domingo, 14 de junho de 2015

Crítica musical do álbum Arraiá da Xuxa

Um dia antes do lançamento oficial do CD "Arraiá da Xuxa", o jornalista Mauro Ferreira publicou uma crítica musical bem detalhada - e muito positiva - sobre o álbum no jornal O Globo, publicado no dia 15 de junho de 1997. Confira na íntegra:



O som festivo das quadrilhas e balões 

(Mauro Ferreira)

Em 1933, o compositor Assis Valente fez a música "Cai Cai BaIão" e inaugurou o fiIão das canções para festas juninas. A moda pegou. Nos anos 30, alguns dos melhores compositores brasileiros faziam músicas especialmente para as quadrilhas. Passada a década áurea, o gênero ainda resistiria até o final dos anos 50. De lá para cá, foi caindo progressivamente no esquecimento. O novo disco de Xuxa chega às lojas amanhã com a reunião desse precioso cancioneiro junino, criado por nomes como Lamartine Babo, Braguinha, Luiz Gonzaga e o citado Assis Valente. Os produtores do CD, Michael Sullivan e Robertinho de Recife, mergulharam no baú junino e fizeram um disco animado. Batizado "Arraiá da Xuxa", o CD será lançado oficialmente com dois shows no Metropolitan, agendados para os próximos sábado e domingo. 


Quase todas as músicas foram lançadas nos anos 30 

Titular dos programas "Xuxa Park" e "Planeta Xuxa", exibidos aos sábados na Rede Globo, a apresentadora não é uma cantora, mas cumpre seu papel com desenvoltura. A grande vantagem do CD é oferecer esse cancioneiro junino com qualidade técnica. Lançadas nos anos 30, em sua grande maioria, as insuperáveis gravações originais dessas músicas conservam a precariedade do som da época. Daí a importância do "Arraiá da Xuxa", CD que mira principalmente o público nordestino. As festas juninas movimentam cifras milionárias no Nordeste e agitam a indústria do disco, que sempre lança músicas de artistas como Elba Ramalho, por exemplo, para faturar com as festas de São João, São Pedro e Santo Antônio. A seleção não exclui nenhum clássico do repertório junino. O disco abre com a "Quadrilha Brasileira", em que Xuxa faz todas as marcações de uma dança de quadrilha (a mesma música fecha o CD em versão instrumental). Depois, a apresentadora canta "O Sanfoneiro Só Tocava Isso", espécie de arrasta-pé lançado com sucesso pela cantora Dircinha Batista, em junho de 1950. Trata-se, aliás, de um dos últimos grandes êxitos do gênero. 

Há um excesso de pot-pourris no disco, o que impede o ouvinte de apreciar, de forma menos apressada, a beleza das músicas – todas muito inspiradas. Vale ressaltar, mais uma vez, a riqueza da produção junina da primeira metade do século. Um dos pot-pourris, por exemplo, reúne jóias do quilate de "Capelinha de Melão", "Chegou a Hora da Fogueira" e "Cai Cai Balão". A primeira foi um grande sucesso de Emilinha Borba em 1949. 


Outro acerto do disco é a não limitação do repertório aos clássicos juninos. O CD inclui também músicas que fazem parte do cancioneiro nordestino e, por extensão, acabaram associadas aos festejos do mês de junho. Xuxa canta, por exemplo, "Sebastiana", pérola de Rosil Cavalcante imortalizada na voz de Jackson do Pandeiro. Se for levado em conta que o público de Xuxa no Sul do país provavelmente nunca ouviu falar em Jackson do Pandeiro, o disco adquire importância cultural inédita na carreira da apresentadora. Pela primeira vez, Xuxa está lançando um disco que tem algum conceito e não é apenas um aleatório apanhado de canções palatáveis. Ainda que a intenção primeira certamente tenha sido conquistar o imenso público nordestino que anseia por discos juninos. 

Xuxa conta com alguns convidados realmente especiais no CD. Com sua voz apocalíptica, Zé Ramalho interpreta o "ABC do Sertão", composição de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Dominguinhos canta "Asa branca", outro clássico de Gonzaga, só que em parceria com Humberto Teixeira. E Elba Ramalho, cantora cujo trabalho sempre foi muito voltado para as festas de São João, faz sua participação no disco pondo sua voz madura em "Olha pro Céu", a mais bela quadrilha do repertório de Luiz Gonzaga (novamente ele, dessa vez em parceria bissexta com José Fernandes). 


Apresentadora regrava sucesso de Francisco Alves 

Goste-se ou não de Xuxa, a animação de seu arraiá é indiscutível. Os arranjos de Robertinho de Recife e Luiz Antônio não deixam a peteca cair em nenhum momento. Nesse ponto, o CD é perfeito para animar uma festa junina. Não há músicas ruins. Ajudada pelo coro das Paquitas, Xuxa regrava clássicos como "Pula a Fogueira", sucesso lançado por Francisco Alves em 1936. É provável que "Arraiá da Xuxa" dê uma injeção de ânimo na carreira fonográfica da apresentadora, que vinha vendendo pouco nos últimos anos. Xuxa já lançou discos marcantes no mercado infantil. O "Xou da Xuxa 3" é um deles e, não por acaso, ultrapassou as duas milhões de cópias vendidas. Mas o fato é que ela vinha tendo dificuldades para reeditar esse sucesso, sobretudo depois que o "Xou" saiu do ar. Com seu "Arraiá da Xuxa", a apresentadora investe num filão que já reinou nas paradas. Ela tem carisma e as músicas são boas. As quadrilhas deste ano estarão mais animadas.

Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Anônimo disse...

Vale lembrar q esse CD teve arranjos produzidos por grandes artistas nordestinos

Leandro.F disse...

Então... como o autor citou em seu texto, o CD foi produzido por Robertinho de Recife e Michael Sullivan. Dois pernambucanos "arretados"!

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