quarta-feira, 11 de julho de 2018

"Xou da Xuxa 3" - 30 anos

Sem dúvidas o ano de 1988 pode ser considerado um divisor de águas na carreira de Xuxa. Há poucos dias falamos dos 30 anos do filme “Super Xuxa contra Baixo Astral”, lançado no dia 30/06 desse mesmo ano. Foi a partir daí que a Rainha conquistou seu trono também nas telas de cinema, mas aquele ano ainda reservava algo muito maior a ser conquistado num reino que ela já conhecia muito bem: o do mercado fonográfico.

Tá na hora, tá na hora, tá na hora de... FESTEJAR!

São 30 anos do lançamento do disco Xou da Xuxa 3, o álbum de maior vendagem da carreira de Xuxa e, ousamos dizer, do BRASIL! Como render homenagens a algo tão marcante; como ser preciso ao dimensionar o alcance de suas faixas; como explicar que um neologismo se tornou a música de uma geração? Há muito mais por trás daquela capa cor-de-rosa que todo baixinho dos anos 80 teve na sua pilha de discos...



Ter a chave do tesouro é natural...
Se, em 1986, Guto Graça Mello penou para conseguir que compositores fizessem músicas para Xuxa gravar no seu primeiro disco pela Som Livre e se, em 1987, a oferta chegou a novecentas composições enviadas com a esperança de figurar entre as que estariam no repertório do segundo disco. Já produzido por Michael Sullivan e Paulo Massadas, era de se esperar que as coisas se equilibrassem para o segundo disco, cujas vendas superaram 2.500.000 até 1988. Mesmo com a crise que o mercado fonográfico atravessava naquela época, o filão infantil ainda era o único que colhia frutos.

Dos "cinco mais", três são do filão infantil e a disparidade em relação aos números de Xuxa é gigante.
Nota: A Veja considerou os números do Xegundo Xou da Xuxa e o Karaokê da Xuxa


Além disso, Sullivan e Massadas sabiam bem que caminho seguir, fazendo com que Xuxa continuasse sua ascensão como fenômeno de comunicação. Não tinha como dar errado! O processo de criação do “Xou da Xuxa 3” começou em março de 1988, depois que Xuxa acabou de gravar Super Xuxa Contra Baixo Astral. O primeiro passo já tinha acontecido: “Arco-Íris”, canção que fazia parte da trilha do filme e figuraria no repertório do Xou 3.

Xuxa na contramão do mercado fonográfico: quanto mais ele se retraía, mais ela vendia


Max Pierre, produtor artístico dos discos da era “Xou da Xuxa”, nos contou um pouco do processo de criação:
Nossa ideia sempre foi criar um projeto infantil não-imbecil, dando a nossa maior artista um padrão musical excepcional, com bases e arranjos gravados pelo Roupa Nova e Lincoln Olivetti. Fazíamos a captação do repertório tentando buscar mensagens educativas que despertassem nas crianças coisas como a defesa à ecologia, aos animais, etc., preocupação constante de Xuxa. A seleção de repertório era feita entre centenas de canções enviadas para Som Livre, gravávamos em média 16 músicas por projeto, lançando os discos com 13 ou 14 músicas. As excluídas, muitas vezes, não chegavam a ser terminadas com colocação de voz da Xuxa.

As etapas de produção de um álbum eram as mesmas para todos artistas, mas para Xuxa a parte da seleção era mais trabalhosa: escolher só 16 músicas das centenas enviadas


Nesse faz-de-conta, a cabeça a flutuar...
O repertório do Xou da Xuxa 3 não segue a linha do seu antecessor. O Xegundo trazia canções mais voltadas ao programa, pensadas para os quadros ou determinados momentos da atração. Desta vez, o intuito é divertir passando boas mensagens sem estar preso à dinâmica do programa. Algo como a hora do recreio na escola em que há a diversão dentro de um contexto maior que é a educação, obviamente sem a seriedade de uma sala de aula.

A preocupação maior com as mensagens a serem passadas passou a ser uma das marcas registradas da discografia de Xuxa depois do Xou 3. Cerca de 90% do repertório é de autores já conhecidos do público da loira e esse pessoal teve que dar asas à imaginação para fazer “de novo” sem se repetir



Confira a partir de agora um faixa-a-faixa do disco. Histórias sobre as músicas, curiosidades e surpresas num bate-papo exclusivo com alguns dos compositores e o produtor Paulo Massadas.


1. Ilariê 
(Cid Guerreiro / Dito / Ceinha)


Pensou em Xou da Xuxa 3, pensou em Ilariê... Quando vamos falar de Ilariê, temos a impressão de que tudo que poderíamos saber sobre a faixa já está em nossa cabeça, tamanha é sua força até hoje, mas sempre tem uma novidade...

Por incrível que pareça, a faixa não foi a primeira música de trabalho do disco, foi a segunda. Cid Guerreiro, cantor e compositor baiano, já era atração cativa do Xou da Xuxa e foi numa dessas participações que recebeu a encomenda de fazer uma música baiana para Xuxa. 

Cid Guerreiro: de um convite a um hit
A loira vinha de uma boa experiência com Festa do Estica e Puxa e era interessante continuar nesse trilho.

Um dia fui me apresentar no programa da Xuxa e pediram que eu fizesse uma música para o novo disco dela. Retornei para Salvador e imediatamente a compus juntamente com Dito. Fizemos toda a letra, mas ainda não tinha um refrão... Fui fazer um show no interior e, enquanto eu cantava meu maior hit (que era a música “Dança do Bambolê” - 1987) naquele momento no palco, me veio a ideia: “Eu vou dançar a dança do Bambolê, le-le-le-ô”, que adaptei para o refrão que todos conhecem. A palavra “ilariê” eu inventei para usar no refrão e foi uma adaptação da palavra “hilário”, pois sempre achei a Xuxa uma pessoa hilária, engraçada, espontânea, alto astral...

Se a palavra existisse nos dicionários, provavelmente seu verbete seria esse


A origem da canção Cid já contou algumas vezes, mas ele nos trouxe uma informação bastante curiosa: a forma como Xuxa ouviu a composição pela primeira vez:

Em meados de março, cerca de um mês depois do carnaval, estava acontecendo a tradicional Micareta de Feira de Santana (BA), na qual eu iria me apresentar e haveria uma transmissão ao vivo pela TV. Eu liguei para a diretora e pedi que ela e Xuxa sintonizassem na transmissão pois eu iria mostrar a música para elas e para toda a multidão da micareta em 1ª mão. Antes de cantar, anunciei: “Agora vou mostrar pra vocês a nova música da Xuxa que vai ser um sucesso”. Nem preciso dizer o quanto amaram a música.

Ilariê foi imediatamente “promovida” à música de trabalho. No Xou da Xuxa Especial de 2 anos e no Globo de Ouro podemos ouvir uma versão diferente da música, tanto nos vocais como nos arranjos. Segundo Cid, esses arranjos foram feitos com base na versão demo enviada para Xuxa.

