domingo, 18 de outubro de 2015

Álbum: Luz no Meu Caminho

Por: Leandro Franco

Não há no mundo inteiro um povo como esse,
Que rindo ou chorando vai levando a vida
Não perde a esperança, nem o interesse,
Vai suportando a dor de qualquer ferida.
Um povo que é alegre, faça chuva ou faça sol
Criativo na cultura, nas artes, no futebol




Os versos iniciais de Brasileira, primeira faixa do álbum Luz no meu Caminho provaram ser atemporais. Aliás, a música Brasileira é atemporal. Em tempos de crise econômica (mais uma), de estocagem de vento (“vento, gente? Alôôôu”) e de saudação à mandioca, o décimo primeiro álbum de Xuxa, lançado há 20 anos, se mostra tão atual quanto era no ano de 1995.


Depois de um bem sucedido lançamento musical (Sexto Sentido, 1994), Xuxa pôs no mercado um novo disco que tinha a árdua tarefa de perdurar essa aceitação do público. Novamente ela tinha que dividir sua atenção entre os baixinhos e aqueles que já estavam adolescentes de forma que as faixas de um público não afastassem o outro .
Poderia ser “mais do mesmo”, mas não foi. Novos temas foram abordados, como a religiosidade – dessa vez de forma mais intensa do que em “Lua de Cristal” (1990) -, o lado afetivo pessoal – que nunca havia sido “cantado”, apesar de muito contado – e, claro novas músicas “pumba-pumba” – neologismo de Xuxa para as músicas mais infantis de seus discos.
Em entrevista ao Jornal do Brasil de 26/11/1995, Xuxa sintetiza isso:


A expectativa em torno do álbum foi grande, assim como as críticas, afinal ser Xuxa é sinônimo de ser atacada pela imprensa. Na mesma entrevista, quando perguntada sobre como as críticas refletiam em sua carreira fora do país, ela ressalta uma que envolve Brasileira:








Percebemos que a canção de Fred Pereira, César Lemos e Zé Henrique era mesmo o chamariz do álbum, pelo menos para a imprensa, e Xuxa revertia isso a seu favor com bom humor: 


Se a imprensa focava no contexto "amoroso" de Brasileira, os baixinhos estavam bem mais interessados na brincadeira de infância que Xuxa tinha musicado: Salada Mixta (grafada com X, por motivos óbvios). A música estava na boca da garotada e entrou pro rol de músicas mais lembradas de Xuxa. A própria chegou a regravá-la em 2007 para o lançamento do XSPB 7, e dessa vez a grafia utilizada foi a correta.


A Divulgação
Diferente do álbum anterior, Luz no meu Caminho não teve um esquema de divulgação que incluía um show de lançamento, mas isso fazia parte do marketing da época, como conta a reportagem do Jornal O Dia, em outubro de 1995:

Não lançar o disco também funciona como estratégia. Marlene Mattos diz que "foi para ficar diferente", mas há tática de marketing por trás disso. "No ano que vem, a Xuxa faz dez anos de Globo. Quero lançar um disco duplo com os dez maiores sucesso da carreira dela e dez músicas inéditas. Aí sim, haverá uma grande festa." Mas a empresária não descarta a possibilidade de um show com convites gratuitos em duas grandes casas noturnas, no Rio e em São Paulo.



Bom, as vontades da diretora não se concretizaram e não houve show com convites gratuitos, muito menos álbum duplo para os dez anos, mas isso é uma outra história. Enquanto isso Xuxa seguia cantando algumas faixas no programa Xuxa Park e ainda fez uma apresentação especial no programa Domingão do Faustão no dia 15/10/1995.


No Faustão, além de Salada Mixta, Xuxa apresentou também Xuxa Hits, a outra música marcante do álbum. Pela primeira vez, um programa de Xuxa dava nome a uma faixa (Xuxa Park foi lançada dois anos antes do programa brasileiro existir). A canção traduzia exatamente o ambiente do programa: variados estilos musicais, participação das Paquitas e do grupo You Can Dance; a batida da música no ritmo da batida do coração. Nessa época, Xuxa Hits despontava como um programa independente abandonando a condição de quadro dentro do Xuxa Park; já tinha vinheta e cenário próprios.



Vendagem
O disco saiu já coroado, mesmo sem muita divulgação. O jornal Folha de São Paulo ressalta a impressionante vendagem: 1.200.000 cópias.

Trecho da nota publicada na Folha de São Paulo em 17 de outubro de 1995

Os formatos
Luz no meu Caminho foi lançado em CD, LP e K7.
Capa e contracapa ficaram a cargo de Andre Schiliró, fotógrafo preferido de Xuxa para os ensaios da década de 90, enquanto as fotos do encarte foram de Luís Crispino e Xicão Jones. Essa variedade de fotógrafos resultou numa falta de identidade visual ao álbum.
Se, por um lado, tínhamos pela primeira vez um encarte (no caso do CD) recheado de fotos, por outro não havia ligação entre as  mesmas.


