domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Diário de Xuxa - Reações comuns de uma garota extraordinária.

Por: Leandro Franco

O ano de 2017 já começou trazendo mudanças na vida de Xuxa. Para quem não sabe, ou não se lembra, desde novembro de 2014, Xuxa tinha uma coluna na revista Viva! da Editora Caras, onde ela contava suas impressões, relatos e memórias, dividindo seus sentimentos com os leitores da publicação.

X da Questão: mudou a revista, a loira continua a mesma!

A revista Viva! encerrou suas atividades em outubro do ano passado e os leitores cativos da loira ficaram “órfãos”... mas foi por pouco tempo! Em janeiro, a revista Contigo! convidou e Xuxa aceitou: a coluna X da Questão migrou e reestreou na nova casa, na edição 2157.
Engana-se quem pensa que escrever suas impressões e sentimentos seja algo novo para Xuxa.  Graças a um dos vídeos do Canal X tomamos conhecimento que nos primeiros anos de vida de Sasha, a mãe coruja fez questão de montar um livro com relatos para sua baixinha. “É como se fosse um diário, gente! Um diário que eu fiz pra Sasha ler, de tudo que acontecia, de tudo que eu fazia, TUDO! Tá tudo aqui!” – contou Xuxa surpresa ao reencontrar o “presente” que nem ela mesma lembrava ter feito.

O Diário de Sasha: só no Canal X

E se formos mais longe? Bem mais longe? Será que Xuxa se lembra que ela também registrava seu dia-a-dia e emoções lá no fim da sua adolescência, no início dos anos 80? Quando mostrou o livro de Sasha, Xuxa leu a introdução que escreveu para a filha: “Sasha, comecei a escrever esse livro imaginando um dia você folheando suas páginas, lendo e dando boas risadas”. E a própria Xuxa? Como ela reagiria relendo suas próprias anotações e confidências juvenis?

Nos anos 80, a cabeça de Xuxa era outra, ela estava no auge como a modelo mais requisitada do país, havia uma aura de sex symbol criada ao seu redor, ela já movimentava a indústria publicitária, trabalhava – e muito! – mas era também uma jovem de 17, 18 anos às voltas com o encantamento da profissão de modelo, o começo de um amor mais sério e, infelizmente, começando a perceber que as pessoas não são tão boas como parecem. Tudo devidamente registrado em seu caderninho.

Diários de Xuxa: confissões comuns de uma pessoa incomum



“Serei sempre seu confidente fiel, se seu pranto molhar meu papel...

As publicações da época faziam alarde sobre a modelo mais cobiçada, que transpirava sensualidade e mexia com a cabeça dos homens. Criou-se um vulcão, que na verdade era pura calmaria. E uma das primeiras a mostrar essa contradição foi exatamente uma das revistas que mais enaltecia o status de mulher desejada: a Playboy.

Toda noite, antes de se abraçar com Bebeto, bonequinho de penas que a acompanha desde a infância, e partir rumo aos sonhos, a manequim Xuxa senta-se diante de um caderno espiral e escreve os pensamentos e fatos amorosos que lhe agitaram mais um dia. Uma rotina desde fevereiro do ano passado e que já está no terceiro volume, sempre cadernos de 100 folhas, onde coloca sua letra redonda, pacientemente desenhada. É um diário lírico, sem descrições eróticas, detalhes excitantes. (...) É nele que Xuxa despeja seu estilo de frases curtas, como o de Agatha Christie, sua escritora preferida. São frases soltas que às vezes não se ligam com as anteriores, mas que permitem que uma jovem de 19 anos se mantenha romanticamente unida ao homem amado.
(Trecho extraído da matéria “o Vulcão em Repouso”, da Playboy, em abril/1982)

Pronto! Abriu-se a porta da curiosidade pro mundo. Os diários de Xuxa não eram segredo e passaram também a ser objeto de cobiça, tal e qual acontecia com a imagem de sua dona.
Demorou um pouco, mas a concorrente da Playboy, a revista Ele Ela,  conseguiu a exclusividade e em maio de 1983, anunciou toda orgulhosa em sua capa “O Diário de Xuxa”. Óbvio que a revista teve que escolher alguns trechos para publicação ou precisaria de uma edição inteira só para isso – o que não seria má ideia...
As principais coisas estavam lá, tudo que interessava no momento: como a loira entrou para o mundo da moda, o encontro com Pelé e o início do namoro, o glamour e os percalços da vida de modelo, projetos.

