quarta-feira, 23 de junho de 2010

Matéria: Gatíssima Borralheira (Revista Veja)

Revista: Veja
Data: 20/06/1990

Xuxa investe em competência técnica e realiza um filme infantil que envolve e satisfaz as platéias


Desta vez, não será fácil encontrar quem reclame da capacidade de divertir de mais um filme estrelado pela arrasadoramente bela e loira musa dos baixinhos e de incontáveis pais de baixinhos, Maria da Graça Meneghel, a Xuxa. E surge, afinal, uma chance real para que os grandes produtores brasileiros de cinema infantil, como a própria Xuxa, se convençam definitivamente de que contar com técnicos competentes é fundamental para o melhor resultado de seu produto para o melhor resultado nas telas. "Xuxa e Sergio Mallanddro em Lua de Cristal", que estréia nesta quinta-feira tem 160 salas de todo país, traz a direção de Tizuka Yamasaki - de "Gaijin, Caminhos da Liberdade" (1980) -, a fotografia de Edgar Moura de "A Hora da Estrela"(1985) -, um roteiro bem escrito a seis mãos e uma produção cuidada - além de som Dolby Stereo.

O orçamento do filme, cerca de meio milhão de dólares, chega a ser bastante razoável numa produção brasileira, mas causaria frouxos de riso para um filme mediano em Hollywood. O enredo é fórmula antiga: moça bonita e ingênua do interior desembarca na cidade grande para estudar canto e tentar vencer como artista; em seu caminho para o sucesso, encontra dificuldades com a família de uma tia má e apoio de novos amigos. É aí que entra o talento do filme de realizadores para superar limitações e fazer um filme do qual só exige ser bom, pois já nasce com uma vantagem imensa: ter um público enorme, cativo e apaixonante.


Uma das simples e boas sacadas do roteiro e da direção é usar informações do cotidiano numa cidade grande mescladas com personagens de contos de fadas que as crianças não esquecem. Assim, Xuxa é tratada como serviçal e gata borralheira - aliás, gatíssima - pela tia Zuleika (Marilu Bueno), que mais que a madrasta megera de Cinderela, é uma síndica que administra seu prédio implicando com todo mundo. A filha da megera, a prima Lidinha (Júlia Lemmertz), é o protótipo da garota bagunceira, grosseira no trato e vulgarmente sensual - não é preciso ter irmã mais velha pra aceitar com facilidade a fantasia que as platéias de baixinhos da Xuxa podem fazer a respeito de suas irmãs, adolescentes rebeldes que não ligam nadinha para os irmãos menores. Essas situações são contadas de um jeito bem inocente, livre de lances de violência, com senso de humor e numa atmosfera de alegria e malícia infantil em que os perigos reais são eliminados com um simples "chega pra lá".

Sílfides-Paquitas - Claro que isso já foi feito antes, os Trapalhões se cansaram de tentar essa identificação com seu público para melhor passar lições de vida e de moral. Acontece que "Lua de Cristal" emprega esse artifício com naturalidade, deixando de lado discursos supostamente pedagógicos. E também não exagera em fantasias copiadas de contos de fadas: o filme tem sílfides-paquitas e duendes-paquitos bailando em torno de um príncipe e seu cavalo branco, mas isso fica restrito ao sonho de infância de Xuxa. Outro momento mostra Xuxa, recém-chegada à cidade grande, vagando de mala e cuia sob o viaduto. Ela dá de cara com alguns rapazes negros, pára e arregala os olhos por um instante, para logo se ver cercada por eles, que cantam e dançam um rap amigável e com um balanço de boas-vindas ao qual Xuxa adere tranquilamente. Assim, dissipa-se qualquer suspeita de que a bela loirinha estaria para ser atacada pelos crioulos. Ponto para o anti-racismo, marcado sem a necessidade de sequer uma frase de efeito.

Apesar de ter sua presença consagrada pela inclusão no título do filme, Sérgio Mallandro ainda está por mostrar a que veio ao sair do SBT para virar contratado da Xuxa Produções. Com seu tipo associado à comédia de trapalhadas e espertezas, ele deve ser melhor aproveitado no programa de sábado que estreará na TV Globo depois da Copa e no filme "Confusão em Dose Dupla", que a empresa de Xuxa planeja realizar brevemente em associação com a de Renato Aragão, tendo Fausto Silva como parceiro de Mallandro. Em "Lua de Cristal", porém, ele tem uma participação relativamente pequena. E sai perdendo em importância para a charmosa participação da garotinha Duda Little, que, como a primeira amiga de Xuxa na metrópole, quase rouba da estrela as cenas em que aparece. Os trechos dispensáveis - como Xuxa tomando banho de leite numa banehira - são menos erros essenciais do que cochiladas que mais pedem ajustes para próximas fitas.
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Matheus Santos disse...

Interessante essa critica positiva,ja que nos dias de hoje a imprensa não da muita importancia aos seus lançamentos no cinema,nas vezes que é notada acaba levando uma critica negativa.

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