sexta-feira, 21 de junho de 2019

A Princesa Xuxa e os Trapalhões - 30 anos



Ano de 1989, alguém te pergunta: “quais são suas maiores referências infantis no Brasil?” A primeira resposta seria, sem a menor dúvida, Xuxa e depois alguma de suas discípulas como Angélica ou Mara... Até aí nada de novo, mas e se mudássemos um pouco a pergunta? “Quais são suas maiores referências infantis no cinema brasileiro?

Xuxa certamente continuaria no páreo, pois tinha se aventurado na sétima arte no ano anterior, com "Super Xuxa Contra Baixo Astral", obtendo uma bilheteria respeitável. A diferença é que, ao invés de uma das fadinhas apresentadoras, figurariam ao seu lado "Os Trapalhões". O quarteto também fazia sucesso na televisão e na venda de produtos licenciados, mas era no cinema que o grupo de humoristas era um fenômeno impressionante. Eles lançavam dois filmes por ano, sempre com bilheterias expressivas, vencendo, na maioria das vezes, seus rivais americanos.

Xuxa e os Trapalhões: maiores referências infantis no cinema brasileiro


E a dobradinha Xuxa-Trapalhões no cinema já tinha rendido alguns trabalhos: o primeiro filme foi "O Trapalhão na Arca de Noé" (1983), produzido durante o período no qual Renato Aragão estava separado dos outros três trapalhões. No ano seguinte, Xuxa esteve presente no filme que marcou a reconciliação do quarteto: "Os Trapalhões e o Mágico de Oróz" (1984). Em 1985, a parceria se intensificou e veio o filme "Os Trapalhões no Reino da Fantasia", onde a loira teve um maior destaque na aventura, mas ainda com o status de convidada especial.

A participação de Xuxa nos filmes dos Trapalhões crescia a cada ano: de uma rapidíssima participação no final de "Arca de Noé" ao quase protagonismo em "Reino da Fantasia"


Era chegada a hora de falar de igual para igual, estava prestes a nascer “A Princesa Xuxa e Os Trapalhões”. Só pelo nome, já temos que ver o “upgrade” que a loira agora representava: seu nome era parte do título e ela nem interpretava a si própria na história.

A quinta trapalhona
Esse destaque, de igual importância, entre Xuxa e os Trapalhões, deve-se a vários motivos. Um deles era a força comercial que ambos tinham no mercado brasileiro. Mas o motivo principal era que a Xuxa tinha tanta sintonia com o quarteto, que passou a ter o status de quinta trapalhona.
“Xuxa entende como ninguém o espírito dos Trapalhões. A gente sentiu que ela tem jeito pra aventura. No filme em que era freira, ela dizia que queria aventura, pular muro. No filme, ela é uma atriz, não uma apresentadora. Ficou tudo bem encaixado, nada forçado.”
 Renato Aragão para a Revista Semanário (21/03/1989) e Jornal O Liberal (25/06/1989)

Definitivamente esse era um filme DA XUXA com os Trapalhões. Renato Aragão, que sempre criava o argumento de todos os seus filmes, fez a história especialmente para a Xuxa brilhar, embora o convite para a parceria tenha partido da própria ainda durante as filmagens de “Super Xuxa...” (Programa Os Trapalhões, 02/04/1989).


Com a presença de Xuxa no palco, os Trapalhões contaram sobre o filme na TV pela primeira vez juntos. Quando o programa foi ao ar, as filmagens já estavam na reta final.


José Alvarenga Junior: o profeta alvinegro
Em time que está ganhando não se mexe... mas todo bom time tem um bom técnico. Temos que falar um pouco de José Alvarenga Junior para que você entenda essa repentina menção a futebol no meio de uma matéria sobre Xuxa e os Trapalhões.
Ele tinha apenas 28 anos quando dirigiu "A Princesa Xuxa e os Trapalhões". Porém, apesar de jovem, esse já era o seu quarto trabalho com o quarteto (três como diretor solo e um como diretor assistente), e era uma parceria que estava dando muito certo. Seu filme anterior, "O Casamento dos Trapalhões" (1988), atingiu a marca de 4.779.027 espectadores (Fonte: Ancine). Desde 1982, o grupo de humoristas não atingia um público superior a quatro milhões de pessoas.