Provavelmente, aquela 1ª versão da música com arranjos diferentes surgiu a partir da minha demo, que na versão final foram executados (os arranjos) pelo Roupa Nova. É importante frisar que o Roupa Nova, com toda maestria foram fies, aos arranjos criados por mim. Ilariê foi um marco de gerações!



É inegável a força da canção. Além das dezenas de regravações em outros idiomas e até dialetos – Cid conta que existem cerca de 90 gravações – a música se tornou uma das preferidas para paródias de campanhas publicitárias e até políticas.

Música que não envelhece: em 1988, candidatos a prefeito usaram a música - sem autorização de Xuxa - para animar suas campanhas; em 2016 a Renault criou uma paródia da canção para o comercial da promoção "Girou, Ligou, Ganhou"


▶ Se embolando sem parar: Afinal o nome original era Ilaiê ou sempre foi Ilariê? Esse questionamento começou a acontecer quando uma gravação dos vocais de Xuxa acapella começou a circular pela internet. Ao ouví-la, nota-se que a loira diz “Ilaiê”. Tempos depois, no início de 2018, o produtor Max Pierre disse que era isso mesmo e que o nome foi mudado. Porém Cid diz que sempre foi Ilariê, justamente por se originar de “hilário” e que a explicação seria por Xuxa ter se confundido na hora da gravação. Bom, isso encerra a questão, mas quisemos perguntar isso para o produtor Paulo Massadas.

E então, Paulo? Como fica isso?

“Pelo que me lembro, Cid entregou a fita com a música já nomeada “Ilariê”, com r mesmo. Até porque a música tinha sido apresentada e todo mundo já conhecia assim”

Pronto, sr. Google, já pode incluir a correção. 
Dúvida resolvida!


▶ Dá um pulo, vai pra frente: Põe pra frente nisso! Ilariê simplesmente dominou as paradas musicais do Brasil em 1988 e Xuxa, que sempre afirmou não ser cantora, com sua voz “pequenininha”, dividiu as listagens de mais pedidas das rádios com figuras famosas da música brasileira.
Depois que Xuxa cantou Ilariê no programa ao vivo numa quinta-feira(30/06/1988), centenas de pessoas começaram a ligar para os escritórios da Som Livre querendo se certificar da data de lançamento do disco, o que virou até notícia de jornal (O Globo - 07/07/1988)

▶ Pode vir, nunca é demais: Ilariê também pode ser encontrada nos discos: Xuxa (Som Livre, 1993 – versão em CD), Xuxa 10 Anos (Som Livre, 1996), Xuxa Hits (Globo Disk, 1997); Pérolas (Som Livre, 2000); XSPB 6 – Festa (Som Livre, 2005 – regravação) e Xuxa 20 anos (Som Livre, 2006)

Versão em espanhol: Xuxa (Globo Records, 1989), Xuxa Todos Sus Exitos (BMG Ariola, 1993) e Xuxa Dance (Mercury, 1996 - regravação com novos arranjos)

Oficiais não lançadas comercialmente: Versão em Inglês (1993); Versão Axé (1996), Pot Pourri Baiano (2002); Megamix Xuxa (2004)

Clipes: o Fantástico exibiu em setembro/88 a performance da música extraída do show de Fortaleza, realizado no Estádio Presidente Vargas (não é bem um clipe, mas vamos considerar) e DVD XSPB 6 - Festa (2005)



2. Bombom
(Michael Sullivan / Paulo Massadas)

Sullivan e Massadas trouxeram para Xuxa um rock iê-iê-iê tipo Jovem Guarda, movimento que ficou famoso nas décadas de 60 e 70, tendo como seu maior expoente Roberto Carlos. E é justamente ele que recebe uma “homenagem” ao final da canção: a loira se despede adaptando a fala do rei na canção O Calhambeque (1964) para o contexto de Bombom.
Paulo Massadas nos contou de onde veio isso:

A ideia de fazer a referência à música do Roberto foi da Xuxa. Não foi algo premeditado, do tipo: “vamos fazer uma homenagem ao Roberto Carlos”. Durante a gravação, ela começou a imitá-lo e nós gostamos. A Xuxa era muito brincalhona, carismática. Ela tinha várias ideias e vários insights durante as gravações em estúdio. Esse lado criança dela aflorava com extrema naturalidade e nós aproveitávamos isso ao máximo. Muitas coisas aconteciam no improviso, aquele estúdio era um imenso laboratório.  “Bombom” é um exemplo disso.

Personagens (Dengue, Praga, Moderninho) da turma da Xuxa são citados na letra, última vez que isso acontecerá num disco da loira. Tais citações fizeram com que a música ficasse restrita ao universo do Xou da Xuxa, tanto que para a versão em espanhol lançada no ano seguinte, seus nomes tiveram que ser substituídos por nomes comuns espanhóis.

Você já se perguntou quem seriam Carlitos e Matias?

Apesar de ser bastante apresentada entre 1988 e 1989, a canção só ganhou um clipe em 2002 no programa “Xuxa no Mundo da Imaginação”. No vídeo a música foi editada para suprimir os versos dedicados aos personagens que já não tinham relação com o público do programa.




▶ Diz pra mim que eu quero ver: a parte onde Xuxa adapta a fala de Roberto Carlos é bem diferente no encarte do disco, a versão falada é mais fiel ao discurso de Roberto.

Como essa parte não estava na letra original, provavelmente anotaram "de ouvido" na hora da gravação e acabou saindo meio diferente do que é cantado



3. O Praga é uma Praga 
(Reinaldo Waisman / Michel Bijou)


A tartaruga – no programa interpretada por Armando Morais – podia até ser uma praga, mas foi exatamente isso que lhe garantiu um diferencial que nenhum outro personagem da turma teve: uma música-tema. (Antes que alguém questione: Xuxo não era personagem, ele existiu de verdade e não fazia parte do programa de TV quando sua música saiu).

A composição de Reinaldo Waisman é praticamente uma outra forma de dizer “você não vale nada, mas eu gosto de você e tudo que eu queria era saber porquê”. Sim, o Praga atormentava a loira no programa, mas era o tipo de chato favorito. Boa parte do que está na letra já era falado por Xuxa durante o programa, o que certamente inspirou os compositores. Confira um trecho de 1987:



Além disso, a música conta como o Praga chegou na vida da loira, bem no estilo de historinha infantil, e nos dá pistas de que o Praga era casado. Pois é, foi a partir daí que surgiu, no fim de 1988, a personagem Dona Praga nos gibis da Xuxa.

Vida real x ficção: Armando e Ivonete se casaram em 1986,
mas no gibi o personagem só se casou em 1988



4. Xuxerife
(Reinaldo Waisman / Fred Nascimento / Alexandre Agra / Guilherme Jr.)

A primeira associação que fazemos ao pensar em Xuxerife é com o Xuxo, o famoso cachorro da Rainha nos anos 80. O fato é que, apesar de Xuxerife ser um cão de guarda, ele não é o Xuxo. O personagem existe desde o Clube da Criança (Rede Manchete). Bom, existe e não existe. Ninguém nunca o viu, mas ele era mencionado. Havia um quadro “Reclamações ao Xuxerife” onde as crianças que estavam no programa poderiam fazer qualquer tipo de reclamação, algo tipo “dando voz aos baixinhos”. Na Globo, o quadro foi mantido no "Xou" durante os primeiros anos.