Fotos do show Sexto Sentido (1994/1995) compunham o trabalho juntamente com um ensaio diferente daquele utilizado na capa. Qual a razão das fotos do show estarem ali? Pra completar, duas dessas fotos ainda remetiam especificamente a músicas do álbum anterior: Sexto Sentido e Rir é o Melhor Remédio (Gargalhada).


A terceira foto do show, talvez por ser a menos específica, foi escolhida para se tornar um postal que acompanhava a versão em vinil.


Nos encartes ainda vemos uma referência ao que já comentamos no início: o fato de se agradar a dois públicos numa mesma obra. O nome do disco agora aparece grafado com uma letra infantil acompanhado de um sol também em estilo infantil contrastando com o estilo mais “adulto” da capa.


Um outra imagem ilustra o trabalho, mas dessa vez sem ser de Xuxa. A foto “Hilly Desert Road Reflecting Sunset” do fotógrafo Eric Meola foi escolhida pela própria Xuxa por traduzir literalmente o que seria “Luz no meu Caminho”. No CD, a imagem serviu para estampar o rótulo da mídia e no vinil serviu de pôster para o encarte.


Por se tratar de uma imagem à venda em Banco de Imagens, sua utilização é restrita a um período e talvez por essa razão, a reedição de Luz no meu Caminho na série Gala em 2001 não tenha mais a imagem no rótulo do CD, embora os créditos permaneçam no encarte.


A ordem das músicas do álbum é diferente em seus formatos. Para que as faixas pudessem caber de forma homogênea no vinil e no K7 sua ordem difere da que está no CD, fazendo com que as músicas mais lentas fossem o encerramento de cada lado do vinil / K7



Curiosidades
Brasileira seria o nome do disco, comprovando o quanto apostavam na faixa.

Trecho de nota publicada na Folha de São Paulo em 17 de outubro de 1995


Em entrevista ao Jornal O Dia, na época do lançamento, Xuxa fez um “Faixa a Faixa” do álbum. Única vez que isso foi publicado em relação a sua carreira musical. Algumas curiosidades são reveladas nesse rápido bate-papo.


Xuxa Hits foi a primeira faixa a ganhar um clipe. O clipe foi lançado no Xuxa Park e exibido repetidas vezes, muitas sendo mesclado com Xuxa cantando a música no palco. Temos Xuxa a la Dick Tracy – herói investigador de crimes dos quadrinhos, cujo filme foi lançado em 1990 – dançando num galpão abandonado acompanhada de suas Paquitas e You Can Dance. Tudo meio escuro, exceto pelos três figurinos de Xuxa, que são iguais em modelo, variando só na cor.



E falando em Xuxa Hits, foi exatamente essa faixa que se destacou na contracapa, encarte, rótulo do vinil por conta do erro de grafia: Xuxa Hit’s. De onde saiu isso? Se pelo menos o ‘s estivesse posicionado após o nome de Xuxa... Da forma que foi não foi português, nem inglês, nem xuxês.


No Especial de Natal de 1995, Deu a Louca na Fantasia, outras faixas ganharam seus clipes: Brasileira, Salada Mixta, Como o Sábio Diz, Pra Que Fumar?, Ritmos, Luz no meu Caminho e Crer Pra Ver.

Brasileira ganhou um clipe filmado todo em externas em Fazenda Nova / PE e em muito se assemelha ao estilo do clipe Bom Dia (1991). Imagens de Xuxa andando por paisagens naturais, com bastante sol e imagens de pessoas em situações do dia-a-dia. A prova que Brasileira tem sua base em Bom Dia é que são usadas as mesmas imagens das pessoas em alguns momentos.
Brasileira ainda conta com uma citação da famosa Canção do Exílio (1843), de Gonçalves Dias: “Nosso céu tem mais estrelas”


Ritmos trouxe nova menção à Cláudia Raia, a segunda consecutiva (Jogo da Rima, 1994). Também fez menção à Ginger Rogers, famosa dançarina que faleceu no mesmo ano do lançamento de Luz (1995). No time masculino Fred Astaire (Cantando na Chuva) e Carlinhos de Jesus, que se tornou professor de Xuxa e participou do clipe.


No clipe vemos Xuxa com uma “sobra” do figurino do vídeo de Xuxa Hits e com um de seus vestidos mais icônicos: o mesmo que usara na festa de 2 anos da revista Caras na Argentina, em 1994, e que anos mais tarde (2004) se tornou o item mais caro de um leilão beneficente: 30 mil reais.