Seu diferencial foi enxergar seriedade onde a maioria só via o cômico e isso lhe garantiu a confiança de Renato Aragão:
“Quando fui diretor assistente em "Os Fantasmas Trapalhões" (1987), Renato ficou impressionado com a forma que eu dirigia as cenas de ação e me convidou para dirigir seu próximo filme, “Os Heróis Trapalhões” (1988). Minha escola é a de Steven Spielberg (Indiana Jones, ET, Jurassic Park) e era essa agilidade encontrada nos filmes do diretor americano que eu queria trazer. Quando o Didi e o Dedé caiam na porrada, eles caíam na porrada mesmo. Eram cenas complicadas de se filmar, pois envolviam toda uma coreografia”.


José Alvarenga Junior durante as filmagens de "Os Heróis Trapalhões"(1988).
A carreira de Alvarenga ainda continua com grandes sucessos de bilheteria no cinema, como os dois filmes de "Os Normais" (2003 e 2009), "Divã" (2009) e "Cilada.com" (2011). E, na televisão, dirigiu diversos seriados marcantes como “A Justiceira” (1997), “Os Normais” (2001-2003), “A Diarista” (2004-2007), “Força Tarefa” (2009-2011) e “Supermax” (2016).


Torcedor do Botafogo/RJ, ele sempre coloca menções ao seu time do coração em seus trabalhos. Para o diretor, cinema e futebol se assemelham: “Percebi que o público se envolvia com o filme como se fosse uma torcida de futebol, pois as crianças riam, choravam, gritavam. O fato de ter menção em meus filmes, não apenas ao Botafogo, mas a outros times de futebol, ajudava a mexer com a plateia”.

Você viu, ele previu: Ele não imaginava que uma simples menção se tornaria uma profecia. Em uma cena de “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”, um menino segura um adesivo, que dizia que o Botafogo seria campeão em 2010. Isso de fato aconteceu, com o time vencendo o Campeonato Carioca daquele ano. Os veículos que cobrem futebol divulgaram bastante esse fato (como o Globo Esporte) e, segundo o diretor, isso continua repercutindo até hoje.



O momento em que "Princesa Xuxa" profetiza a vitória do Botafogo em 2010.
O fato virou notícia na imprensa especializada do esporte


A história
Conceber uma história futurista permitiu brincadeiras como a do Botafogo, mas isso é só um grãozinho de areia na aventura que aguardava Xuxa, Didi e cia. Acreditamos que você saiba muito bem a trama, mas vai que você passou os últimos 30 “nanons”, quer dizer, anos, em algum planetinha “no braço direito da via láctea”, o resuminho a seguir é para você:

A Princesa Xaron (Xuxa) é a filha do governante do planeta Antar, o rei Jorney. Quando Xaron era criança, um conquistador, chamado Ratan, provocou uma guerra, com o objetivo de conquistar o planeta para si. Ele matou o rei, provocou a destruição de parte do planeta e escravizou seu povo, principalmente as crianças. Enquanto a princesa se manteve sob o domínio de Ratan, três príncipes (Dedé, Zacarias e Mussum) conseguiram fugir e se uniram ao Cavaleiro Sem Nome (Didi). Dez “nanons” se passaram, a princesa já é adulta e não tem conhecimento das coisas que acontecem no reino, pois é impedida de sair do castelo. Porém, os três príncipes e o cavaleiro conseguem contar a Xaron toda a verdade. A princesa se alia aos revolucionários e... bom, vocês já sabem que o final é feliz, afinal é um filme da Xuxa com os Trapalhões!

A Princesa Xaron em dois momentos: iludida pelo vilão Ratan e já a par da realidade do povo de Antar, com a ajuda dos príncipes Zacaling, Mussain e Dedeon e o Cavaleiro Sem Nome, que depois foi batizado Diron


Orçamento e produção
Criar esse mundo paralelo custou cerca de US$ 600 mil, o maior investimento feito pelos Trapalhões até aquele momento (Jornal do Brasil – 18/06/1989). Metade do orçamento veio da Columbia Pictures e o restante veio da Art Filmes, Renato Aragão Produções Artísticas, Xuxa Produções e ZDM (empresa que representava Zacarias, Dedé e Mussum) (Jornal do Brasil, 04/04/1989).