Na música, Xuxerife é uma figura do velho oeste que protagoniza um daqueles típicos duelos dos filmes do gênero. O estilo debochado – e já conhecido – de Waisman mais uma vez causou polêmica por conta de algumas palavrinhas, mas isso não foi obra só dele. Alexandre Agra nos conta como foi um pouco do processo de criação da faixa:


Eu era produtor da Som Livre e produzia vários outros artistas. Nessa época, a Xuxa já havia se tornado um fenômeno de vendas. O Guto já havia conseguido isso no primeiro álbum e eu trabalhava diretamente com ele. O terceiro disco já era um disco que qualquer compositor da época gostaria de participar, pois além de gerar uma receita bacana, dava um grande status. Na época tinha muita gente querendo participar e escrevendo músicas pra ela. O Reinaldo Waisman, por ser cenógrafo dela, tinha uma convivência bem próxima. Ele veio conversar comigo e disse que queria fazer uma música divertida em cima de um personagem, o Xuxerife. Fizemos a música juntamente com o Fred Nascimento.
Nos reunimos e, em uma única tarde, fizemos toda a música. A gente se divertiu muito fazendo, foi um clima muito alto astral. Que eu me lembre, a letra não sofreu nenhuma alteração na versão final, a não ser as palavras "bunda" e "bicha". Quando gravamos a demo sugerindo o arranjo, essas palavras constavam na letra, a ideia era apenas fazer uma brincadeira pra canção ficar mais divertida. Essas palavras constam no encarte, mas não é possível ouvir na música.


E adivinhem quem fazia a voz do Xuxerife? O Tio Formiguinha! Ou melhor... o Paulo Massadas! Sim, mais um daqueles momentos de improviso no estúdio.



5. Beijinhos Estalados
(Lincoln Olivetti / Claudia Olivetti)


Beijinhos Estalados é uma parceria de Lincoln Olivetti com sua esposa, Claudia Olivetti, que também participou do coro. Os arranjos também são de Lincoln, que inaugurou com essa faixa uma parceria que se estendeu até 2012, quando Xuxa gravou sua versão para Garota de Ipanema.

É a primeira música de Xuxa que fala diretamente sobre correr atrás de seus sonhos, a clássica tríade “querer, poder e conseguir”: “tudo que você sonhou um dia você vai conseguir

Para a revista Veja, Beijinhos Estalados pode ser considerada a segunda homenagem a Roberto Carlos existente no Xou da Xuxa 3:





6. Coração Criança
(Michael Sullivan / Paulo Massadas)


Uma das composições mais inspiradas da dupla Sullivan e Massadas, Coração Criança tem uma história curiosa: não era pra ser de Xuxa.

Paulo Massadas: Essa música foi feita originalmente para o Trem da Alegria. Uma canção infantil do ponto de vista de um adulto. A frase: “coisas que o coração hoje quer relembrar” representa minha visão do que é a percepção da infância. O deslumbre, a pureza, a magia...  Era – no fundo – o meu desejo inconsciente de retratar as emoções do meu menino. Sendo assim, essa canção estava um pouco fora de foco para o Trem da Alegria. No entanto, não foi por essa razão que ela foi enviada para a Xuxa. Naquele momento – como produtores também da Xuxa – Sullivan & Massadas – chegaram à conclusão que “Coração Criança” ficaria mais adequada para uma criança grande. Ou seja, a Rainha dos Baixinhos.



O Trem da Alegria foi o primeiro a gravar "Coração Criança",
mas foi Xuxa quem a gravou nos corações de todos os baixinhos

▶ Um mundo real na imaginação: Coração Criança ganhou clipe no programa Xuxa no Mundo da Imaginação, em 2003 e foi regravada para o Especial de Dia das Crianças do programa no ano seguinte. Em 2005, foi apresentada, em sua versão original, num dos musicais do TV Xuxa.




7. Brincar de Índio
(Michael Sullivan / Paulo Massadas)


Mais uma composição de Sullivan e Massadas, “Brincar de Índio” pode ser considerada a primeira música de “inclusão social” da carreira de Xuxa. Ensinar o respeito ao povo indígena, acabando com a visão de que o índio é o vilão, muito comum em filmes western (“mas sem mocinho pra me pegar”).

Paulo Massadas: Na minha infância havia uma cultura da gente sempre torcer para os mocinhos matarem os índios nos filmes de faroeste e isso ficou na minha cabeça. Fiz o pedaço de uma melodia e mostrei pro Sullivan, sem ter a ideia ainda pronta. A partir daí, passamos a fazer a letra em cima da melodia. Quando comecei a compor, já veio na minha cabeça: "mas sem mocinho pra me pegar", uma forma de propagar essa ideia para as crianças e corrigir o erro da geração das décadas de 50 e 60.


Sempre é tempo de mudar: "Vamos ensinar as pessoas a ter respeito ao índio"

E a música veio na hora certa; coincidentemente foi em 1988 que os índios tiveram sua cultura reconhecida pela Constituição Federal.

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Outra “sacada” da dupla foi incluir na letra uma referência a uma das mais famosas marchinhas de Carnaval: “Indio Quer Apito”, de 1961, composição de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira. O verso que antes era voltado ao humor agora ganhava ares de seriedade: “índio quer apito, mas também sabe gritar”. Na versão em espanhol não há tal referência pois não faria sentido já que a expressão não é conhecida fora do país.

Na versão em espanhol não há a referência, mas a mensagem permaneceu

E pensar que tudo isso poderia não ter acontecido... Paulo conta que quase a música não saiu:

Quando mostramos a música pra Xuxa, ela não gostou muito e ficou meio na dúvida se gravava. Nós acreditávamos muito no sucesso dessa composição e dissemos que se perderia um grande “hit”, até que ela aceitou gravar a música, mesmo sem acreditar muito. Quando as Paquitas entraram em estúdio para fazer o coro, elas começaram a dançar bem animadas. As meninas ficaram encantadas, envolvidas, era o que precisávamos para mostrar o quanto a música poderia ser envolvente. Foi quando Xuxa ficou mais segura com a escolha.

