domingo, 3 de abril de 2011

Artigo: O Poder da Televisão no Brasil: Influências e Ideologias que Perpassam o fenômeno Midiático "Xuxa"

Autor: Bruno Gomes


É de conhecimento que a televisão é um meio de comunicação extremamente abrangente e que, conseqüentemente, mantém um fluxo dialógico com públicos diversos. Face a essa realidade, a mídia televisiva tem o poder de projetar indivíduos na sociedade, de modo que estes mantenham contato com milhões de espectadores simultaneamente. Nessa perspectiva, em pouco tempo, pessoas de todas as idades, raças e costumes reproduzirão hábitos, dizeres e vestes propagadas por um sujeito televisivo. Tem-se então um "fenômeno de massa". Acerca de tamanha influência, Rozendo (2008) comenta que "a TV está presente na vida da maioria das pessoas e pode exercer grande influência em todas elas".

A preponderância da televisão no meio social é considerável. Ao formar fenômenos, constrói também sujeitos midiáticos carregados por ideologias. Logo, a construção lingüística articulada pela TV não pode ser suposta como algo neutro, partindo da premissa de que atua na construção de ideais e formação de personalidades entre sujeitos, palavra esta entendida aqui como um elemento dotado de posicionamento ideológico. Do ponto de vista da Análise do Discurso, Brandão (2004) afirma que a linguagem "não é neutra, inocente e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia" (p. 11).

Considerando a televisão no Brasil, tem-se como exemplificação crucial, no que se refere a tremenda hegemonia televisiva, o fenômeno midiático "Xuxa", o qual passo agora a discorrer analiticamente. É pertinente elucidar que quaisquer posicionamentos evidenciados a seguir não desejam cultuar ou não a pessoa, mas sim explicar as conseqüências provocadas por este fenômeno de massa, uma das figuras televisivas de maior influência no Brasil.

São muitos os estudos acerca desse tipo de fenômeno midiático. Júnior (2001) comenta que
"a trajetória de Xuxa é um perfeito exemplo das disfunções da televisão brasileira, um vigoroso e carismático movimento que merece ser objeto de estudo sobre as influências midiáticas produzidas nos últimos anos. Fama, publicidade, mercado, comportamento, imagem, sexualização precoce, infantilização, privacidade, discurso – todos esses elementos costuram a anatomia de um dos fenômenos brasileiros mais significativos das últimas décadas" (www.uff.br).


O padrão televisivo oferecido a dita "Rainha dos Baixinhos" contribui na ostentação da figura do Mito. Em sua atração sabática, ao tocar da música, todos entoam juntos o refrão enquanto olham fixamente para a entrada de onde supostamente aparecerá a artista. De repente, eis que ela surge ao abrir de uma porta do alto de uma escada. Desce os degraus com cuidado tocando delicadamente as mãos de pessoas que estão em sua volta, ao passo que ri com certa candura. O jogo de luzes e a fumaça de gelo seco que envolve a entrada evidencia a exuberância de uma silhueta perfeita. Enquanto ouve gritos estridentes de "Xuxa, eu te amo", ela aproveita para dizer seu coloquial "Oi, gente!". Pronto! Eis que surge o Mito. Cenas como esta repetem-se constantemente há quase três décadas.



Para muitos, fenômenos desta espécie são raros. No caso de Xuxa, sempre manteve uma relação truncada com a imprensa. No início de sua carreira, foi fortemente criticada por manter um posicionamento antipedagógico, como o incentivo a competitividade entre crianças, bem como o erotismo com o qual se vestia. Todavia, isso não afetou sua influência junto ao público e logo seus produtos apresentaram vendagens exorbitantes. Sob uma perspectiva sociológica, pode-se afirmar que se trata de um "modelo de reprodução social", conforme salienta Passeron (1995). Segunda tal autor, "a força explicativa deste modelo nada tem de misteriosa e pode, no caso, ser diferentemente interpretada em termos de determinismos estruturais ou em termos de interação estratégica das ações sociais" (p. 114).

Como é de praxe, fenômenos televisivos englobam consigo esferas midiáticas diversas. O investimento da mídia acarreta em uma popularidade global. Partindo do princípio da intencionalidade, a TV atua indissociavelmente a toda uma rede de idéias, que se conectam pela mídia, "impondo" às pessoas valores e posturas pré-estipuladas. Rozendo (2008) diz que a televisão "vende produto, mas para garantir o Ibope, entreter e fidelizar o público, vende também idéias, valores e conceitos".

Infere-se então que o Mito televisivo "Xuxa" exerce influência não só ao que se restringe aos prestígios da telinha, mas também a toda vertente midiática que a ela se liga. Os mercados fonográficos e cinematográficos são alguns oportunos exemplos disso.



Em fevereiro de 2010, publicada a lista de CDs e DVDs mais vendidos do ano anterior, Xuxa aparece no topo das produções audiovisuais. De acordo com o Presidente da Som Livre, Leonardo Ganem, "seu catálogo tem vendas excelentes".

Nos cinemas, também é conferido seu poder de persuasão. Seu ultimo longa-metragem, "Xuxa em O Fantástico Mistério de Feiurinha", apresentou bilheteria significativa no Brasil, batendo produções como "Lula – O Filho do Brasil". O filme também foi lançado em Angola e EUA.

A televisão também dita moda. As pessoas passam a se vestir de acordo com que a TV se propõe a conceituar como "bonito". Acerca disso, Rozendo (2008) foca a influência televisiva no comportamento humano e afirma que "sem William Bonner, Xuxa ou Sinhozinho Malta nossas roupas, jeito de falar, famílias e a imagem que temos do lugar em que vivemos seriam diferentes". Durante anos, milhões de pessoas quiseram "imitar" o modo de se vestir de Xuxa. Nas escolas, na década de 80, eram freqüentes meninas que optavam por usar minissaias, sandálias e batons de tonalidades fortes. A mídia em 2010 continua investindo na popularidade de Xuxa para difundir os valores da moda. Prova disso tem sido suas passagens, sempre ovacionadas, no maior evento de moda e música da América Latina, o Monange Dream Fashion Tour.

Nessa instância, é inegável que a mídia vê na figura mítica de Xuxa um pertinente pretexto neoliberalista, visto que tal fenômeno midiático é responsável por movimentar um patrimônio milionário, ao passo que mantém "seguidores" permanentes. A palavra em destaque é utilizada pela própria artista para designar fãs que a seguem para onde quer que vá.



REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Helena Hathsue Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. – 2ª Ed. Ver. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.

PASSERON, Jean-Claude. O Raciocínio Sociológico: O Espaço não Popperiano do Raciocínio Natural. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.



REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

www.uff.br
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Anônimo disse...

O texto é de minha autoria. Espero que os leitores (principalmente os fãs da rainha) tenham gostado.
Um abraço a todos.

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