Revista Ele Ela (maio/1983): exclusividade na publicação dos relatos


“Vou lhe dar abrigo, se você quiser, quando surgirem seus primeiros raios de mulher...
Direto de um túnel do tempo, vamos ver o que pensava a jovem Xuxa, que ainda nem imaginava se tornar a estrela da TV, Rainha dos Baixinhos, cidadã engajada e, sobretudo, muito mais amada que cobiçada.


“Um cara me seguiu, quando saí da ginástica com minha irmã, Mara. Ele levava revistas embaixo do braço. Sempre fui tarada por revistas e fiquei olhando. Minha irmã, tão protetora como minha mãe, achou que era paquera. Depois soube que o cara se chamava Waltinho e trabalhava no arquivo cor da Manchete. Ele me seguiu até em casa, tomou coragem e bateu na porta. Mostrou identidade para minha mãe e disse que na Manchete estavam procurando modelos. Sua função não era, mas achou que gostariam de mim. Mãe lhe deu uma foto minha, aos 13 anos, no carnaval em Coroa Grande. Não tenho muitas fotos, pois nunca gostei de fotografia por causa dos meus dentões, bochechas e sardas.

A foto entregue a Waltinho e a primeira foto publicada na revista Carinho

Dois dias depois:
“Na saída da ginástica, me telefonaram da revista Carinho. Perguntaram se eu queria fotografar. Decidi tentar. Será sem maquilagem. Em casa, a família se reuniu, fez restrições. Disse que esse trabalho não é bem visto. Mas estou começando a querer.

Mais três dias:
Cortei o cordão umbilical esta tarde. Me pediram para fotografar maquilada e quem me preparou foi Tomas Dourado, no apartamento em Copacabana. Mãe não me deixou ir sozinha. Fiquei incrível; ele raspou minhas sobrancelhas, o que me deixou muito diferente. Quando me vi, quase morri de rir. Na Kombi não deixaram mãe entrar porque não fazia parte da equipe. Como só tenho 16 anos, mãe disse que eu não iria sem ela e me chamou para irmos embora. Foi terrível. Eu estava toda maquilada, na maior expectativa. Olhava para mãe e para a Kombi. Sempre fui muito ligada à família, não saio sem eles, escuto o que dizem. Mas nesse momento senti que tinha que optar. Disse para mãe que eu iria, podia estar errada, mas tinha que tentar. Ela ficou lá chorando. Senti que um pedaço de mim ficava com ela.”


“Saíram minhas fotos, com a surpresa: fui escolhida manequim da Carinho. Já estou fazendo minhas primeiras fotos, que estão incríveis. Desde pequena sempre gostei de fazer pose. Dá para notar olhando minhas fotos de menininha. Eu ficava folheando revistas estrangeiras, tipo Photo, observando como as modelos se portavam. Agora que estou fotografando profissionalmente, já tenho um jeitinho de fazer boquinha, de empinar o bumbum. Os fotógrafos notam isso. Nílton Ricardo foi o primeiro a me fotografar. Ele está me dando muitas dicas. Quando ele disse “dá o ombro”, fiquei assustada porque não sabia como fazer. E como é botar para fora a saboneteira? Como é fazer cara de tesão? Se até os 11 anos eu ainda pensava que beijar engravidava?! Acho que agora, com 16, não mudei muito. Me acham ingênua.



O Fernando Pernambuco está me ensinando coisa ótimas. Como me maquiar, como realçar os olhos, como usar o lápis na boca. Saiu minha primeira capa para a Carinho Romance. Eu com Aroldo, um modelo, estou com os cabelos molhados. Fiz também meu primeiro desfile, para Jordach.
Conheci Luiza Brunet, ficamos amigas. A amizade está crescendo. 