"Brincar de Índio" ou somente "Índio" (como Xuxa apresentou a música no programa de Leda Nagle antes do lançamento) saiu no mesmo ano que a Constituição Brasileira reconheceu os costumes indígenas como cultura
▶ Vem pintar a pele para a dança começar: a música também aparece nos discos Paradão dos Baixinhos (Xuxa Discos, 1989), Xuxa Hits (Globo Disk, 1997) e Pérolas (Som Livre, 2000). Ganhou uma versão em espanhol - Juguemos a los Indios - lançada em Xuxa (Globo Records, 1989), um remix no álbum Xuxa 10 anos (Som Livre, 1996) e foi regravada para o XSPB 6 – Festa (Som Livre, 2005)

Clipes:  "Xuxa no Mundo da Imaginação" em 2002 e DVD XSPB 6 - Festa (2005)




8. Dança da Xuxa 
(Prêntice / Ronaldo M. de Souza)


A composição de Prêntice e Ronaldo Monteiro de Souza foi a 1ª música a ser trabalhada do disco e ao lado de Ilariê, carrega a identidade do álbum. Merecidamente! Já no primeiro programa da temporada (abril de 1988), podemos ouvir “Dança da Xuxa”, a canção passou a ser tema do 1º bloco até a chegada de Ilariê. Mas a história é bem mais interessante e ninguém melhor do que o próprio Ronaldo para explicar como nasce um hit:

Eu e o Prêntice já havíamos feito a letra da música “Circo” para o álbum anterior, que deu muito certo, e por isso aconteceu da gente participar novamente. Queríamos um marketing do nome dela, deixá-lo em evidência. Até chegar no refrão foi difícil, estávamos em um bar para refrescar a cabeça, quando de repente ele veio inteiro. Quando terminamos, dissemos: “acabamos de fazer um grande hit pra Xuxa”.

Chegamos com a música pronta e mostramos pra Xuxa. Paixão a primeira audição, ela gravou a música imediatamente. Foi tudo muito rápido, um prazo de 4 horas mais ou menos! Entraram no estúdio e no mesmo dia estava pronta, já iam tocar na gravação do programa do dia seguinte. Eu que sempre acompanhava as gravações das minhas composições, nessa nem tive como.

Acredito que tenha sido um impacto muito grande para ela e a equipe, ver que era possível brincar com seu nome, coisa que ninguém tinha feito ainda, mesmo com Xuxa sendo uma pessoa midiática ao extremo. E o nome dela por si só, já trazia uma musicalidade na repetição das sílabas, foi muito bacana.

O clipe de "Dança da Xuxa" só aconteceu em 1990

E foi dessa repetição que surgiu o nome da faixa...

“Xuxuxu Xaxaxa” era o nome original, mas eles decidiram colocar Dança da Xuxa, o que achei uma pena. Outra coisa que não era da nossa letra original é a parte em que Xuxa pergunta “vocês querem dançar um twist?...” Isso foi ideia dela e colocada na hora da gravação.



Tão fácil quanto cantar o refrão é fazer a coreografia
Casamento perfeito!

▶ 
Essa dança de criança não me canso de dançar:
Dança da Xuxa” ganhou um remix no disco Xuxa 10 anos (Som livre, 1996) e uma versão funk no XSPB 6 – Festa (Som Livre, 2005). A versão original também pode ser encontrada na coletânea Xuxa Hits (Globo Disk, 1997).

Em 1989, a música ganhou uma versão em espanhol lançada no disco Xuxa (Globo Records). Curiosamente, os arranjos dessa versão são mais próximos ao da versão que tocava nos primeiros programas da temporada de 88. A faixa também aparece na coletânea Xuxa Todos Sus Exitos (BMG Ariola, 1993). Em 1993, Xuxa a gravou em inglês para seu programa nos EUA e a gravação vinha numa fita K7, brinde da boneca americana.

Clipes:  Especial de Natal (1990), Especial "Xuxa 10 anos" (1996), "Xuxa no Mundo da Imaginação" em 2004 e DVD XSPB 6 - Festa (2005)





9. Eu Não
(Dani / Luiz Otávio)


Lembram que no começo desse texto falamos que o disco tinha algo como a hora do recreio, pois é quando você pode se divertir, mas não se esquecer que você está ali para aprender? “Eu Não” é a tradução disso em forma de música. A faixa, no estilo de rock infantil, lista uma série de coisas que o(a) baixinho(a) que é “legal” não deve fazer. A jogada dos compositores é que eles não usam do óbvio. Quando não se quer que alguém faça algo, geralmente dizemos “não faça bagunça, não pegue no sapo, não deixe o skate na beira da escada”.

Xuxa, diz pra gente, você ainda sabe cantar "Eu Não"?

O artifício foi sumir com a questão da “proibição” - que transformaria a música num hino ao “não pode/não deve” gerando o desinteresse da criança, ou pior, a vontade de fazer exatamente o contrário, para desafiar – e colocar as ações desaconselháveis como algo que quem já escolado, legal, popular, não faria de jeito nenhum. Algo como “quem aí quer ser o bobão que tem medo do escuro ou que não sabe se lavar”? Buscando a aceitação da turma a criança acabaria não fazendo tais coisas. Psicologia reversa... Tia Xuxa ensina.

...e da coreografia, você se lembra?




10. Abecedário da Xuxa
(César Costa Filho / Ronaldo Monteiro de Souza)

Sabem quando a música nasceu para ser um clássico do seu gênero? Se não sabem, lembrem-se de Abecedário da Xuxa. Uma ideia simples que se transformou numa música que ultrapassa gerações e até quem não é fã da Xuxa sabe cantar.  César Costa Filho e Ronaldo Monteiro de Souza, os compositores, nos contam como tudo aconteceu: 

Ronaldo: Abecedário surgiu de uma viagem minha do Rio de Janeiro para Mirassol (interior de São Paulo). Eu tive que fazer a viagem de ônibus (aproximadamente 12 horas de viagem) e eu pretendia dormir. Mas assim que o ônibus saiu da rodoviária, me veio na cabeça “a de amor, b de baixinho, c de coração”. A minha maior agonia é que na hora eu não tinha nem lápis, nem papel, tive que guardar tudo na memória.

A parte mais interessante a grande maioria desconhece, conosco também foi assim. Trinta anos e nunca havíamos percebido a ideia embutida na letra até que Ronaldo explicou e, acredite, depois de ler, você não vai mais conseguir ouvir sem pensar na grande sacada dos compositores:

O legal dessa composição é que as letras do alfabeto estão divididas em 4 blocos.
Bloco 1: a infância (A de amor, B de baixinho, C de coração, D de docinho, E de escola, F de feijão).
Bloco 2: ser humano (G de gente, H de humano, I de igualdade, J juventude, L liberdade, M molecagem).
Bloco 3: amor à natureza (N natureza, O obrigado, P proteção, Q de quero-quero, R de riacho, S saudade).
Bloco 4: Palavras relacionadas aos Super-heróis (T de terra, U de universo, V de vitória). Obviamente X só poderia ser Xuxa, mas ela também é super heroína das crianças e o Z, bom, o z foi zum zum zum, tipo uma onomatopeia.


Apostamos que há 30 anos você canta Abecedário sem se dar conta dessa divisão...


César: A música surgiu de um convite do amigo e compositor Paulo Massadas. Morávamos no mesmo condomínio e certo dia ele me perguntou se eu tinha alguma música infantil, porque eles (Massadas e Sullivan) iriam produzir o novo disco da Xuxa. Respondi “não, mas posso fazer uma para vocês verem”. Comentei com Ronaldo, meu parceiro, e ele topou a ideia.

