sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Quando Xuxa virou Quadrinhos - Parte Final

Por: Leandro Franco


Em novembro de 1988, a Rede Globo começou a veicular um filme publicitário de 15 segundos que mostrava Xuxa de costas ao som da música “vira, vira, vira, vira....”. Ao final ouvia-se a pergunta: “o que será que a Xuxa vai virar?


A resposta veio  no dia 17/11 do mesmo ano, data em que foi lançada oficialmente a Revista da Xuxa


A revistinha da loira durou 7 anos (se incluirmos a fase promocional da Arisco). O universo de Xuxa nos quadrinhos em nada deixou a dever aos já tradicionais personagens (Disney, Turma da Mônica, Trapalhões). A loira fez bonito no ranking dos gibis mais vendidos durante toda sua existência. Vocês puderam conferir aqui no Xuper Blog uma série de posts contando todos os detalhes de cada edição, da nº 0 à nº 68, só que ainda temos histórias para contar, números e curiosidades para mostrar...



O início de tudo...

A Revista da Xuxa foi produzida por, pelo menos, cinco estúdios diferentes: ArteCômix, Farias & Paulo José, ZW Arte e Estúdio, Aluir Amâncio Produções e AW Art & Studio.


O primeiro estúdio responsável foi o ArteCômix, comandado pelos desenhistas Hélcio de Carvalho e João Paulo, o JP.  Porém, a pessoa que deu vida ao primeiro desenho de Xuxa para a Editora Globo foi o desenhista Gustavo Machado, que não trabalhava no estúdio.


Foto: Arquivo pessoal de Gustavo Machado

Um amigo de Gustavo, Watson Portela, havia sido convidado para desenvolver os desenhos da loira, mas como não era bem sua área de atuação, resolveu apresentar Gustavo ao estúdio.

Chegamos ao estúdio da Arte & Comics e fomos muito bem recebidos pelos sócios. Watson fez então uma pequena encenação de suspense, apresentando em seguida minha pasta com os estudos da rainha dos baixinhos como sendo dele. Hélcio literalmente aguardava ver o material esfregando as mãos. Pegou ansioso o material, olhou atentamente e em seguida soltou um: “Putz, ficou do c*ralho, Watson!”. Meu amigo então, um tanto canastrão, revelou a verdade proferindo com garbo: “Pois então, agora vou lhes dizer... Não fui eu que fiz esses desenhos, e sim o meu amigo baixinho aqui, o Gustavo!”. Confesso que naquele momento cheguei a me arrepender de topar aquela brincadeira, enquanto olhava atentamente a reação do Hélcio. Ele congelou uma expressão de surpresa por um átimo de segundo que pareciam horas... Para nossa sorte, Helcio levou aquela galhofa na esportiva e com o mesmo sorriso e reação de antes, me parabenizou efusivamente pela criação. Disseram que estavam “apanhando” para fazer uma concepção visual que agradasse a Xuxa e sua produtora, pois o material sempre voltava com um aval negativo. Vários desenhistas já haviam tentado sem sucesso. Já calejados e baseados no gosto exigente das clientes, Hélcio e JP acreditavam que a minha versão tinha tudo para agradar definitivamente as duas. E assim foi.



Sabiam que a primeira HQ da Xuxa não foi a publicada na n.0? Pois é, Gustavo conta que a 1ª aventura da loira nos quadrinhos foi “Pra Lá das Estrelas” publicada como a penúltima historinha da Edição 1 do gibi. Além disso, ele nos revela outras curiosidades:

"Sozinho, desenhei algumas capas e grandes ilustrações que serviriam de pôsteres nas revistas, além de um cartaz para as bancas anunciando o lançamento da revistinha."

 Arte de Gustavo que foi aproveitada para ser o poster que veio de brinde na
Edição 3 (Março de 1989)


Eu e Watson produzimos juntos a primeira HQ da Xuxa. Eu desenhei e Helcio pediu que Watson ao menos desse a honra de fazer a arte final, que ele aceitou e produziu lindamente como sempre. Outra HQ da Xuxa foi produzida em ritmo acelerado, pois seria para o número zero da nova revista, uma edição gratuita como brinde nas edições dominicais de alguns grandes jornais, totalizando a exorbitante tiragem de três milhões de exemplares. Não pude me comprometer com essa HQ, mas fiz a capa que foi finalizada e colorida pelo Henrique Farias, um talentoso veterano dos quadrinhos e amigo, que havia começado a carreira fazendo quadrinhos na Ebal, no Rio de Janeiro. Além da capa do número zero, precisei redesenhar todos os rostos da Xuxa da HQ desenhada por outros desenhistas, pois haviam sido reprovados na avaliação.