Não só o investimento foi maior, o tempo dedicado à produção também foi aumentado em quase o dobro (cerca de 9 semanas, em contrapartida das usuais 5 semanas). Parte disso graças aos efeitos especiais – alguns inéditos no cinema brasileiro.



Hoje, 30 anos passados, uma geração mais jovem pode assistir ao filme e, injustamente, chamar os efeitos de “toscos”, mas em 1989, no Brasil, isso era o que podemos chamar de “dar seu melhor”. Olha só:

“GPS” de Ratan: na cena em que o vilão acompanha a trajetória dos heróis, a técnica utilizada foi a de se filmar gráficos de computador, que foram transportados para 35 mm e depois projetados de forma a mesclar as duas cenas realizadas separadamente.


A tecnologia de localização em tempo real de Antar: à frente do Planeta Terra


Matte Painting: você já deve ter ouvido falar no efeito matte que alguns cosméticos prometem, aquele tom aveludado, sem brilho. No cinema, a função não era tão diferente, era maquiar um cenário de forma que parecesse o que não é. Ou seja, em algumas cenas de “Princesa Xuxa”, partes do cenário são apenas pinturas.

“Foi a parte mais árdua. Precisávamos filmar cada cena e refilmá-la, a partir do seguinte processo: revelar o filme, projetar o fotograma sobre um vidro que é pintado e depois recolocá-lo na mesma cena, com a mesma cronometragem de luz para a sua refilmagem. Cenas tão trabalhosas e que só podem aparecer na tela por, no máximo, 8 segundos, ou fica perceptível que é uma pintura”. Nonato Estrela, diretor de fotografia – O Globo, 22/06/1989



Parece, mas não é: cenários que, na realidade, eram pinturas quase realistas
“O filme vai ganhar o título de o mais bonito que a gente já fez. 'Nunca vi uma imagem dessas' é o comentário geral” (Renato Aragão para o jornal O Liberal, PA, 25/06/1989)


Alvarenga nos contou que essa era uma prática comum em Hollywood e acrescentou um cuidado a mais na produção: “Por exemplo: a Xuxa, ao sair em uma determinada cena, tinha que sair em um ponto específico, para não esbarrar no vidro”.

Chicote laser de Ratan: sem dúvida, o maior destaque dos efeitos especiais. E quem passou a infância vendo e revendo aquela cena do embate do vilão e Diron não imagina como foi difícil fazê-la.
“A cena foi toda filmada com uma corda normal e depois, na edição, o efeito do laser tinha que ser inserido “frame a frame”. No cinema, normalmente, são 24 frames por segundo. Multiplicando essa quantidade pelo número de segundos que esse efeito precisava estar presente no filme, dá para ter um pouco de noção da dificuldade de finalizar a cena. Foi algo inédito no cinema brasileiro e levou meses para ficar completamente pronto. Vendo a cena pronta, ficamos orgulhosos de terem levado o cinema infantil brasileiro àquele nível.” José Alvarenga Junior



O chicote laser de Ratan, na verdade, era uma corda comum.
Na pós produção, o "laser" foi inserido frame a frame


O clima das filmagens
Por vezes o horário das filmagens se estendia das 8 até às 23h. Profissionalismo em primeiro lugar, mas também tinha muita diversão, “era leve, divertido”, relembra Alvarenga. A própria Xuxa disse, no programa “Os Trapalhões”, que dava vontade de jogar tudo fora depois de filmado só para fazer de novo. Não porque estava ruim, mas sim porque não queria que acabasse.

Filmar “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” foi um momento especial para muitas pessoas da equipe, como para o cantor Juninho Bill. Ele nos contou que, além de ter sido marcante conviver com os Trapalhões, foi no set de filmagem que eles (o grupo Trem da Alegria), apesar de já conhecerem a loira há muitos anos, tiveram um tempo maior juntos com a Xuxa.