Nosso pensamento era fazer algo que pudesse passar uma mensagem dentro de uma música infantil. Quebramos muito a cara até concluirmos com as palavras que julgávamos certas, procurando a melhor sonoridade com a melodia. Gravávamos e ouvíamos cada sequência, até que chegamos à versão final. Quando apresentamos, a canção não tinha refrão, era só a parte das letras, mas Sullivan e Paulinho sugeriram que houvesse um. Criamos então um refrão, para tornar a música mais comercial e marcante para o público. Sendo a Xuxa já rainha dos baixinhos à época, e grande vendedora de discos, inclusive no exterior, foi um desafio muito grande, pois nosso caminho musical era MPB.

Paulo Massadas: Quando os dois me mostraram a música, achei a ideia genial. Me lembro que quando Xuxa quando ouviu, foi paixão à primeira vista, ela quis gravar na hora. Abecedário foi escolha unânime entre os envolvidos na produção do álbum.


Abecedário se tornou a principal música destinada aos baixinhos que não falam ou não ouvem, pois Xuxa sempre a apresentou com a preocupação de ensinar as letras na linguagem dos sinais. 

Tem muita gente que só sabe fazer o alfabeto na linguagem dos sinais por causa da Xuxa

Inicialmente, somente as letras eram convertidas para libras até que Tany Mary – aquela moça que ficava com Xuxa nos sorteios fazendo a tradução para libras – ensinou para Xuxa TODA a tradução da música e essa se tornou a forma mais correta – e completa – de apresentar a canção na linguagem dos sinais.

▶ Vamos cantar, vamos brincar, alegria pra valer: a música ganhou clipe no programa “Xuxa no Mundo da Imaginação”, em 2002. Foi regravada em 2005 para o XSPB 6 – Festa e chegou a ter uma versão em inglês feita em 1993 que nunca foi lançada.





11.Arco-Íris
(Anna Penido / Michael Sullivan / Paulo Massadas)


Primeira música gravada entre as que estão no disco, mas não necessariamente feita para ele. Arco-Íris fazia parte da trilha sonora de Super Xuxa Contra o Baixo Astral e foi cedida pela Dreamvision para integrar o repertório do Xou 3. A composição é basicamente de Anna Penido, diretora do filme, mas Paulo Massadas recorda como o “nascimento” da faixa aconteceu:

Quando a Anna Penido foi apresentada à Xuxa para fazer o filme, ela resolveu escrever várias poesias para nos apresentar afim de inspirar uma música para a trilha. Ela escolheu uma e levamos conosco para Los Angeles. Era final de 1987 e eu e o Sullivan estávamos gravando um disco nosso por lá. Certa tarde, no quarto de hotel, estava uma chuva torrencial. Nós sentamos em uma mesinha do quarto, ele com um violão fazendo a melodia, eu adaptando um pouco a letra. Ali foi feito Arco-Íris. Nós respeitamos ao máximo a letra proposta pela Anna, tentando modificar o mínimo possível para que a obra original não fosse adulterada, fazendo apenas a adequação à métrica.

"Todos somos um e juntos não existe mal nenhum"
Ok, o verso é da música do outro filme, mas traduz bem o nascimento de Arco-Íris

▶Pra deixar o mundo cheio de alegria: Arco-Íris, obviamente, aparece no disco Trilha Sonora Original Super Xuxa Contra Baixo Astral (Som Livre, 1989) e também no álbum comemorativo Xuxa 10 Anos (Som Livre, 1996) e nas coletâneas Xuxa Hits (Globo Disk, 1997) e Pérolas (Som Livre, 2000). A versão em espanhol entrou nos discos Xuxa (Globo Records, 1989) e Xuxa Todos Sus Exitos (BMG Ariola, 1993). Foi regravada para o kit XSPB 6 – Festa (Som Livre, 2005) e para o disco EletroSamba Ao Vivo (Sony Music, 2012), de Alexandre Pires, onde a Rainha faz dueto com o cantor. Em 1993, Xuxa gravou a versão em inglês, Rainbow, não lançada comercialmente.

Clipes: Especial de Natal (1990), Xuxa no Mundo da Imaginação (2003) e DVD XSPB 6 - Festa (2005)




12. Apolo
(Michael Sullivan / Paulo Massadas)


Última faixa da dupla Sullivan e Massadas no disco, podemos dividir a letra em duas partes.
Na primeira, Apolo é o cavalo mágico com o poder de levar Xuxa para um mundo utópico (tudo é leve, tudo é lindo / feito um sonho de verdade). Já na segunda parte, Apolo é quem dá forças para Xuxa buscar de verdade o que ainda é utopia. Algo como “se quer o melhor, faça você mesmo” (Quando monto em meu cavalo, me transformo num segundo / tenho a força da criança pra tentar mudar o mundo”)

Na vida real, Apolo existiu e era mesmo o cavalo de Xuxa. E o animal não inspirou só a música; ainda em 88, Apolo virou personagem das histórias em quadrinhos da loira. No gibi, ele também voava e levava Xuxa para outros lugares fora da Terra.

Xuxa e o cavalo Apolo: vida real para a música e da música para o gibi


Paulo Massadas: Nossa única preocupação, independente do tema, era não abordar algo bobo na letra, apenas para fazer uma rima ou dar ritmo. Queríamos fazer uma coisa que tivesse impacto, que seduzisse o público e trouxesse sonhos e fantasias para quem ouvisse. O Apolo foi a bola da vez. O Sullivan certo dia chegou pra mim e disse: “a Xuxa tem um cavalo de estimação que ela gosta muito, se chama Apolo. Vamos fazer uma música sobre ele?” Ele foi nosso gancho, o ícone para passar essa mensagem, o verdadeiro herói que a levava para esse mundo de fantasia, ao mesmo tempo que passava uma mensagem para o público.





13. Viver
(Neuma Morais / Neon Morais)


Podemos considerar Viver como a primeira música totalmente voltada para a importância da natureza gravada por Xuxa. A Rainha sempre defendeu essa ideia, mas cantá-la ainda não tinha acontecido. A partir de Viver, o tema se tornou obrigatório – e esperado – nos discos de Xuxa.

