quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Artigo sobre Vanessa Alves

Na edição de 30 de março de 2005 da Revista Veja, foi publicado um artigo escrito pelo polêmico Diogo Mainardi, que dedicou sua coluna a Vavá. Confira abaixo na íntegra:

Não tente inventar

"A gente pode ser primitivo, mas musical
não é. A música popular brasileira se resume
a meia dúzia de sexagenários que continua
a se arrastar pelos palcos, repetindo
uma batida de quarenta anos atrás"


O DVD de Xuxa Só para Baixinhos, volume 4, é de 2003. Tem 21 números musicais. Até hoje não consegui ir além do oitavo, Ele É o Txutxucão. Quando o Txutxucão aparece na tela, meu filho aperta imediatamente o botão do controle remoto do aparelho de DVD e volta para a faixa inicial, Dirigindo o Meu Carro. Meu filho não gosta do Txutxucão. Em compensação, gosta muito do Teddy, protagonista da canção Nadando com o Teddy. Txutxucão é um homem fantasiado de cachorro. Teddy é um homem fantasiado de polvo. Ambos foram criados pelo grupo musical infantil australiano The Wiggles. Txutxucão é a tradução de Wags. Teddy é a versão perfeitamente abrasileirada de Henry.

Xuxa tem razão. Por mais que se afirme o contrário, o brasileiro não leva jeito para a música. Melhor fazer o que ela faz, adaptando para o mercado nacional melodias americanas ou australianas, do conhecido Woody Guthrie ao desconhecido Ralph Covert. A propalada musicalidade do brasileiro é um engodo. É fruto daquela visão colonialista de que todos os povos primitivos são musicais. Não é verdade. A gente pode ser primitivo, mas musical não é. A música popular brasileira se resume a meia dúzia de sexagenários que continua a se arrastar pelos palcos, repetindo uma batida de quarenta anos atrás. Xuxa é superior a eles em tudo. Tem um raciocínio claro e direto: "Eu vou à praia dirigindo o meu carro / Sinal vermelho: parou". A MPB enfrenta a mesma questão de maneira demagógica e pleonástica: "Enquanto os homens exercem seus podres poderes / Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos / E perdem os verdes, somos uns boçais". Xuxa é prática e determinada. Acredita que aulas de psicomotricidade são a verdadeira solução para o país: "Mão na cabeça / Mão na cintura / Um pé na frente / Outro atrás". A MPB não oferece solução alguma. Perde-se no dramalhão e no fatalismo da descoordenação motora: "E tropeçou no céu como se fosse um bêbado / E flutuou no ar como se fosse um pássaro / E se acabou no chão feito um pacote flácido".

A autora das versões brasileiras das canções de Só para Baixinhos, volume 4, é Vanessa Alves. Embora seja uma das maiores vendedoras de discos do país, é praticamente ignorada pelo público. Tentei colher informações a seu respeito. É gaúcha. Tem 32 anos. Seu apelido é Vavá. Aparece no principal site cinematográfico americano com o crédito do personagem Rato Rosa, do segundo volume de Só para Baixinhos. Aparece também como protagonista dos filmes As Vigaristas do Sexo, Vadias pelo Prazer e Curral de Mulheres, mas se trata de um evidente caso de homonímia. Como todos os grandes nomes da música popular brasileira, Vanessa Alves não tem formação musical. Fez turismo e comunicação social na Universidade Estácio de Sá. Completou o curso de língua inglesa do Brasas. É o que lhe permite traduzir sem dificuldade as canções estrangeiras selecionadas por Xuxa. Tem medo de avião, mas ama a Califórnia. Descobriu que tinha aptidão musical ao parodiar canções de Claudinho e Buchecha. A despretensão artística de Vanessa Alves é um exemplo para a cultura brasileira. Aliás, não só para a cultura: para o país inteiro. Não tente inventar. O melhor que podemos fazer é macaquear.

Comentários
1 Comentários

Um comentário:

alexia disse...

Gostaria de uma maneira para contactar Vanessa Alves. Se possível enviar email para lorenzzza@gmail.com.

Grata

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