sábado, 4 de julho de 2015

Matéria: Welcome Shoo-sha

Hoje, 4 de julho, é comemorado o Dia da Independência dos Estados Unidos, uma das datas mais importantes da história do país. Xuxa fez a sua passagem por lá no auge da sua carreira internacional, onde teve seu programa exibido em diversos canais a cabo. Trazemos uma matéria sobre os planos da nossa Rainha de marcar um X no coração dos baixinhos americanos, publicada pela revista ISTOÉ no dia 30 de setembro de 1992, cerca de um ano antes da estreia do seu programa.


A apresentadora Xuxa desembarca nos Estados Unidos com seu poder de sedução e de vendas para faturar até US$ 100 milhões

ANABELA PAIVA

Agora é oficial. Depois de muitos rumores em torno da assinatura de um contrato da apresentadora Xuxa Meneghel com uma empresa de televisão americana, a Xuxa Produções admitiu na última semana que a loirinha milionária em dólares desembarca nos Estados Unidos, onde vai ter seu próprio xou. Os números do acordo são sigilosos, mas pessoas familiarizadas com as negociações garantem que é o melhor contrato que a estrela já teve. Se o programa for um sucesso mediano, as vendas de bonecas, sandálias, relógios, video games e rádios com a marca Xuxa poderão alcançar a marca dos US$80 milhões em vendas.  Mas se as crianças americanas forem acometidas de um surto de xuxamania, como  aconteceu na Argentina, a receita deverá ser dez vezes maior. Em qualquer caso,  Xuxa fica com 10% da bolada e isso sem contar cachê e porcentagem sobre a exibição do seu programa em rede de tevê a cabo nos EUA. 


Desde 1991 a Mary Tyler Moore Television Distribution — uma produtora independente fundada pela atriz de mesmo nome e  responsável por vários sucessos da tevê americana — vinha negociando a produção de um programa exclusivo da estrela. “Conheci a Xuxa há cinco anos e me dei conta de que não havia nada na tevê dos Estados Unidos semelhante ao seu programa. Acho que as crianças americanas vão ficar tão fascinadas quanto as brasileiras”, diz o entusiasmado Bob George, vice-presidente de programação da MTMO texto de um anúncio de página dupla da empresa, publicado na revista Electronic Media, não é  menos entusiástico. Sobre uma foto colorida do set do Xou da Xuxa, um texto informa aos gerentes de programação de tevês a cabo americanas: “Mais de 20  milhões de crianças em 15  países assistem ao seu programa diário. Agora uma  das artistas mais amadas e bem-sucedidas do mundo  está vindo para a televisão americana.” O  anúncio prossegue informando que a nova sensação — “pronuncia-se Shoo-sha”, ensina — traz sua mágica televisiva “em um novo tipo de show desenhado não só para entreter, mas para satisfazer as necessidades educacionais de crianças de 2 a 11 anos”.

A produtora independente MTM já anuncia nas revistas o que será exibido nos EUA a partir de setembro de 1993

Tanto melhor para Luís Cláudio Moreira, o diretor operacional da Xuxa International, que está negociando com uma subsidiária do gigante eletrônico Nintendo  a produção de jogos e relógios com a sua marca. Com a Matel, fabricante da boneca Barbie, ele discute a produção de bonecas. “No mercado latino-americano, a Xuxa já  é um sucesso”, garante Moreira, que contabiliza vendas de 300 mil discos gravados em espanhol e 500 mil sandálias desde junho de 1991. Foi nessa época que o show em espanhol começou a ser exibido pela cadeia de tevê a cabo Univision, voltada para o público de língua espanhola nos EUA. “Naquela ocasião, tivemos também propostas da MTM. Mas a Xuxa achou que era demais, outra língua, outro mercado. Preferiu dizer não e se concentrar no mercado espanhol”, lembra Moreira. Desde que aceitou a ideia do programa nos Estados Unidos, Xuxa circula pelos corredores da Globo acompanhada de um professor de inglês, que a segue como uma sombra. “De três em três meses, ela troca, para não ficar acostumada com um só estilo de inglês”, conta Moreira. E ele próprio garante: “Seu inglês já é suficiente para que ela se despeça, em entrevistas, com um charmoso “kiss, kiss, bye, bye”. Mas Bob George, da MTM, já vetou o tratamento que Xuxa dá às crianças: “Baixinho, em inglês, não dá certo”, constata. Mas ele promete que o programa, que será transmitido diariamente e terá, sem anúncios, meia hora, “vai ser muito parecido com o brasileiro”, com músicas, jogos e personalidades convidadas. “Eu não ousaria mexer em algo que faz tanto sucesso”, diz ele. 