Quem inaugurou esse estilo foram Neon e Neuma Morais, pai e filha que compuseram a canção. Ela nos contou o quanto Viver é marcante em sua carreira de compositora e dá detalhes do nascimento da canção:

Eu já tinha algumas composições gravadas por artistas como Tim Maia, Chrysthian & Ralf, Maria Creuza, mas ainda buscava algo que me firmasse, um grande sucesso... Conversando com o produtor musical José Roberto “China”, ele me falou da seleção de repertório para o novo disco da Xuxa. Nem imaginei tal coisa, pois era o disco mais esperado do ano, acabei recusando, mas ele insistiu e voltei atrás.  Procurei saber que tipo de música queriam e me disseram que já tinha muita música infantil, precisavam de algo mais sério, abordando a natureza, o índio...
Tentamos (eu e meu pai) fazer algo pro índio, não saiu. Partimos pra natureza e parece que foi obra divina: em cinco minutos a música estava pronta. Gravei a demo e entreguei, no mesmo dia já mandaram fazer o arranjo.
Não tive contato com Xuxa na gravação, mas soube pelo José Roberto que ela ficou um tanto insegura com as nuances e variações melódicas até que colocou a voz definitiva e ficou feliz com o resultado.
Saber que a música tinha entrado definitivamente para o repertório foi uma surpresa imensa, felicidade e realização ao mesmo tempo, uma sensação indescritível!
A música ganhou versões em espanhol e inglês feitas pela Graciela Carballo, mas só a primeira saiu no disco espanhol de 1992.

Foi a única música do álbum a ganhar clipe ainda em 1988, exibido no Xou da Xuxa de Dia das Crianças, em 10/10/1988. Nota: Quando dizemos clipe, estamos considerando toda a estrutura que envolve uma filmagem desse tipo: criação de roteiro, cenário, figurinos específicos.

O clipe de Viver foi gravado no sítio que Xuxa comprou em 1988, em Coroa Grande/RJ
Foi a última música do Xou da Xuxa 3 a ganhar uma versão em espanhol. Enquanto as outras (Ilariê, Dança da Xuxa, Brincar de Índio e Arco-Íris) ganharam suas versões em 1989, Vivir só foi lançada em 1992 no álbum Xuxa 3 (BMG Ariola).





Numa bola de cristal...
Lançamento e Divulgação
Com a crise do mercado fonográfico, a Som Livre precisaria de uma bola de cristal para acertar o momento de lançar o disco, mas ela tinha uma estratégia muito bem pensada para garantir que Xuxa não sofresse esse impacto. De show a anúncios impressos, tudo contribuiu para os bons resultados logo de cara.



O Xou da Xuxa 3 chegou às lojas de todo Brasil no dia 11 de julho de 1988, mas quem morava no Rio teve a oportunidade de participar de uma festa bem especial onde o disco foi apresentado: o I Festival da Criança. Imaginem um Rock in Rio só para os baixinhos, foi bem assim. O Festival durou 5 dias, de 06 a 10 de  julho de 1988, no Riocentro da Barra da Tijuca. Xuxa foi convidada para abrir o evento, que tinha outros queridos das crianças na programação (Trapalhões, Juba & Lula, Trem da Alegria, Atchim & Espirro, Abelhudos).

Acho hiper legal que uma coisa tão grandiosa esteja sendo feita para a criança. Espero que dê certo e que festivais assim sejam realizados sempre e pelo Brasil inteiro.
(Jornal O GLOBO, 09/06/1988)

O disco Xou da Xuxa 3 foi lançado no show que aconteceu no Riocentro


Nem precisamos dizer que o show foi um sucesso e que Xuxa se tornou a principal atração, não só da noite, mas de todo o festival. O Xou 3 não poderia ter uma oportunidade melhor de divulgação e a loira não escondeu sua ansiedade:

Olha, eu sou suspeita para falar, mas esse disco está incrível! Uma maravilha!
(Jornal O Globo – 09/06/1988)

Outros artistas também participaram do Festival, mas não teve jeito:
todas as atenções estavam voltadas para a Rainha dos Baixinhos


Claro que a divulgação não se resumiu ao show e a Som Livre não deu prazo para que as 800 mil cópias iniciais do disco tivessem tempo de descansar nas prateleiras das lojas. Tudo começou cedo, na TV, com o Xou da Xuxa do dia 11/07 voltado para o álbum.

No programa de lançamento, Xuxa cantou "Brincar de Índio" e "Bombom" na íntegra


No mesmo dia pequenos comerciais começaram a ser veiculados 4x ao dia anunciando o lançamento. Até o fim do mês, mais 200 mil cópias foram distribuídas, totalizando 1 milhão – o dobro da tiragem do disco de Roberto Carlos lançado duas semanas antes. A meta da Som Livre era conseguir chegar no número de cópias do Xegundo. E Xuxa era justamente a esperança de melhores resultados não só para sua gravadora, mas para os lojistas em geral: só as Lojas Americanas encomendaram 200 mil cópias, enquanto as Casas Sendas pediram 280 mil. Ou seja, praticamente metade da primeira tiragem. (Informações do jornal O Globo de 07/07/1988 e Jornal do Brasil de 30/07/1988).
Ainda estavam agendadas participações da loira no Fantástico e no Globo de Ouro, além de anúncios impressos veiculados nos jornais do grupo Globo.

Além dos comerciais de TV, show e programa de lançamento, havia também o anúncio impresso veiculado no início de julho


Formatos
O álbum saiu em LP e K7, inicialmente. 

Xou 3 em LP e K7: um milhão de cópias vendidas ANTECIPADAMENTE


A maior novidade era o pôster de Xuxa que vinha no verso do encarte das letras. Obviamente um mimo exclusivo da versão em LP.

Pela primeira vez um LP de Xuxa vinha com um pôster da loira para os baixinhos


O correto seria falarmos agora das vendagens, pois elas foram as responsáveis pela decisão da Som Livre apostar em Xuxa como uma das pioneiras no lançamento em CD, mas vamos deixar os números para depois e já falar dessa “novidade”.

A versão em CD só chegou ao mercado em dezembro de 1988.
Foi o primeiro álbum infantil lançado no formato no Brasil e o 20º título da Som Livre

Xou da Xuxa 3 foi o primeiro disco da Rainha a ser lançado em CD e também o primeiro disco infantil do Brasil no formato. Isso aconteceu somente no final de 1988.  O “novo” formato trazia como atrativo o som mais limpo e a possibilidade de ouvir um pouquinho mais do que não coube no LP, caso de Viver, Coração Criança e Beijinhos Estalados, que têm alguns segundos “roubados” no vinil.

Pode parecer besteira, mas ter um título de sua discografia lançado assim naquela época não era para qualquer um, o CD ainda era visto como um artigo de luxo e Xuxa, que muitos nem consideravam cantora, passou a frente de muita gente cultuada pela crítica. Rainha até nisso...
Passada a novidade do CD, o disco ainda ganhou mais 5 reedições no formato ao longo dos anos, se tornando o disco de Xuxa mais relançado até hoje.

Nota: A reedição de 1992 apresenta dois layouts diferentes (azul ou preto), assim como a de 1997 (totalmente preto ou totalmente prata)


Xou 3 em Israel
Em 1991, Ilariê começou a fazer sucesso em Israel. A versão em português mesmo! Algo até hoje inexplicável, pois Xuxa não teve programa lá e sua carreira internacional estava apenas no começo. O fato é que aconteceu e um vinil single foi lançado por lá só com a faixa. Se quiser saber mais sobre ele, clique no link: Ilariê - Single Promocional de Israel

Ilariê foi lançada em Israel num vinil single promocional de 12" no ano de 1991

A música caiu no gosto dos israelitas e no ano seguinte todo o álbum foi lançado em CD pela gravadora Hed Arzi em associação com a Yair Dori Communications, Xou da Xuxa 3 acabou se tornando o único disco de Xuxa lançado no Oriente Médio.