A 1ª HQ da Xuxa: desenho não finalizado de Gustavo Machado.
Notem a data que marca o início de tudo: maio de 1988

Versão finalizada por Watson Portela, que foi publicada na edição n.1 (dezembro de 1988).
Há mudanças em alguns elementos, como a roupa da Xuxa e a substituição da
canção "Festa do Estica e Puxa" pelo "Abecedário da Xuxa"

Pouco tempo depois a Revista passou a ser produzida pela Farias & Paulo José. Inclusive foi o Henrique Farias quem coloriu a capa da edição n.0. Conversamos também com o Sr. Paulo José, que nos contou mais algumas curiosidades:

 Desenho de Gustavo Machado que recebeu a finalização de Farias
para se tornar a capa da Edição nº 0


Como surgiu o convite para o estúdio Paulo José e Farias fazer a Revista da Xuxa? Vocês já haviam trabalhado com ela anteriormente?
Não.  O Farias foi convidado pelo Hélcio um editor que produzia para a Globo.O Farias me convidou pra trabalhar junto com ele. Eu desenhava e, às vezes, escrevia e o Farias fazia a arte final. Posteriormente passamos a trabalhar direto com a Editora Globo.

Com quanto tempo de antecedência faziam as histórias? Era a própria Xuxa quem aprovava todas?
Nós preparávamos cada revista com um a dois meses de antecedência. As histórias e desenhos eram enviados para ela aprovar. O desenho dela tinha sempre que estar lindo, ou não aprovava. Ela sempre mandava um modelo de roupa que deveríamos seguir. Era um saco desenhar aquelas roupas.

Foto: Arquivo pessoal de Paulo José da Silva


E o “bicão” das HQs? Afinal quem é ele?
Se você acompanhou nossos posts vai se lembrar do famoso “desconhecido” Wander. Um personagem que sempre aparecia nas historinhas como figurante. O rapaz apareceu de tudo quanto foi jeito, até no túmulo...
E quem é essa pessoa?
Tivemos a grata surpresa de receber um comentário bastante esclarecedor de Willian Borba que foi desenhista do Estúdio AW. Além de nos revelar quem era o Wander, também contou porque isso acontecia:

Eu, assim como vários outros artistas, trabalhava na época para vários títulos da Editora Globo e Editora Abril (como Heróis da TV e Aventuras dos Trapalhões) através do estúdio AW, que pertencia ao artista Wanderley Mayhé, o "bicão" que aparece em várias das histórias como Wander. É praxe dos artistas desenhar amigos e colegas de trabalho como uma forma de brincadeira e homenagem aos mesmos. O próprio Wanderley desenhou várias das histórias da Xuxa e não deixou de incluir-se nelas como uma forma de “assinar” a obra, uma vez que, diferente da Editora Abril, a política interna da Editora Globo proibia que os artistas free-lancers tivessem seus nomes nos créditos.



Willian também “assinou” sua obra. Ele nos contou que é o desenhista que aparece conversando com a Xuxa na história “Falta de Espaço” publicada na edição 60 (Dezembro de 1993). Um “exercício de metalinguagem” como ele disse.


E existem histórias inéditas que foram engavetadas! Como lidar com isso, gente?

"Devo dizer que o título (revista) foi encerrado com meses de antecedência, devido a problemas entre a produção da Xuxa e a Editora Globo. Várias das histórias que desenhei naquele último ano do título ficaram engavetadas, apesar de terem sido até mesmo arte-finalizadas e letreiradas, estando inéditas até hoje." - contou Willian

Willian leu nossos posts e fez questão de esclarecer algumas coisas que nos deixavam com a “pulga atrás da orelha”... Da confusão com os nomes das Paquitas aos deslizes pela falta de correspondência com o universo dos programas. Tudo bem explicado...

"Quanto a algumas das críticas, preciso esclarecer que os desenhistas baseavam-se nos roteiros e model sheets que recebiam, desenhando apenas o que era pedido pela equipe editorial, que mudava os nomes de alguns personagens quando da publicação, como no caso da paquita Pituxa, que apareceu como sendo Xiquita na edição 38. A maioria de nós só tinha contato com o universo da Xuxa por meio desses materiais que nos entregavam, uma vez que não tínhamos tempo para assistir a seus programas."


Os Números da Revista da Xuxa

Se as aventuras, na maioria das vezes, eram uma grande brincadeira para Xuxa e sua turma, definitivamente não podemos dizer o mesmo dos números que envolvem a história do gibi. Vamos, literalmente, contar?

1. A edição nº 0 teve uma tiragem recorde de 3.000.000 de exemplares. Obviamente esse número aconteceu porque a edição foi distribuída gratuitamente juntamente com  os principais jornais do país, numa ousada estratégia de marketing da Editora Globo , que investiu US$600 mil para produzir e fazer o lançamento do gibi.