O Trem da Alegria em cena: trabalho e diversão ao mesmo tempo


Outro momento “fofo” foi relatado por Xuxa no programa “Xuxa 12 anos com você”, de 10/10/1998. A Rainha disse que, durante o intervalo das filmagens, Zacarias sumiu da locação e foi exclusivamente até o seu sítio buscar “cajá”, pois sabia que a loira adorava a fruta.

Zacarias: sempre pronto em agradar à Rainha


Renato Aragão também não ficava atrás ao demonstrar o seu afeto.  Para a revista Manchete, de 22/04/1989, ele declarou: "Logo no início das filmagens (de O Trapalhão na Arca de Noé), senti que ela tinha algo além de modelo", não medindo elogios à Xuxa. No especial de três anos do Xou da Xuxa, Renato complementou ao dizer que, vendo o filme, ele teve a certeza de que “a Xuxa é uma estrela, de outro planeta”.

"Xuxa é uma estrela, de outro planeta" - derrete-se Renato Aragão ao falar da loira


Elogios à Xuxa não vinham só dos que estavam frente às câmeras...

“Xuxa atriz” e seu profissionalismo:
Ao ser perguntado como foi trabalhar com Xuxa, o diretor José Alvarenga Júnior nos fala que eles tiveram muito cuidado, pois, por ela não ser atriz, era necessário explicar a cena de uma forma que fizesse com que ela chegasse a um “gatilho” (ou seja, à emoção que aquela cena exigia). “Xuxa se deixou conduzir e foi muito bom trabalhar com ela”, relembra.

José Alvarenga orienta Xuxa durante as filmagens: "muito bom trabalhar com ela"

Outro integrante do elenco que destacou o profissionalismo da Rainha foi Breno Moroni, em entrevista ao livro de Rafael Spaca, “O Cinema Dos Trapalhoes - Por Quem Fez E Por Quem Viu” (2016) : “A Xuxa sempre me pareceu uma profissional exemplar, uma operária da arte dela, do ofício dela (...) ela chega sempre na hora, está sempre pronta (...) Ela é educada com todo mundo, nunca vi ela dar um chilique, ela é uma excelente profissional”.

Mauro Wilson, um dos roteiristas do filme, também no livro citado: "A Xuxa é puro carisma, além de linda. Acredito que ela funciona bem".
Tão bem, que acabou influenciando a personalidade da Princesa, agregando características consideradas até mesmo a frente do tempo em que o filme foi lançado:

“Com a Xaron, começa o empoderamento feminino, pois ela se rebela, vai lutar com os guerreiros. Na verdade, essa atitude da Princesa tem a ver muito com a Xuxa. Ela é muito inteligente, sagaz”. José Alvarenga Junior


Empoderamento feminino: muito antes do tema se tornar recorrente nas histórias, Xaron já tinha dado um passo à frente


Alvarenga nos contou que conheceu a loira no primeiro dia de filmagem do filme. E, segundo o diretor, a primeira cena filmada não era uma cena qualquer e sim uma das mais emblemáticas: a cena em que a Princesa nada no lago, supostamente sem nenhuma peça de roupa. Estando nua ou não, nada de impróprio é mostrado no filme. Alvarenga considera a cena muito bonita, sendo “sensual, sem mostrar nada”. O diretor também nos contou que ela não está no filme gratuitamente, pois ela serve para ajudar a construir o romance entre Xaron e Diron.

A cena de Xaron nadando no rio: primeira a ser filmada


O romance como diferencial
A Princesa Xuxa e os Trapalhões” se diferencia dos filmes anteriores dos Trapalhões, pois, segundo o diretor, nesse ele pode trabalhar um pouco melhor a parte do romance:
“No filme, Xuxa e Renato vivem um romance de verdade. Tem a cena que eles rolam no chão, com uma trilha sonora bacana. Era sensual, não mostrava nada, mas a criança entendia que eles tinham algo. A criança também se apaixona. O público torce por eles”.