Estamos fazendo quase todos os trabalhos juntas, porque quando me chamam para alguma coisa eu logo indico a Luiza, e ela a mesma coisa. Há muita troca entre nós. Ela me ensina muita coisa; o que aprendo também passo para ela.”












“Fiz a capa para a Manchete com Pelé, a Luíza, Márcia Brito e uma morena de Brasília. A matéria vai se chamar Minha Liberdade Vale Ouro. Pelé perguntou meu nome, eu contei que tenho 17 anos e sou gaúcha. A turma combinou de ir à noite ao Canecão, assistir ao show da Elis e esticar no Régine’s. Disse para Pelé que não poderia ir, só se o pai e mãe fossem juntos, porque eu não saía sozinha. Disse que ligaria para o pai e ligou, mas o pai desligou o telefone quando ele disse quem era. “E aqui é a Rainha Elizabeth”, pai respondeu. Quando soube que era realmente Pelé, pediu desculpas, mas só me deixou sair com meu irmão Cyrano que ficou o tempo todo no carro e não queria descer. No Régine’s mandei-o para casa. Ele não queria, porque mãe não iria gostar. “Deixa que eu assumo”, eu disse. Pela segunda vez cortei o cordão. Mãe não dormiu até que eu cheguei, às quatro da manhã.”




“Foi uma emoção me ver na capa de ELE ELA. É a primeira revista de grande porte, sem ligação com moda, que me destaca. Já saí em umas seis capas antes, mas nada parecido. Na foto, estou seminua. Não nua total porque quando fotografei ainda não tinha 18 anos. Com isso armei a maior confusão: todas as revistas me pediam o nu, mas, como eu era menor, prometi para depois do aniversário. Agora, fotografei para Status e dois dias depois para Playboy. As duas revistas ficaram brigando e ELE ELA largou primeiro. Eu, fugindo de tudo, vim para Nova Iorque. Ganhei a viagem de Pelé, de aniversário. É minha primeira viagem ao exterior, fico três meses fora.”
“Fotografar nua não me perturbou. Curto o lance de mostrar mais o meu corpo, é o meu trabalho. Fazer fotos sem roupa não é fácil. É mais difícil do que se pensa. Não tem lugar para pôr as mãos. Mas é preciso que você goste muito de você para fazer um trabalho desse e conseguir expressar alguma coisa. É como trabalhar em cinema mudo, porque é preciso transmitir no olhar a roupa que está vestindo. Sem roupa, vou expressar o quê? Em casa, a nudez sempre foi vista como uma coisa natural, cada um sempre andou como quer, nada de esconder a coxa quando aparecia. Nunca houve uma permissividade indiscriminada mas vemos a nudez como uma coisa natural. Isso me facilitou na forma de aceitar o corpo, de acha-lo bonito.”



“Passei dias horríveis em Cleveland. Como imaginar que pudessem fazer uma coisa dessas? Imagino quantas modelos já passaram por coisa semelhante e escondem com vergonha. O trabalho da modelo é fotografar, mas tem pessoas que confundem. Meu contrato previa dois dias de trabalho e, quando cheguei a Nova Iorque, um carro me levou a Cleveland. O motorista, que falava português, ficou assustado quando me deixou na porta do hotel e eu perguntei sobre o trabalho. Disse que estava sabendo de coisa diferente, mas não explicou qual. Meu sangue esquentou, fiquei assustada, não vi mais nada na minha frente e pensei que ia desmaiar. Fui para o quarto do hotel e me tranquei. Era o mais seguro. Telefonava para o pai e a mãe a todo instante. Chorava, sapateava, gritava. Não atendia ninguém. Quando ligaram dizendo que eu ia receber uma vista, falei que mandava quem entrasse ali. Queria ir embora, estava com medo e não sabia como agir. Como não falo inglês, não saberia pedir um táxi nem tomar o avião em Nova Iorque. Papai dizia para eu me acalmar. Só saí dessa por causa do Pelé. Ele estava viajando, mas ficou sabendo e incumbiu a Warner Communication de me resgatar. Fui escoltada até o avião e papai me esperava no Brasil. Enquanto estive lá escrevi sobre tudo isso, mas rasguei, de raiva. Os dias que passei no hotel, me alimentei só de pipoca. Agora vou ficar uns tempos sem ver pipoca. Estou enjoada.”





