quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Matéria: A bagunça-consentida da Xuxa

Jornal: Jornal do Brasil
Data: 16/07/1989
Autor: Bráulio Tavares

Bobeou, dançou estréia em clima de comédia pastelão

O novo programa da Xuxa, Bobeou, Dançou (TV Globo, domingos, às 13h), não é na verdade um programa: é apenas mais uma jogada no complicado xadrez das emissoras de TV, na disputa pelo entorpecido público das tardes de domingo. A primeira ofensiva pesada da Globo contra seu principal adversário nessa área, o SBT, foi o Domingão do Faustão, que com suas toneladas de cartas e avalanches de prêmios conseguiu enfrentar de igual para igual o imbatível Programa Sílvio Santos. Bobeou, Dançou surge agora como complemento desse lance, cooptando o público juvenil por força do carisma puro e simples da apresentadora; daí a Xuxa entrega pro Faustão, o Faustão entrega pros Trapalhões, que entregam pro Fantástico, depois do Fantástico, vêm os gols, depois, um filme qualquer e, quando menos se espera, é segunda-feira, as crianças já estão de pé e lá está Xuxa de novo.

Já que Bobeou, Dançou não é um programa e sim um quadro que ganhou horário próprio por motivos estratégicos, não se pode exigir dele mais do que oferece: não há muita elaboração de cenário ou de roteiro, e o investimento feito pode ser considerado mínimo, em vista da importância do horário. O programa flui rapidinho: as charadas são numerosas e o tempo para decifrá-las, que já é curto, fica mais curto ainda porque as torcidas não param de gritar a resposta para os atarantados concorrentes. Isso acaba dando aos quadros um ritmo de partida de basquete, cheio de alternâncias; e evita que o telespectador fique se preocupando com os mesmos problemas que preocupam a apresentadora: Se as duas equipes empatam, como é que fica? Uma charada-desempate? O desempate pelas torcidas? As duas levam?

A partir do segundo bloco há uma troca ágil de cenário e o programa começa a acontecer numa cenografia em dois andares: é uma casa com vários cômodos, onde estão escondidos objetos que as duas equipes disputantes têm que localizar a partir de uma série de pistas. As pistas são lidas em voz alta por Xuxa, que tem que fazer um esforço sobre-humano para não mostrar aos concorrentes o lugar onde estão os objetos (às vezes, bem diante do nariz deles). O corre-corre dessa gente toda através do cenário — Xuxa, as equipes, as paquitas, os cameramen — é algo tão atropelado e caótico que acaba sendo divertido. O mesmo se aplica ao gran-finale do programa: um grupo musical pleibeca uma canção, enquanto todo mundo faz gato e sapato da cenografia, revirando gavetas, armando batalhas de travesseiros, deitando e rolando, numa bagunça generalizada que leva a platéia ao delírio e cria uma impressão-de-espontaneidade tão grande, que a gente pensa que aquilo ali é um filme de Hollywood e não um programa da Globo.

Este encerramento em tom de comédia-pastelão acaba estabelecendo um contraste com o tom excessivamente contido do Domingão do Faustão. A TV Globo é tradicionalmente um veículo, onde os Campeões da Espontaneidade e do Improviso são forçados a se domesticar um pouco para entrar no "Espírito da Casa": é só comparar as fases antes-e-depois-daGlobo dos Trapalhões, do Chacrinha e agora de Fausto Silva. A linguagem desabrida do apresentador ainda choca aquelas pessoas que acham que "pentelho" é palavrão (há 30 anos ninguém podia dizer "chato" na TV — assim como, na época em que as saias das mulheres arrastavam no chão, a palavra "perna" era considerada ofensiva por uns e excitante por outros). Em vista disso, não dá para autorizar no programa do gordo esse clima de bagunça-consentida em que o da Xuxa se transforma.
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