minha marca registrada”.

Foi a caminho de uma aula de ginástica olímpica que Xuxa recebeu o convite, no meio da rua, para ser fotografada. Desconfiou, a princípio, de que não passasse de uma desculpa de paquerador. Mas, afinal, o convite coincidiu com seu desejo de aparecer na capa das pequenas revistas de fotonovelas. Um desejo modesto diante da sua beleza e de seu potencial fotogênico. Mas Xuxa jamais deu importância ao fato de ser atraente. “A única vez que eu quis entrar num concurso de beleza, lembra ela, foi quando fui eleita ‘Rainha do Carnaval’. Mas só porque eu tinha 13 anos e não podia brincar o carnaval à noite, que era uma coisa que eu queria muito, sendo eleita eu pude entrar no baile lá em Coroa Grande. Depois, fui ´Miss Objetiva´ com 16 anos, e eu curti, achei um barato.
Este desejo secreto de ser capa de revista, ainda que modestamente, foi que levou Xuxa a passar por cima da desconfiança e aceitar o convite.


O concurso "Miss Objetiva" em que Xuxa tirou o primeiro lugar aconteceu em novembro de 1979


“No começo, eu ia sempre com a minha mãe. As pessoas me diziam que eu precisava fazer coisas como cortar meu cabelo, que era enorme, e eu fui aceitando tudo numa boa. Teve um dia que eles disseram que a gente ia fotografar na Barra da Tijuca, e que minha mãe não podia ir. Eu sempre tinha ouvido falar que no mundo da fotografia tinha muita sacanagem – mas hoje eu sei que é como em qualquer outro meio, depende da sua cabeça. E fiquei com um pouco de medo. Eu já estava toda maquiada e tomei uma decisão: fui. E deu tudo certo. A partir dali começou a aparecer muito trabalho. No primeiro ano em que trabalhei fiz 59 capas”.




A presença da mãe nunca foi motivo de constrangimento para Xuxa, ao contrário – ela não faz nada sem antes conversar com a família, trocar ideias, se orientar. Mas as pessoas com quem trabalhava não sabiam bem como agir com aquela mãe por perto. O aprendizado era difícil. Obedecer a ordens como “dá mais o ombro” – que ela não tinha a menor ideia do que significava – ou “faz cara de tesão” – coisa que também não imaginava como pudesse ser – foi algo que ela conseguiu intuitivamente. E, depois, entendeu que os fotógrafos são realmente os únicos professores de uma modelo, os únicos capazes de lhe ensinar como se aperfeiçoar, além de um meticuloso trabalho de observação do resultado das próprias fotos, comparando e sacando o que poderia trazer um efeito melhor.

Pois, para espanto geral, foi exatamente a mãe desta menina inexperiente e um tanto ingênua quem abriu as portas para que ela mostrasse o corpo ao público. D. Alda mesma é quem conta: “Eles tinham que fotografar a Xuxa de camiseta, e não estavam bem sabendo o que fazer. Eu então sugeri que pusessem uma camiseta amarela nela, e depois ela se molhasse, para a camiseta grudar no corpo e ficar transparente”. O espanto foi geral, naturalmente. Mas é que D. Alda, além de nunca ter tido problemas com a nudez dentro de casa, encara o nu como parte da profissão da filha e sabe “que a sensualidade está no ar hoje, as garotas gostam de se sentir mais soltas”. Portanto uma foto mais atraente vende mais, funciona bem. “E o corpo da minha filha é muito bonito mesmo, acrescenta ela.
Nota: Essa, sim, era a personagem que Xuxa encarnava: a de mulher sensual, vulcão em erupção (como a Playboy a nomeou em 1981). Nesses relatos vemos o quanto Xuxa estava distante dessa realidade, era apenas seu trabalho como modelo, não seu estilo de vida.



A única foto da matéria mostra que Xuxa vale ouro. Curiosamente, esse mesmo ensaio deu origem à terceira capa da loira para a revista NOVA, oito meses depois
Foto: José Antonio


Certamente foi difícil as pessoas entenderem, no meio profissional, esta menina que era tão ingênua, mas que, por outro lado, trocava de roupa sem pudor na frente dos outros. Como era possível fazer isto, e, ao mesmo tempo, não fumar, não beber, não transar, não tomar droga nenhuma. “As pessoas não entendiam, me chamavam de bobinha, ou me botavam palavrões como apelido”, lembra Xuxa. “Eu ficava meio encucada com isso, mas depois foi passando, e o pessoal se acostumou com meu jeito.”