“Passei quase duas horas experimentando roupas, dei três entrevistas para jornais, e o que me acontece depois? Abri, como sempre faço quando querem, com ginástica de solo. Pedi as roupas para desfilar e um cara me disse, na frente de mãe, que meu trabalho seria apenas entrar com uma camiseta com o nome do patrocinador, e trocá-la por outra, com o nome do outro patrocinador. Queria bater no rapaz e ele ainda me chamou de antiprofissional. Não me importo com o nudismo. Acho que modelo deve saber por e tirar a roupa. Lá fora a modelo começa nua e vai vestindo a roupa, mas aqui ainda não aceitam isso. Então não faço.”



“Um grupo de esteticistas mostrou-se disposto a abrir uma boutique no Rio. Fiquei encantada. Um lugar enorme, como não existe no Brasil, onde a mulher sai vestida, dos pés à cabeça. Eu só devo entrar com o nome. Se for como me mostraram, será um mundo à parte, completo, com espaço até para desfiles. Quando eu voltar à Califórnia, acertarei os detalhes. Mas se não der, talvez eu lance uma linha de maquilagem antialérgica. 

Linha de maquiagem antialérgica: um dos projetos da modelo Xuxa
O sol de verão que temos no Rio, em quase todo o Brasil, não acaba mais, dura o ano inteiro e massacra a pele da gente. E quem pode pagar produtos importados? Me agradam demais os produtos naturais e vou adorar ter uma linha com meu nome.”




“Fui a um hipermercado aqui perto com Wanda. Fiquei assustada porque no Rio ando normalmente, faço compras, vou às lojas. Mas aqui o mercado parou quando fui reconhecida. Não pude comprar mais nada. Pior ficou quando o Dico chegou, para nos buscar. Foi o caos! Até amassaram o carro dele!”




“O que está escrito em mim, comigo ficará guardado...
Além de publicar trechos dos cadernos, a revista ainda contou que Xuxa tinha planos de lançar uma compilação em livro. Como queríamos que isso tivesse dado certo, não é mesmo?

“A curta trajetória que Maria da Graça Meneghel, a Xuxa, percorreu em direção ao sucesso vai ser contada na íntegra. Recorrendo ás anotações de viagens, recordações e até à memória de sua mãe, dona Alda, Xuxa pretende lançar um livro.
O livro deve abordar as muitas facetas da personalidade cativante da menina que ainda conserva dentes de leite e muita ingenuidade; se alimenta de comida natural, dorme cedo e não gosta de badalações.


O livro não saiu, mas nem por isso as histórias deixaram de ser contadas e recontadas


“A vida se abrirá num feroz carrossel e você vai rasgar meu papel...
Anos depois, em 1987, durante uma entrevista – também para a Ele Ela – o repórter Renato Sérgio perguntou:
Ele Ela: Continua escrevendo seu diário?
Xuxa: Parei. Não era bem um diário, mas um registro de pequenas coisas que aconteciam, era mais um desabafo. E essas anotações pararam quando eu e o Dico, quer dizer, o Pelé, paramos, há um ano.


“A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer?...
Hoje, mais de 30 anos passados, podemos conferir o quanto a menina louca por revistas estava mesmo destinada a ser dona das capas, dos sonhos de marmanjos - e do coração de baixinhos anos depois. A empolgação com as primeiras fotos, a descoberta de um amor juvenil...  Reações comuns de uma garota extraordinária.



Ah, já que a letra de O Caderno – composição de Toquinho – deu o tom do nosso post, fica aqui o nosso apelo, Xuxa:
Só peço a você um favor, se puder:
Não me esqueça num canto qualquer.”

Procura direito aí nos seus guardados, loira... Vai ter assunto para uns dez vídeos no estilo “Direto do Baú”. Fica a dica pro Canal X  😉



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