quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Roberto Carlos: o Rei dos Baixinhos?

Por: Jamur

Antes de surgir nossa Rainha comandando o Clube da Criança, a cultura pop brasileira não tinha ídolos exclusivos infantis. Já existiam programas infantis de sucesso, mas só quem se destacava eram os personagens (Sítio do Pica-Pau Amarelo, Capitão Aza, Carequinha e os vários seriados e desenhos enlatados). Não havia uma pessoa ou um grupo musical como ídolo das crianças. Com isso, muitos ídolos dos adultos eram “emprestados” aos pequenos, seja por falta de opção e também por certos elementos que reforçavam essa empatia.

Um exemplo disso é o cantor e Rei da música brasileira, Roberto Carlos. Ele, que já tinha certo apelo infantil na Jovem Guarda, reforçou essa idolatria nos formatos de seus primeiros tradicionais especiais de natal na Rede Globo, que tem muito mais semelhanças com os especiais da Xuxa do que se pode imaginar...


O primeiro foi ao ar no dia 25/12/1974 e, apesar de ter começado com ele em seu camarim fumando um cachimbo (cena também recorrente em outros especiais dos anos 70/80 e que hoje seria taxada de politicamente incorreta), o especial inicia dedicado às crianças. Após a participação do elenco da Vila Sésamo, Roberto Carlos faz um clip com seu filho, Dudu Braga (o Segundinho) da música “O Calhambeque”. O resto do especial segue dedicado mais para o público adulto.


O segundo especial, exibido em plena véspera de ano novo de 1975, utilizou recursos que os especiais da Xuxa usariam nos anos seguintes (como o de 1990): ele já inicia mostrando toda a comoção que ele causava nas multidões nas cidades e países onde ele passava. 


Na “cota infantil” do especial, Wanderléia , Erasmo Carlos e Roberto Carlos gravaram clips de “Pare o Casamento”, “Lobo Mau”, “Negro Gato” , “1990: Projeto SalvaTerra” e “Mexerico da Candinha” de um jeito bem lúdico. 


Também é interessante constatar que, além do aspecto infantil, tem mais dois elementos que seriam comuns nos especiais da Rainha dos Baixinhos: clips de amigos da Xuxa (como Simone em 1991 e Zé Henrique em 1998) e músicas dedicadas a preservação do meio ambiente (como “O Boto Rosa” em 1991 e “A Chuva” em 1996). 


Mais para frente no especial, Roberto Carlos canta com Dorival Caymmi e Silvio Caldas “Acalanto”, que Xuxa gravaria para o disco “Xuxa e seus Amigos” em 1985 e cujo estilo de música seria comum nos encerramentos dos XSPBs.


O especial exibido em 1978 teve como tema principal os direitos da criança. A escolha deve-se ao fato que no ano seguinte seria lançada pela Unicef uma campanha chamada “Ano Internacional da Criança”. Durante todo o especial, Roberto lia os dez artigos que faziam parte da declaração dos diretos das crianças. Algo não muito diferente do que Xuxa fazia nos especiais de dia da criança.



Além disso, o especial ainda contou com a presença dos Trapalhões que, junto com o grupo A Patotinha, cantou a tradicional canção Noite Feliz. O nome desse especial é “Um Milhão de Amigos”, homônimo de sua famosa canção e foi ao ar dia 28/12/1978.
Diretos das Crianças + Unicef + Os Trapalhões + Um Milhão de Amigos... essa junção lembra uma certa campanha, não? #criancaesperancafeelings rs

Curiosidades
A primeira edição do Criança Esperança também foi ao ar no dia 28/12, mas de 1986. E a versão em espanhol de Um Milhão de Amigos, Roberto Carlos cantou na sua apresentação no programa de Nico, na Argentina em 1998. E ele foi chamado ao palco por Xuxa, que estava grávida na época.



No especial de 1980, Roberto Carlos abraça a causa que seria uma das principais bandeiras defendidas pela Xuxa: as pessoas com algum tipo de “deficiência” (na época, ainda se usava essa expressão, hoje considerada politicamente incorreta). O cantor também tinha uma motivação pessoal para defender esse tema: o seu filho, Dudu Braga, era cego.



E no especial de 1981, há pelo menos mais dois elementos que remetem a Xuxa: o clip da música “As Baleias”, lançado no disco daquele ano, que falava das caçadas desenfreadas ao animal. Qualquer semelhança com “O Boto Rosa” é mera coincidência.



Ainda no especial de 1981, é mostrado um trecho de uma Chegada do Papai Noel no Maracanã (sim, Roberto Carlos fazia a Chegada, nos mesmos moldes que a Xuxa faria nos anos seguintes).


Após todos esses elementos, não tem como negar que Roberto Carlos era sim o Rei dos Baixinhos dos anos 70 e início dos anos 80. E também mostra que, tanto Xuxa, quanto Roberto Carlos não ganharam o título de realeza a toa. As causas defendidas por ambos são até hoje pertinentes e nobres. 
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