Trecho da matéria publicada na Revista Caras de 08 de outubro de 2004


Salada Mixta foi eleita a música preferida de um de seus compositores dentre todas as que fizeram para Xuxa. Álvaro Socci, parceiro de Cláudio Matta, contou isso em entrevista ao site XuCurious:

XUCURIOUS: De todas as músicas que já escreveu para Xuxa, qual foi a que mais gostou?
ÁLVARO SOCCI: Gosto muito de ter feito "Salada Mixta". Acho uma música perfeita para o que se propõe. 

Também de Álvaro Socci e Cláudio Matta, Crer Pra Ver não foi pensada para o álbum Luz no meu Caminho. A música deveria ser mais uma das inéditas mostradas no especial de Natal homônimo de 1994. Parte da letra chegou a ser publicada na época da exibição.

Trecho da matéria publicada no Jornal O Dia em 18 de dezembro de 1994
E a faixa-título, Luz no meu Caminho (A Terra), vem de um já conhecido compositor, inclusive no universo de Xuxa: Nando Cordel. O responsável por sucessos como “De Volta pro Aconchego” de Elba Ramalho, já tinha composto para Xuxa: são de sua autoria Hoje é Dia de Folia e Brasil Argentina – que todo mundo conhece como Soy de Brasil y Adoro Argentina.


O ensaio realizado para a capa do disco foi anos mais tarde divulgado no Xuxa.com e assim pudemos conhecer várias outtakes do trabalho. Até mesmo um wallpaper foi criado pela equipe do site.


Príncipe Encantado, a primeira música em que Xuxa canta uma situação pessoal sobre o amor ganhou seu clipe só em 1996 e já falamos disso aqui.


Santa Rosa foi feita para homenagear a cidade natal de Xuxa, no Rio Grande do Sul. Provavelmente a inclusão da faixa foi um reflexo da viagem que Xuxa fez à cidade em junho de 1995, quando foi recebida por 40 mil pessoas e desfilou em carro aberto pelas ruas. E olha que ela só ficou duas horas na cidade.


Não houve uma turnê com o nome de Luz no meu Caminho. O que aconteceu foi uma remodelagem do show Sexto Sentido. Pequenas modificações no cenário, faixas do novo álbum foram acrescentadas e figurinos modificados. Xuxa fazia o show praticamente todo com a roupa do clipe de Xuxa Hits, apenas variando as cores.


E garantimos que se você era um “baixinho” ou pré-adolescente nos meados dos anos 90, você se perguntou o que “Jairzinho” estava fazendo no meio da letra de Mania de Malhar. Ele não era o menino do extinto Balão Mágico, que depois gravou disco com a Simony? Pois é, em tempos sem internet ou febre fitness, convivemos com essa questão por um tempo. Se por acaso você ainda tem essa dúvida, saiba que jairzinho é um exercício físico específico para tornear pernas e bumbum e que Xuxa às vezes fazia no quadro da ginástica do Xou da Xuxa (mas nunca falou que chamava assim).


A propósito, em 1995, Xuxa foi nomeada Embaixadora Fitness no Brasil, fato suficiente para justificar a inclusão da faixa no álbum.

Já que falamos em dúvidas que assolavam os baixinhos ouvintes do Luz no meu Caminho, temos mais uma: por que Xuxa falava cueca na letra de Ritmos? Ok, todo mundo conhece todos os outros ritmos que ela cita, mas e essa cueca? Cueca do Carlinhos de Jesus? Apostamos que ninguém nunca viu uma placa “aulas de dança de tango, balé, salsa e cueca”. Pois bem, cueca é a dança típica do Chile. Se pelo menos ela tivesse ido ao Chile naquela volta ao mundo de I Love You Xuxu (1990), não teríamos essa dúvida... Cabia um versinho do tipo “e lá no Chile, eu dancei tanta cueca que gostei / Na Espanha, castanholas eu toquei / Na Itália, tarantela eu dancei...”, não cabia?


E lá se vão 20 anos de Luz no meu Caminho, mas os versos da música título parecem ter sido escritos há 20 segundos de tão atuais que são:
“quero paz na minha vida, quero luz no meu caminho, quero viver /
Entender que tudo passa, que a terra é uma escola, quero aprender/
(...)
Quem quiser um tempo novo tem que ter bondade...”

Mudou alguma coisa? ;)


Comentários
1 Comentários

Um comentário:

Matheus Santos disse...

Um dos últimos álbuns que acompanhei canção por canção, desde encarte e tudo.
As faixas são marcantes e memoráveis.
A música Brasileira nem se fale, a letra além de ser bem escrita, mostra um outro lado da Xuxa, o lado rapper. Umas das poucas músicas, se não a única, que explora esse lado dela.

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