quarta-feira, 23 de junho de 2010

Entrevista com Tizuka Yamasaki (trechos)

Confira trechos de uma entrevista de Tizuka Yamasaki de 2000 para o site Educacional (http://www.educacional.com.br), na qual ela comenta sobre como foi digirir o filme "Lua de Cristal" e comenta sobre seu sucesso:



Tizuka Yamasaki é especialista em encher o cinema de crianças. Nos últimos 10 anos, seus filmes infantis levaram mais de 10 milhões de espectadores à sala escura.
(...)

Dez anos depois da estréia, ela nem pestanejou ao aceitar o convite para gravar um filme com a Xuxa, Lua de Cristal. Seus amigos diretores não aprovam a mudança de mala e cuia para o cinema infantil. Eles acham os filmes "comerciais", enquanto as crianças se divertem. Tizuka nem liga em emprestar seu talento a produções com as celebridades da TV.
(...)
Para ela, o sucesso retumbante de Lua de Cristal tem explicação parecida: "É a história da Maria das Graças Meneghel, aquela que ralou, que teve de estudar, em que ninguém acreditava, que teve de enfrentar um monte de coisas para chegar aonde chegou."

Por que você resolveu se tornar diretora de filmes infantis?
Isso de fazer filmes infantis começou quando meus filhos tinham uns 10, 12 anos. Eles começaram a me cobrar pelo fato de que eu só fazia filme para adultos. Eu tinha dois meninos naquela época e minha filha tinha acabado de nascer. Estava devendo isso para as crianças. Eu estava procurando uma história quando surgiu o convite para dirigir Lua de Cristal. Eu falei: "Ótimo, é uma produção infantil, eu não vou ter que correr atrás de dinheiro, já tem um produtor, o Diler [Trindade], da Dreamvision."
A Marlene Mattos tinha visto Gaijin, tinha gostado muito do filme e achou que eu poderia ser uma boa diretora para Lua de Cristal. Eu fiz o filme e deu certo. O primeiro filme da Xuxa, feito por outra pessoa, teve 2,5 milhões de espectadores. E quando eu fiz o filme, a gente acabou tendo 5,5 milhões de espectadores.

E o que você acha que segura a criança na cadeira do cinema?
Primeiro não se pode ir com a arrogância do adulto. Você não vai intelectualizar o filme, porque não é esse o sentido. Pode, sim, falar de assuntos profundos, mas numa leitura diferente. O cinema permite essa abordagem de falar mais fácil, porque você está mostrando tudo. Então, menos texto, menos diálogo e mais ação. E outra coisa: na verdade, eu nunca fiz o meu grande filme infantil, o que eu gostaria de fazer.
E como seria o seu "grande filme infantil"?
É até um pouco errado falar em "grande filme infantil"... Quando você vai dirigir um filme que não é seu, que é de outro produtor, vai fazer o que ele quer. É como trabalhar em uma revista. Você vai fazer o que o editor quer. Se a revista for sua, aí você faz o que quer. Todos os filmes infantis que eu dirigi foram para outros produtores. Então, eu não fiz como gostaria, e isso nem teria sentido. Eu não vou fazer um filme para a Xuxa que frustre a platéia dela ou frustre a intenção da Marlene Mattos. Mas o meu filme infantil, eu nunca fiz.


Esses últimos filmes infantis que você dirigiu não têm nenhum dedinho seu, então?
Esse primeiro filme com a Xuxa, por exemplo. Quando li a sinopse, eu não gostei. A gente se reuniu e começou a discutir. Eu estava trabalhando com um fenômeno da televisão e estava muito indignada de ver minha sobrinha, meus filhos e as crianças em volta achando que a Xuxa era um Rei Midas - o que ela tocasse viraria sucesso, como se fosse superpoderosa, uma deusa. Então eu falei: "Não é isso! Vamos falar da Maria das Graças Meneghel, aquela que ralou, que teve de estudar, em que ninguém acreditava, que teve de enfrentar um monte de coisa para chegar aonde chegou." E eles toparam.
Lua de Cristal é a história da Maria da Graça, claro que com um enfoque para o público dela não se frustrar, porque a Xuxa não é atriz. Então eu tinha que chegar perto do universo dela para que pudesse se sentir segura e fazer o personagem.


E como é trabalhar com a Xuxa, fazê-la atuar?
Olha, ela vem se exercitando... É melhor que muitas atrizes que eu conheço. Não é uma grande atriz. A Xuxa sabe disso e ela mesma pede: "Não me dá texto longo que eu não vou segurar." Então a gente trabalha para que os textos sejam curtos e fáceis de decorar e, em cenas de grande dramaticidade, a gente conduz o filme de forma que ela tenha capacidade de fazer. E ela tem segurado cenas bem pesadas. Por exemplo, no Xuxa Requebra, ela fez uma cena de tortura que ficou muito legal.


Você acaba de fazer um comentário sobre a TV... O cinema já teve exclusividade na educação audiovisual das crianças. O elenco com quem você trabalha é de supercelebridades da TV. Você não acha que isso diminui a importância do cinema na vida das crianças? Quando elas vão ao cinema, é como se já tivessem visto tudo aquilo na TV...
No Brasil, ainda há essa crença de que você precisa ter nomes famosos para carregar um filme. Eu, particularmente, acho que deve ter um ou dois nomes famosos no meio de desconhecidos, pois o que importa é a história e a qualidade do filme. O nome só ajuda a despertar o interesse da imprensa ou a levantar o dinheiro, mas não é garantia da qualidade do filme. Quando a gente trabalha com a Xuxa, que não é atriz, nós a escoramos com bons atores até porque há inúmeros convidados que não são atores, e sim ídolos musicais. A Marlene também não quer que a Xuxa contracene com um suposto ator que vá prejudicar ou ridicularizar o personagem dela.



E quando faz um filme que tem entre os milhares ou milhões de espectadores crianças que estão indo ao cinema pela primeira vez, você leva isso em consideração? Sente essa responsabilidade?
Não sei... É um público anônimo, não é? Quando eu filmei com a Xuxa pela primeira vez e fui ao cinema, levei um susto com a quantidade de gente! (...)

Você trabalhou com os maiores nomes do Cinema Novo, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Eles achavam que o cinema tinha uma obrigação de levar a cultura brasileira para o mundo. O seu penúltimo filme infantil, Xuxa Requebra, foi distribuído pela Fox Films. Ele foi exibido no exterior?
Estava prevista a exibição na Argentina. No caso dos Trapalhões, sei que eles vendem o filme para Portugal, mas isso não tem grande amplitude. Os filmes da Xuxa entram nos circuitos onde ela já penetrou como cantora ou animadora de TV e têm dificuldade em lugares onde o assunto que ela está abordando não tem recepção. Quando faço meus filmes autorais, eu tenho essa intenção. Eles são feitos para o mundo. Abordam um assunto que pode ser interessante na Alemanha, no Japão, em Israel e nos Estados Unidos.
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Matheus Santos disse...

Simples mas otima a materia.
Um genio do cinema nacional.

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