segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Matéria: NOVA MÁSCARA NÃO ESCONDE PASSADO DE MALLANDRO

Jornal: Folha de S. Paulo
Data: 17/3/1991
Autor: Alcino Leite Neto


Acredite: Xuxa está de férias justo no momento em que as crianças são preparadas, para voltarem às aulas. Xuxa é uma ''Workaholic'', mas resolveu arrumar as malas e, dizem, descansar. Os mais céticos acham que, junto de Marlene Mattos, sua empresária, trama novos contratos com as TVs européias. No seu lugar, no ''Xou da Xuxa'' da semana passada, estreou Sérgio Mallandro, namoradinho de juventude da apresentadora. ''A Xuxa morreu?'', brincou ele no programa de estréia. Mallandro está ainda em fase de teste na Globo. É uma cobaia pesada e dócil, apesar de seus 30 anos.

No ano passado, procurou Marlene Mattos, a empresária de Xuxa, e entregou a ela sua carreira. Queria acontecer, como a Xuxa. Acertou seu contrato, beneficiando-se do esquema de marketing, contatos, influências da apresentadora. E da experiência desta que é uma das mulheres mais poderosas e menos conhecidas da TV brasileira.

Quando Marlene se enfurece, os corredores da Globo esstremecem. Se Xuxa é tratada como princesa, ela é a rainha-mãe. Para as duas, a Globo hoje é um detalhe. Mas para Sérgio Mallandro significa tudo. Substituir Xuxa foi praticamente a prova de fogo. A idéia da emissora é firmar Mallandro como um apresentador para o público impúbere, livrando-o de tudo que o tenha lixado no imaginário do telespectador como personagem sacana, vulgar, patife mesmo -um homem grotesco. Eram estes, afinal, os traços de seu papel no júri do ''Programa Sílvio Santos''. E foi por isto que a Globo o tirou logo da ''Escolinha do Professor Raimundo'', que preservava algo desta sua imagem. Isto não significa, claro, pedir que abandono seu ar de idiota.

Cercado das crianças do ''Xou da Xuxa'' em sua estréia no programa, Mallandro sábia que este lastro antigo iria contar na sua performance. Com seu narcisismo obsessivo, renitente, perguntava: ''Eu sou um carinha legal contigo, não sou? Eu sou um galã? Quem é que manda, nesse programa agora?'' Ele é o oposto da Xuxa, essa, figura etérea, de face triangular, de fulguração ''catódica'', um pouco melodramática. Mallandro tem um formato terreno, de rosto quadrado, pele bronzeada, é mais palhaço. Se Xuxa flutua, ele socava o chão com seus passos pesados, com sua dança próxima de um pisoteamento.

Mas há uma herança do corpo e espírito que não se consegue apagar. O brutamontes que Mallandro é, continua nele apesar tudo. Sua estréia demonstrou que tem intimidade com o meio e também com o aparato frenético que é "décor" do ''Xou da Xuxa''. Soube explorar seus recursos burlescos, embora a voz tenha se engasgado com freqüência nas palavras, que ele pronuncia como se tivesse a boca cheia de comida. Mesmo se a TV é a morte da memória, Mallandro, no entanto, ainda terá muito trabalho para se desfazer daquela sua faceta patife, que resvalava a todo momento em sua estréia, às vezes num olhar. Terá trabalho também para fazer com que esqueçam sua longa jornada, desde a adolescência, em busca do apresentador do sucesso, para o que não mediu escrúpulos. Esquecer do tempo em que desfilava de sunga em bailes de carnaval na ânsia de ser descoberto por alguém. Em suma, do tempo em que era Malandro, com um ''l'' só. São coisas que pesam, afinal, como ele no chão no ''Xou da Xuxa''. São coisas que ainda pesam nele nesta sua mudança de máscara, neste seu novo papel de ''inocente"
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