2. A edição nº 1 ganhou uma tiragem de 700.000 exemplares, que chegaram às bancas no dia 07/12/1988. De acordo com o Diretor da Divisão Infanto-Juvenil da Editora Globo na época, Rogério Rahier, esse número representava mais que o dobro de outras publicações do gênero, como a “Mônica” de Mauricio de Sousa

Anúncio publicado no Jornal O GLOBO em dezembro de 1988
e em outros gibis da Editora Globo



3. Cada edição tinha cerca de 66 páginas, sendo que geralmente 6 eram destinadas aos anunciantes. Ao final da publicação tivemos aproximadamente 3738 páginas – aqui considerando a fase de banca com 60 páginas e a fase promocional com 11 páginas cada.


4. Já que falamos de anunciantes; muitas vezes os produtos da Xuxa estamparam as páginas da Revista. Foram 30 anúncios que divulgaram bonecas, tênis, relógio, roupas de cama, discos, mini-games e até mesmo a Xuxa Turismo que não era um produto e sim uma empresa da loira.



5. O número de historinhas inicialmente seria em torno de 5 ou 6 por edição, mas isso durou pouco. A maioria das edições teve entre 7 e 9 histórias. As edições com menos histórias foram a n.1, a n. 2 e a n. 50 (5 historinhas) e a que teve maior número foi a n.60 (12 histórias – o que era esperado, afinal ela teve 50 páginas a mais que uma edição comum).

6. Foram publicadas 472 histórias, considerando da n.0 até a n.68.

7. Das 472 histórias, Xuxa apareceu em 318 delas, independente de ser a protagonista da aventura.

8. Uma das seções mais divertidas do gibi era o “Correio da Xuxa”. Aparecia de tudo! Gente pedindo beijo, pôster, foto, fita VHS (!!!), seção de acrósticos (oi?), passatempos (para isso criaram o Almanaque da Xuxa). Todo mês eram publicadas algumas cartinhas e ao final contabilizamos 676 cartas!


9. Se fosse o “Xou da Xuxa”(Rede Globo), o baixinho telespectador escreveria as três coisas que mais gostava e as três coisas que menos gostava no programa. No gibi daria para fazer uma espécie de “as três coisas mais pedidas”: pôsteres (Xuxa e sua turma), passatempos e Paquitos. Tudo com “p”... puxa!


10. Paquitos! Os moços nunca tiveram vez no gibi da loira. No começo Xuxa ainda emendava um “eles vão aparecer, aguardem”, depois acabou deixando pra lá e usou o tradicional “sua sugestão está anotada e será estudada com muito carinho”. Foram 27 cartinhas de admiradoras dos rapazes. No gibi nunca apareceram, mas pra matar a curiosidade de como seriam os Paquitos em versão quadrinhos, o álbum de figurinhas Xuxa de 1991 trouxe uma figurinha retratando dois deles. Quais seriam?



11. Outra seção foi a “Dicas pros Baixinhos” onde abordava-se de tudo. Foram 148 dicas ou 156, se considerarmos as dicas da Arisco. Entre as dicas estava o assunto Astrologia. O tema foi abordado somente uma vez, embora os leitores pedissem bastante uma seção da Madame Caxuxá com previsões para os signos. Caxuxá também não apareceu e, assim como os paquitos, só teve uma versão desenho num álbum de figurinhas, mas o dela foi no de 1987. Curiosamente, a seção da madame Caxuxá chegou a ser divulgada com uma das novidades do gibi: “Para os próximos números, mais novidades, como as previsões astrológicas de Madame Caxuxá” publicou o jornal “estado de São Paulo”, no suplemento “Estadinho” em 04.12.1988.




12. No primeiro ano da publicação,utilizaram o recurso de apresentar os personagens ao publico leitor através de Fichas-Perfil. Foram 36 fichas mostrando toda a turma, encartadas da edição n.2 até a edição n.10.

13. Com os personagens já apresentados, as Fichas-Perfil foram substituídas pelas Fichas-Bichos; 92 bichos foram apresentados em suas características e curiosidades, encartadas da edição 15 até a n.60.


14. Por 19 vezes a Revista da Xuxa trouxe um brinde para seus leitores. De papéis de carta à caneta, passando por adesivos e os tão sonhados pôsteres (incluindo a fase promocional da Arisco)



15. A Revista da Xuxa teve 3 “derivados”: o Almanaque da Xuxa (8 edições), a Revista de Montar da Xuxa (5 edições) e o Gibizinho da Xuxa (7 edições). Existiu ainda um Gibizinho dedicado às Paquitas, únicas personagens que tiveram esse “mimo”. Falando em personagens...