Xou 3 fabricado e distribuído em Israel pela  gravadora Hed Arzi

A parte curiosa foi o fato de aproveitarem o layout da reedição de 1992 do Brasil e é possível ver o selo da zona franca de Manaus "perdido" na contracapa externa; entretanto na mídia fica bem claro o "made in Israel"


Vendagens
O Xou 3 já nasceu com o sobrenome de “campeão”. Falamos da tiragem inicial de 1 milhão de cópias, algo muito expressivo, mas não inédito no caso de Xuxa, afinal com o Xegundo Xou também foi assim. A questão era: vai vender tanto quanto? A resposta veio rápido: não, vai vender mais.

O preço de lançamento do LP era Cz$1.550,00 (equivalente a quase R$70,00 hoje). Isso era considerado caro para a época. Na realidade, comprar LPs era algo caro

O disco de vinil tinha status de artigo dado em natais e aniversários ou, no nosso caso, de Dia da Criança. Nota: a imagem acima era exibida no início de alguns blocos do Xou da Xuxa


O que ninguém esperava era a aceitação de Ilariê numa escala ainda não vista na carreira de Xuxa. Sim, a canção estourou nas rádios. A Rainha fez várias participações no Globo de Ouro, programa destinado ao público jovem/adulto e ocupou merecidamente o posto de nº1 da semana.
Claro que isso refletiria nas vendas e a loira agora figurava em duas listas: Músicas Mais tocadas e Discos Mais Vendidos. Na realidade, TRÊS listas, pois ainda existia a de Filmes Mais Vistos, mas essa história já contamos aqui



O disco entrou direto no #1 da lista dos mais vendidos, na semana de seu lançamento. Com dois meses bateu os 2 milhões de cópias e no Dia das Crianças estava a 50 mil cópias de cumprir a meta da gravadora. Em dezembro, já caminhando para os 3 milhões, o disco completou DEZENOVE SEMANAS CONSECUTIVAS na lista dos Dez Discos Mais Vendidos do país. Recorde na carreira de Xuxa.


Anúncio publicado no Jornal O Globo em 10/10/1988


Curiosidade: Todo mundo sabe que as gravadoras homenageiam seus artistas com discos de ouro, platina, diamante e também já deduziram que o Xou 3 ganhou todos esses... O que muita gente não sabe é que uma loja deu um disco de ouro à Xuxa. Quantos artistas já tiveram isso? A Casa Sendas fez questão de homenagear a loira pelas 500 mil cópias vendidas só na sua rede de lojas. Ela vendeu numa rede de lojas, o que muito artista não vendeu no Brasil inteiro.



Ver o sol de ouro...
☀O Livro dos Recordes
Todo mundo já ouviu falar que Xuxa está no Livro dos Recordes e o responsável por tal façanha é o Xou da Xuxa 3, mas todo mundo sabe exatamente como isso aconteceu? Afinal de quando é esse recorde? Ele aconteceu no ano do lançamento?

Para essas respostas é preciso entender um pouco do Guinness Book®. A publicação existe desde 1955, mas só em 1993 ganhou uma versão brasileira. A responsável foi a Editora Três que comprou os direitos de editar o livro no nosso idioma pela primeira vez. Cada vez que o livro é publicado num país é comum que recordes “locais” sejam acrescidos aos já famosos e assim aconteceu por aqui. Mas calma, ainda não “tá na hora” da Xuxa...


Coincidência ou não, no ano que Xuxa apareceu pela primeira vez no Guinness, havia um "X" na lombada


A edição de 1993 não faz menção ao Xou 3 porque os últimos dados oficiais (Som Livre/Nopem) das vendas são de julho daquele ano e o livro já estava “fechado”, não havia como incluir mais. Só em 1994, Xuxa veio efetivamente aparecer no Livro dos Recordes. Está lá: Xou da Xuxa 3 é o produto fonográfico mais vendido do país com 3.152.310 cópias.


Essa informação foi replicada em algumas edições posteriores. Por que não em todas? Porque há o costume de não se repetirem todos os recordes para não gerar o desinteresse do público. Se você comprar o Guinness Book Brasil 2018 não vai achar o Xou 3 lá, por dois motivos: a linha editorial da publicação mudou totalmente e porque em 1998, o Pe. Marcelo Rossi lançou o disco “Músicas Para Louvar o Senhor” (Sony Music) que atingiu a marca de 3.228.468 cópias, ultrapassando o Xou 3.
Com isso, o disco passou de “produto fonográfico” para “álbum infantil” mais vendido do Brasil (há quem diga do mundo).

Algumas edições pós-1994 replicaram a informação sobre o "Xou 3", como a de 1995

Ousamos afirmr que o Xou 3 continua sendo o dono do posto de mais vendido, pois, como dissemos, seus números remontam a 1993 e depois disso o álbum teve mais 4 reedições em CD, além de uma tiragem em fita K7 em 1996. Onde estão esses dados?

O certificado que dá ao disco o posto de "produto fonográfico mais vendido do Brasil"

Por mais que o disco do Pe. Marcelo também tenha recebido alguma reedição (hoje já está fora de catálogo), o Xou 3 conta com um espaço de 5 anos em que reinou absoluto sem qualquer registro de dados sobre as vendagens. E há a questão de que a diferença entre os dois não chegava a 80 mil cópias. Concordam? Se não concordam, a Som Livre, pelo menos, parece compartilhar dessa ideia:



☀Curiosidade: No ano de 1994, Xuxa aparece ainda em dois outros recordes no Guinnes Book® Brasil: artista que mais vendeu discos no país e  primeira brasileira a apresentar um programa nos EUA e a aparecer na lista dos artistas mais ricos do mundo (Forbes, 1991).
Muita gente não sabe, mas Xuxa também figura no Guinness Book®
como maior vendedora de discos no geral


📷 Ensaios

A capa do Xou 3 inaugurou um estilo que durou até o último disco antes da era XSPB: close no rosto de Xuxa. Havia poucas fotos divulgadas ao longo destes 30 anos, mas depois que as redes sociais de Xuxa passaram a publicar o já famoso #tbt da Xuxa, pudemos conferir um pouco mais desse ensaio icônico.




Os elementos mais infantis continuavam restritos a contracapa, como nos anteriores. Entretanto, não eram fotos aleatórias, dessa vez um ensaio foi feito para isso. Este mesmo ensaio ilustrou o postal e o adesivo comemorativo distribuído na gravação do programa dos 3 anos do Xou da Xuxa,  que depois virou brinde da Revista da Xuxa n.8 (agosto/1989) e ainda era distribuído nas lojas Bicho Comeu. Além disso, quadros-poster eram vendidos no final dos anos 80 com mais fotos desse ensaio.