A produtora independente MTM já anuncia nas revistas o que será exibido nos EUA a partir de setembro de 1.993. Para alegria dos papais americanos, George promete também não baixar a bainha dos saiotes e shorts da loira, embora reportagens na mídia americana já tenham caracterizado Xuxa como “sexy demais para crianças”. “Eu não concordo com isso. Essa questão simplesmente não existe”, afirma George. As sensuais pernas de Xuxa já estão sendo exibidas em feiras e convenções de televisão nos Estados Unidos, em uma fita promocional que conta a sua história e dá um gostinho do Xou da Xuxa, com jogos e músicas gravadas em inglês. O vídeo foi produzido, paradoxalmente, por uma subsidiária das Organizações Globo, a Globo Group, sediada nos Estados Unidos. "Convidei as crianças e o coro da Escola Britânica, aqui no Rio. Levei 230 meninas e meninos, todos bilíngues", conta Armando Braga, coordenador do Projeto Xuxa da Globo Group.


A participação da Globo Group na assinatura do contrato com a MTM é um dos detalhes mais curiosos da negociação, já que Xuxa vai gravar seu último Xou em dezembro — um especial para ser apresentado no último dia do ano, Em janeiro de 1993, ela viaja para passar quatro meses nos Estados Unidos, em Los Angeles, dedicando-se exclusivamente ao inglês. E em junho do mesmo ano ela vai gravar os 65 programas que estão sendo vendidos agora nos EUA, para apresentação em setembro. Entre tantos compromissos internacionais, não só nos EUA como na Espanha e na Argentina, Xuxa não tem mais tempo — ou energia — para dedicar-se a um programa de três horas diárias. Duas vezes por semana, ela grava de 2h da tarde às 2h da manhã.


O fato de arriscar a sorte nos Estados Unidos não significa que a rainha dos baixinhos abandonará o público brasileiro. Com um planejamento correto, há tempo para o programa americano e para a televisão brasileira. O que se comenta na Globo é que Xuxa vai renovar o seu contrato, que vence no fim deste ano, em 1993. Mas ninguém sabe ainda para quê. "Ela poderá fazer um programa mensal ou semanal. Só ela e a Marlene Mattos podem decidir, quando voltarem da Espanha", diz uma fonte na Rede Globo. É que o todo-poderoso diretor-superintendente José Bonifácio Oliveira Sobrinho — o Boni — anunciou que a fórmula dos programas de auditório para crianças se esgotou. "Este é o caminho que a Xuxa escolheu", resume Armando Braga, um dos principais responsáveis pelo sucesso internacional da animadora. Para as crianças inconsoláveis, há pelo menos uma compensação: já está sendo construída uma versão brasileira da Disneylândia com o tema Xuxa — um parque de dez mil metros quadrados dentro de um shopping center, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Só a cenografia (enfeites, brinquedos, luzes) custará US$ 15 milhões.



Comentários
2 Comentários

2 comentários:

Matheus Santos disse...

O mais interessante de ver essa matérias é como as perspectivas e expectativas eram diferentes nessa época.
O programa americano, por exemplo, deveria ter adotado a verdadeira fórmula do "Xou da Xuxa", com a nave espacial (mais moderna, é lógico) e todos os seus elementos e técnicas de entreter. O problema é que eles não estão acostumado com esse tipo de programa para crianças daquele solo, e são considerados "muito frios" de acordo com a ex-diretora e empresária da loira, Marlene Mattos.
O interessante também no final da matéria, é ver sobre o Parque da Xuxa que seria lançado em um shopping do Rio de Janeiro, não sair do papel, e por ironia do destino, ser inaugurado somente nos anos 2000 em um shopping em São Paulo, já que o "Xuxa Water Park", parque aquático da apresentadora que seria inaugurado em Itanhaém, teve o projeto e as obras canceladas.

Lilia disse...

Balela. Esse papo de "crianças de país tal são mais frias" é a desculpa mais horrorosa que Marlene poderia inventar. Criança é criança em qualquer parte do universo. A grande verdade é que o inglês da Xuxa era tenebroso (quem fala pode atestar tal fato vendo os videos no youtube), e some a isso o fato do mercado infantil de programação americana ser gingante (muitas outras opções até mesmo naquela época), e sem contar as matérias tendenciosas espalhando que Xuxa tinha feito Amor Estranho Amor. Na época, sem internet, esse tipo de informação se espalhava através de programas jornalísticos de escândalos de celebridades, e as pessoas olhavam torto pra quem cometia erros. Crianças frias é ilusão, agora pais puritanos eu acredito mais. No entanto, a principal função era comunicar... e isso, embora diva amada e talentosa, a Xuxa não soube fazer em inglês.

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