Os personagens em números

Vimos que a Turma da Xuxa era composta de 36 personagens de acordo com as fichas-perfil, mas na verdade esse número sobe um pouco.  As fichas só contabilizaram, por exemplo, as 4 primeiras Paquitas e ignoraram o Praguinha e a Mocreia Fantástica, que tiveram mais importância que muito personagem mostrado nas fichas.

Jô e Tuca são exemplos de personagens que raramente deram as caras

Determinar uma hierarquia nesse “elenco” é difícil. Ao longo dos 68 números, vimos personagens crescerem e outros que pareciam promissores desaparecerem. Claro que a trinca de ouro marcou presença até o fim... Dengue, Praga e Moderninho foram, sem dúvida, os destaques como personagens co-protagonistas. Curiosamente, no programa Xou da Xuxa, esse trio não tinha metade do destaque que tinham as Paquitas e no gibi os três ganhavam de lavada das soldadinhas da Xuxa.


Alguns personagens feitos exclusivamente para o gibi também tiveram seus momentos sob os holofotes: Tupinixim, o índio amigo de Xuxa; Praguinha, o filho do Praga e Robuxo, o robozinho filhote da Nave da Xuxa.






Vamos contar mais um pouco?

1. Obviamente Xuxa foi a única que apareceu em todas as capas, mas com quem ela mais dividiu essa exposição? Outros 14 personagens tiveram seu momento “capa de revista”.

2. Nosso pódio de “Garotos da Capa” ficou assim: 
Praga = 21 vezes
Moderninho = 19 vezes
Dengue = 12 vezes



3. Internamente, Xuxa também dividia as atenções das histórias com sua Turma. A loira protagonizou 265 historinhas, Praga teve 85, Moderninho comandou 81 e o Dengue foi o astro de 43 aventuras.

4. A macaca Jô apareceu 1 vez somente em toda a existência do gibi. Jô entrou muda e saiu calada numa aparição relâmpago no aniversário da Maria (edição 26 – Fevereiro/1991).


5. Vocês já sabem que grande parte dos personagens foi inspirada em pessoas que trabalhavam com Xuxa na época da publicação dos gibis, certo? Paulista (Reinaldo Waisman), Mumu (o saudoso My Boy, sonoplasta do Xou); Sandrão (Sandra Bandeira, figurinista de Xuxa); Pavão (Oswald Berry, coreógrafo do Xou), Jesus (Magno, segurança pessoal da loira até hoje)... Por duas vezes a equipe deu uma escorregada e misturou vida real com fictícia.

Na edição nº 0, o Pavão foi chamado de Berry (sobrenome verdadeiro do
coreógrafo que inspirou o personagem)

Na edição nº 11 foi a vez de confundirem o nome de Jesus com o do segurança de Xuxa,
Magnum, que inspirou o personagem

É bom voar nas asas da Imaginação...

E assim encerramos nossos posts sobre a Revista da Xuxa. A publicação, sem dúvida, foi o item que mais mexeu com o lado lúdico do universo Xuxa. Em que outra situação poderíamos ver a Nave cruzando galáxias... conhecer a família do Praga... embarcar nas loucuras do Moderninho... se divertir com as trapalhadas do Dengue... encontrar Xuxo e Pimpo falando como humanos? O gibi escreveu – de forma brilhante – seu capítulo na história da loira e na infância de muita gente. Essa história acaba aqui, mas “quem quiser que conte outra”...

Ah, somente por duas vezes o “FIM” não foi escrito dentro da silhueta do beijinho: na edição 30 (numa história do Praguinha) e na última edição da Revista (n.60) 
antes de se tornar promocional.


Comentários
4 Comentários

4 comentários:

Victor disse...

Amei as curiosidades todas. Ainda lembro vagamente da época em que a revista da Xuxa circulava nas bancas, já nos tempos da Arisco. Gente, sugestão: façam também uma matéria dossiê nesse estilo falando sobre todas as bonecas da Xuxa que já foram lançadas, desde as antigas da Mimo até as da época do Mundo da Imaginação. Matérias com fotos, informações de bastidores, curiosidades, entrevistas com os envolvidos, etc. Eu ia amar!

Andrey Castro disse...

Di Júnior foi inspirado em quem?

Andrey Castro disse...

Será q Di Júnior foi inspirado no Avelar Love (acho q eh esse o nome? (Aquele q fez o Maurícinho do Lua de Cristal)

Xuper Blog disse...

Andrei, o personagem Di Junior foi inspirado em Junior Porto, que na época trabalhava na produção do programa e trabalha com Xuxa até hoje. Nós abordamos sobre ele nesse post:
http://bloggerxuper.blogspot.com/2016/06/revista-da-xuxa-edicoes-58-59-e-60.html

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