Todas as fotos são de André Wanderley. O fotógrafo já conhecia Xuxa de longa data. Foi ele que fotografou Xuxa para vários editoriais da revista Desfile (Bloch Editores). Se considerarmos a foto do pôster que veio no encarte, temos ainda um terceiro ensaio. O ensaio do pôster ilustrou matérias em revistas (People Magazine, Amiga) e era dele a foto oficial da Turnê Xou da Xuxa 3.



🗺️Turnê

Já que começamos falando do ingresso, vamos ao que interessa: claro que o disco teve sua própria turnê. Os primeiros shows só aconteceram em agosto de 1988, pois Xuxa estava nos EUA no mês de julho, cumprindo seus compromissos como cicerone especialíssima de excursões na Disney.
A turnê estreou em 13 de agosto e se estendeu até 27 de novembro de 1988. A novidade era que a empresa responsável passou a ser a Sunshine Eventos, que investiu cerca de US$200 mil só em divulgação.


O valor valia a pena, pois o faturamento com os shows de Xuxa garantiriam um retorno de US$2 milhões (Folha de São Paulo, 05/08/1988). O principal show aconteceu no dia 10 de outubro, quando foi comemorado o Dia das Crianças.

Não havia um único tipo de figurino, Xuxa alternava entre modelos e cores


‼️Curiosidades

▶ O processo de escolha do repertório seguiu um modelo já testado no disco anterior: as músicas eram tocadas para um grupo de crianças e conforme a reação delas, a música entrava ou não no repertório. Ao detalhar esse processo, o Jornal do Brasil de 18/07/1988 revelou que uma das músicas que era uma das preferidas de Xuxa ficou de fora, pois a reação das crianças não foi satisfatória.


▶ Em 2014, quando Xuxa retornou ao casting da gravadora “Som Livre” – após 5 anos na Sony Music – Xuxa, junto com Lucinha Araújo, inaugurou a Sala da Fama João Araújo (presidente da gravadora por 40 anos, grande amigo de Xuxa e marido de Lucinha). O principal destaque da sala são os vários discos de platina que o Xou 3 recebeu. O disco é até hoje o maior sucesso da gravadora.

Xuxa e Lucinha Araújo inauguram a Sala da Fama João Araújo em maio de 2014



Coisas que o coração hoje quer relembrar...
Os versos de Coração Criança que ilustram os subtítulos deste post parecem ter sido feitos para comemorar esses 30 anos do disco. Certamente quando ouvimos a canção lá pelos nossos 7, 8 ou 9 anos de idade, nós não nos demos conta do quanto aquela era uma música para nosso futuro. Uma música para agora! Fica aqui nossa sugestão: ouça-a e veja se não é verdade...



Paulo Massadas, você nos disse que colaborar com os detalhes e histórias era o "mínimo" que podia fazer, já que “entrou” nas nossas vidas quando ainda éramos crianças, saiba que o mínimo foi o máximo e nosso respeito e gratidão são verdadeiros. Muito obrigado!

Obrigado também aos compositores Alexandre AgraCésar Costa Filho, Cid GuerreiroRonaldo Monteiro de Souza e Neuma Morais e ao diretor artístico Max Pierre pela disponibilidade e gentileza de nos contarem detalhes de suas obras e trabalho.


O Xou da Xuxa 3 é um marco da nossa infância, parte das nossas lembranças. A gente cresce, muda, e o que antes era “sente, sonha, voa, ama” acaba virando “fala, pensa, corre, gosta”.

Obrigado, Xuxa, por manter vivo nosso “coração criança”. Temos a convicção que uma coisa não mudou até hoje em relação a você: a gente não gosta, ama!


Comentários
7 Comentários

7 comentários:

Aisllan disse...

Amo!!!esse disco sempre achei ele entre os 5 melhores da Carrera dela. As músicas são agradáveis de ouvir e Xuxa está Linda na capa,Parabéns pela Matéria!!!vocês são os caras👏

Helly Augusto Gomes disse...

Não tem como não recordar com muita saudade esse tempo tão mágico e feliz... Hoje,nesse mundo cinza alguém jamais conseguirá se quer fazer 10% do que a Xuxa fez na vida de milhares de pessoas. Ela é única. Não foi atoa que foi coroada rainha. Tempo feliz! Crianca era criança e sabia #Viver,brincar de índio,aprender o abecedário pois realmente tinha beijinhos estalados com gostinho de bombom. Tá na hora de brincar,pode vir nunca é demais,pois preto e branco se tornava um arco-íris. Nem sempre o praga é uma praga e tinha um xuxerife montado num lindo cavalo chamado Apolo pra nos defender. E como toda alegria é ilarie agente dançava um xuxuxu xaxaxa.....

Unknown disse...

Amei a matéria!!!!! Parabéns!

Aisllan disse...

Acho esse o melhor disco da Xuxa,é uma viajem no mundo das maravilhas!!💖💋😍que e só dela e nosso,por acompanhar nossa Rainha aonde ela for.e esse lp eu o defino com tem 4 palavrinhas mágicas.
Alegria:Ilariê e Bombom
Amor:Arco-íris, Viver e Coração criança
Educativa:Abecedário da Xuxa, Brincar de índio, Eu Não
Criativas:Dança da Xuxa, Xuxerife,Praga é uma Praga, Beijinhos estalados e Apolo
😉

AMONTE disse...

Esse é um álbum que eu mais gostava quando criança, mas hoje adulto ele nao é um dos meus prediletos dela. Ainda o "Xou Seis" ganha do "3", mas é só uma pequena opinião. O "3" é e sempre será o álbum de maior sucesso. Adorei a materia. Como sempre vcs arrazam.

Diêmerson disse...

Não tem condições da pessoa estar acordada até às 3:40 da manhã lendo a matéria. "Culpa" de um trabalho super bem feito e detalhado. Eu era apenas uma crianccnesta época, mas o encanto permanece até hoje. Tenho o CD e com certeza deve ser sim o mais vendido do Brasil (Ah, como eu queria que a Som Livre atualizasse os nuneros!). Voltaria para o Guiness Book! Muito orgulho de amar alguém tão especial como a Xuxa. Parabéns pela matéria, ficou incrível. Nossa eterna rainha merece!

don't shoot disse...

Cara, que pesquisa, que organização, que material! Admito que não nasci nessa época, mas lendo todo esse conteúdo disponibilizado desse jeito me fez uma xuper fã da turma da Xuxa e até sentir "nostalgia" dos anos 80 (que eu nem sonhava em nascer quando essa década terminou!). Ilariê, Brincar de Índio, Abecedário, Dança da Xuxa e Arco Íris viraram marcos da cultura pop brasileira então eu já era familiarizada com essas músicas, mas com o álbum todo em si só fui ouvir todo mais recentemente, então foi muito legal descobrir tudo pela primeira vez e ainda com esse montão de informação da hora! Eu acho sim que é um dos melhores álbuns dela, apesar de que quase todos os Xou da Xuxa são bem de igual pra igual em alegria.

Parabéns pela matéria impecável!

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...