Assumir a profissão lhe custou muitos amigos. Seus pais sempre lhe deram total apoio. Mesmo quando o capitão Meneghel, um tanto a contragosto, trazia para a casa os pedidos de autógrafos para seus superiores, ou via a foto de sua filha nos armários dos soldados, mesmo nestas horas ele jamais teceu um comentário que pudesse desestimular Xuxa. Dolorosamente todos eles foram descobrindo que ser Xuxa, ou ser parente dela, tem um preço alto: é muito raro encontrar alguém que se aproxime deles por amizade sincera, e não por interesse. Mas também isso foi uma situação assumida coletivamente, solidariamente. Xuxa chegou a perder uma grande amiga, porque ela cismou que o namorado estava interessado numa troca. E Blad descobriu que um sujeito que se fizera passar por um grande amigo durante muito tempo queria apenas ir para a cama com sua irmã.

Além dos amigos perdidos, existe ainda a competição feroz entre as manequins. Xuxa foi chamada para trabalhar na passarela, além de fotografar. E sentiu logo o peso da “panelinha”: “Quem trabalha como manequim está na profissão há quinze anos e não deixa ninguém entrar. São as ‘titias’. Eu, pra trabalhar na passarela, mesmo tendo um nome em fotografia, tive dificuldades, porque elas te olham de lado, não te emprestam nada. Se for possível quebram o salto do sapato que você vai usar, dão nó na calça que você vai vestir. Muitas vezes já desfilei descalça por causa disto. Cada vez está ficando mais difícil, porque o pessoal novo tem muita coisa par mostrar, tem gente que aprendeu dança e outras coisas, e usa isto no desfile, e então as ‘titias’ não deixam mesmo ninguém entrar, porque elas têm medo. Em fotografia não é assim, o meio é mais saudável”.


E não foram poucos os dissabores enfrentados por Xuxa, que abre seus desfiles vestida numa roupa colante, cheia de brilho, mostrando nas passarelas as artes aprendidas no jazz e na ginástica olímpica. Das sabotagens às arapucas, essa menina viveu, em seus quase três anos de profissão, muita situação ruim, muita coisa dura de se aguentar. Mas aguentou sempre apoiada pela presença da mãe. E não foram poucos os convites para trabalhos que nunca existiram, que eram apenas tramitações para convencê-la a transar com pessoas quaisquer, a troco de muito dinheiro. Mas tudo tem sido superado com muita elegância e bom humor. E as compensações do clima de cooperação que existe entre as modelos fotográficas, segundo Xuxa, “um esquema mais irmão”. Onde, pelo menos, não se rouba a roupa das companheiras na hora de entrar na passarela. O que faz Xuxa topar essa briga? O espírito profissional. A consciência de não decepcionar um público que “quer ver um bom trabalho”. Que ela faz questão de mostrar com a maior correção. Mesmo que tenha que entrar no palco com lágrimas nos olhos e os nervos em frangalhos.
Nota: E como era de se esperar, a imagem vendida pelas revistas causava impressões erradas nas pessoas que, nessa época, tinham mais dificuldade em separar a ficção da realidade. É interessante observar um detalhe para o estilo dos desfiles de moda, um tanto diferentes do que vemos hoje. Antes as modelos faziam pequenos números de dança na passarela, não era só mostrar a roupa como hoje.

Mas não é só a família quem segura a barra de Xuxa: existe também aquele que ela chama de seu professor, um professor de vida – Pelé. Um romance discutido, uma amizade profunda. Pelé surgiu na vida de Xuxa exatamente quando ela, atormentada pelos telefonemas anônimos e pressões ameaçadoras que sua família recebe, estava decidida a sair de casa para poupá-los destas coisas desagradáveis. E nesta altura dos acontecimentos foi chamada para posar ao lado de Pelé. Conflitada pela decisão de sair de casa, pediu a ele, que acabava de conhecer, um conselho. E perguntou também sobre um trabalho que haviam lhe oferecido no exterior. Desde então, Pelé tornou-se seu conselheiro a quem ela inevitavelmente consulta antes de qualquer decisão importante, pesando a opinião dele com o mesmo carinho com que pesa a de seus pais e irmãos. Nem por um momento passou pela cabecinha loura dessa moça que poderia desgastar sua imagem tendo uma relação afetiva com Pelé, assim como não tinha pensado que pudesse gastar esta mesma imagem fotografando muito, aparecendo muito nas revistas e filmes de publicidade. “eu acho que o que te queima, diz ela, não é a maneira como você trabalha, mas sim a maneira como você age”.

E é isso que a leva a afirmar com toda tranquilidade que “é melhor ser a Xuxa do Pelé do que ser a Xuxa de qualquer um que não faça o meu esquema, que não seja como eu quero. Ele é uma pessoa que todo mundo curte, eu conheço bem a pessoa que ele é, conheço lá dentro dele e é ótimo”.


Xuxa e Pelé na Califórnia (EUA) em março de 1983

No começo ele temeu que Xuxa pudesse ficar marcada por este rótulo de ser a “Xuxa do Pelé”. Mas a moça é tinhosa e não engoliu, nem deixou Pelé dar pra trás. Apesar de estar apaixonada, Xuxa não considera exatamente um namoro a relação dos dois, porque a distância é grande, ambos viajam muito, e se veem relativamente pouco. “Mas se eu tiver que escolher uma companhia para sair, vai ser sempre ele”, afirma Xuxa.

E Xuxa conta com uma aliança poderosa: a dos filhos de Pelé que gostam dela, muito. “A pequenininha que é a Jennifer, de 4 anos, fica fazendo poses, me imitando. Uma vez ela puxou o cabelo pra trás e perguntou pro pai: agora você vai gostar mais de mim? E ele disse: Por quê? Aí ela respondeu: Porque eu tô com o cabelo igual ao da Xuxa”, conta ela, deliciada. E a amizade por Pelé se estende também aos pais dele, Dondinho e D. Celestinha, que Xuxa considera “uma grande filósofa”, como sua própria mãe.
Nota: Xuxa estava no meio de seu namoro com Pelé, apesar de já ter passado um pouco a fase de se referirem a ela como “a namorada do Pelé”, ela mostra que isso incomodava mais a ele que a ela, que tinha consciência que o namoro a ajudou, sim, a ligarem o nome à pessoa, mas fez questão de frisar suas muitas capas antes mesmo do namoro. Coisa que muita modelo não fez na carreira inteira.

Do lado de cá, nenhum problema, nem quanto ao choque das pessoas pelo fato dela ser loura, e ele, negro. Pelo contrário. D. Alda faz questão de afirmar: “nossos melhores amigos são pessoas negras”. E Xuxa conta uma curiosidade: sua paixão de início de adolescência foi um rapaz negro que morava no seu prédio, Dunga, responsável pelo primeiro beijo que ela recebeu na vida. E mais: Xuxa sempre declarou que, se não pudesse ter filhos, iria adotar uma criança negra, por que a maioria prefere sempre os lourinhos, e ela é contra essa discriminação.

Muita gente cobra ainda a diferença de idade entre Xuxa e Pelé (ela tem 20, ele tem 43). Mas isso também não a assusta: na opinião de Xuxa eles se equilibram. Pelé lhe traz calma, ela acelera seu pique. Pelé a faz ser sensata, racional; ela o faz mais doce, menos desconfiado. E, além disso, Xuxa sempre gostou de homens mais velhos. Garante também que “mulher envelhece mais rápido” e aí, a diferença de idade não pesa.

Esta relação de pouco se verem satisfaz Xuxa inteiramente, mesmo porque ela é contra o casamento. Casar é coisa que só faria se fosse indispensável para agradar alguém amasse muito, mas prefere não ter que se atrelar por vínculos de papel. Logico, não dispensa a ideia de viver junto, “mesmo porque, diz ela, é tão difícil hoje em dia encontrar alguém com quem a gente se dê bem que, quando a gente consegue, tem mais é que ficar junto mesmo”. E já fez quase três anos que ela e Pelé acham “muito bom sentir saudades um do outro”. De qualquer jeito, Xuxa jura que Pelé não tem nada a ver com o fato dela sempre ter gostado de futebol e jogar com os irmãos, sendo mestra nas “embaixadinhas”.

Definitivamente, Xuxa separa inteiramente sua vida afetiva do lado da profissão que a coloca como sex symbol. Faz questão de avisar às pessoas que a agridem ou a idolatram por causa disso que “ser símbolo sexual é uma coisa para vender revistas, é uma mentira”, que nada tem a ver com sua real personalidade. E considera, por exemplo, os soldados que pregam suas fotos nos armários como pessoas que “curtem o meu trabalho. Pôr as fotos no armário é uma interpretação que eles fazem do trabalho, assim como as crianças fazem outra interpretação”, diz ela.


O ensaio também serviu para divulgação da promoção "Modelo do Ano" realizada pela grife Jeans Patt's e a revista NOVA


E, realmente, essa imagem profissional sedutora não corresponde ao aprendizado complicado que Xuxa teve do sexo: “Aos 11 anos eu acreditava que a gente ficava grávida com um beijo. E descobri por uma amiga, numa revistinha de sacanagem, que era muito mais do que aquilo”, lembra ela. “Fiquei uns dois dias sem dormir, imaginando tudo que tinha lido, coisas como o carrasco pegando a mulher. Nunca imaginei que precisasse ter um relacionamento em que o homem e a mulher ficassem nus e fazer tudo aquilo, apesar da minha mãe ter me falado de menstruação, de funcionamento do corpo. O primeiro que tentou pegar no meu seio, dei um soco nele. E quando comecei a fazer fotografia, ficava pensando se as pessoas não me achavam idiota porque eu não transava, e aí eles me punham apelidos e eu ficava com ódio. Mas depois foi uma coisa que foi acontecendo naturalmente. Passou aquela vontade que eu tinha de jogar pedra, bater nas pessoas que mexiam comigo na rua. A descoberta do sexo foi, afinal, pra mim, uma coisa supergostosa, supernatural. É uma coisa que não dá pra falar, não tem palavras, a gente pode se expressar errado, ou então vai estar faltando alguma coisa, de tão grande que é”.
Nota: Não é de hoje a birra de Xuxa com a formalização do casamento, viram só? Também podemos ver  mais uma prova que o vulcão das revistas não era nada disso, era super tranquila com relação ao sexo e esperou as coisas acontecerem naturalmente, sem atropelos... por mais que quisessem apressá-la nisso.

E é assim que ela vai levando com cautela sua vida tumultuada, sem sábado, domingo ou feriado, trabalhando a ponto de desmaiar de cansaço. Por que? Simplesmente porque não é capaz de dizer não a um pedido de trabalho, a não ser que fareje alguma possível safadeza. Calejada, mais alerta, ouvindo os conselhos de Maruska e Solange, suas irmãs, ou de Cyrano, o outro irmão, Xuxa prossegue enriquecendo sua relação fundamental com a lente da câmera fotográfica, a única coisa que existe para ela quando está no estúdio.

E, por causa dessa paixão, adiou a outra, cultivada desde criança: o desejo de ser veterinária, viver entre bichos e plantas, com quem adora conversar. A matrícula feita, e trancada por falta de tempo, está esperando que Xuxa envelheça um pouco, pois segundo ela, esta profissão é coisa que dura um tempo certo, depois acaba. E, quando acabar, sua intenção é comprar uma fazenda e realizar o velho sonho. Por enquanto seu carinho pelos animais é saboreado apenas por Xuxo, seu cãozinho fila.


Xuxa durante as filmagens do longa "Fuscão Preto": mesmo trabalhando, Xuxa aproveitava para demonstrar seu amor pelos animais. No detalhe, Xuxo, ainda filhote, quando foi dado de presente à Xuxa numa das gravações


Por causa da fotografia, ela resiste à tentação de fazer cinema (já fez dois filmes: Amor, Estranho Amor e Fuscão Preto) mais vezes. E recusa papéis em teatro por medo de provar dessa droga que atrai tanto as pessoas. De qualquer modo, quer se aperfeiçoar profissionalmente antes de mergulhar no trabalho de atriz, principalmente empostar sua voz, da qual não gosta.

E se realiza e se sente feliz com o clique das fotos e afirma: “É um ritual, é uma ilusão, e é uma festa. Porque você é mil e uma. E isto é bonito”.
Nota: Finalizando, um pouco de tudo que a gente já conhece na Xuxa de sempre: a vontade de ser veterinária, a importância dada à família, Xuxo e até sua insatisfação com a própria voz.

De volta a 2019...
É ou não é uma viagem e tanto? Saber o que se passava na cabeça daquela modelo que nem imaginava tudo que lhe esperava e o melhor, como dissemos, é ver que ela é a mesma de sempre, pois não existe essa ou aquela Xuxa, só existe XUXA!


Não existe essa ou aquela Xuxa, apenas existe "a" XUXA

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