O público torce pelo romance de Xaron e Diron e não se decepciona


A torcida do público é recompensada através da cena final do longa.
“Na cena final, Diron olha para a câmera e corta para a imagem da nave espacial, sendo que o som ao fundo era de risadas de ambos (Xaron e Diron). Coloquei isso, pois fazia parte do personagem, o público entendia o Didi e ficava feliz que ele teria o relacionamento com aquela mulher linda. Eles saem daquele planeta, daquele conflito e puderam, enfim, viver o seu romance”. – conta Alvarenga



"Me dei bem, ô psit"


Star Wars?
A Princesa Xuxa e os Trapalhões” se preocupou em criar um universo único, com uma mitologia própria, mas é impossível não se lembrar da saga dos Skywalker (Star Wars). Nonato Estrela, diretor de fotografia do filme, em entrevista a Rafael Spaca, disse que houve, sim, inspiração em Star Wars: “todo filme tinha algum conceito”. Porém, em vários detalhes do roteiro, nota-se que as semelhanças estão também nas diferenças. Achou estranho? Em Star Wars, um letreiro informa que “há muito, muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante”....



Na história, estrelada por Xuxa e os Trapalhões, é ao contrário: acompanhamos a história do planeta Antar no futuro e o planeta não ficava muito longe de nós. No início do filme, é dito que ele fica localizado “no braço direito da Via Láctea, em um sistema de estrelas gêmeas”. Estrelas gêmeas... Sim, ao contrário do nosso sistema solar, Antar orbita dois sóis. Os anos nesse planeta chamam-se “nanons”; há animais de estimação de duas cabeças chamados “gatorros” e não se mede distâncias utilizando, como unidade de medida, metros ou quilômetros e sim “fergusos”. No planeta, ainda há uma planta mística chamada “Solarium magnífico”, que desabrocha quando os dois sóis de Antar estão no mesmo quadrante, significando que uma nova era está surgindo.

Alvarenga nos diz que a maioria dessas ideias já vinha no roteiro, de Mauro Wilson e Paulo de Andrade. Porém, uma das ideias veio dele e, ao contrário do que muitos pensam, ela não foi para “imitar” ou homenagear Star Wars. No filme, os guardas de Ratan usam capacetes sem mostrar o rosto, lembrando os guardas do Império de Darth Vader: os Stormtroopers. Porém, essa ideia, segundo o diretor, veio da necessidade de se utilizar figurantes como guardas, ao invés de atores, devido ao orçamento do filme, que já estava ficando curto. Se ele colocasse figurantes mostrando os rostos no filme, ele poderia comprometer o resultado do longa, pois, por não serem atores, eles poderiam não atuar bem.

Os soldados de Star Wars e os soldados de Princesa: homens sem rosto, mas com um propósito


Merchandising:
Outro desafio solucionado por José Alvarenga Júnior foi a inclusão de merchandisings em um filme futurista, que se passava em outro planeta. A menção a alguma marca precisava ser orgânica dentro do enredo: “A tendência, ao colocar um ‘merchan’, é de o público reclamar, pois ele quebra o fluxo natural do que está sendo contado. Na TV, o espectador encara melhor o merchandising; no cinema, não.”
A inclusão, na trama, de uma nave espacial do planeta Terra facilitou a veiculação de diversas marcas, como Toshiba e Transportadora Mercúrio.

"Merchans" diretamente do Planeta Terra para o Planeta Antar
Olá, amigos de outro planeta, venham para a Terra, conheçam nossa fauna e flora. Se quiser se mudar pra cá, a Transportadora Mercúrio atende em todo o sistema solar. Gratos pela preferência


Outros merchandisings foram veiculados nos créditos iniciais (como a Galinha Azul, da Maggi, participando do desenho da Xuxa e dos Trapalhões) e nos créditos finais (quando a história já tinha acabado e, por isso, não haveria o risco de marcas como Café Pelé, Água Indaiá ou Viação São Geraldo atrapalharem a experiência do público).

"Merchans" mais explícitos nos créditos iniciais e finais para não prejudicar o andamento da história


O merchandising preferido do diretor é o da Coca-Cola. Ele disse que trabalhou na veiculação da marca de ponta a ponta: desde a ideia inicial, até os detalhes: “Foi incrível colocar a Coca-Cola, uma das marcas mais conhecidas do mundo, daquela forma. Os habitantes de Antar, espantados, com medo de algo que é tão comum para nós. Aí incluímos uma trilha de terror... Gosto muito dessa cena”.

O Ministério de Antar adverte: refrigerante pode ser prejudicial à sua saúde, proteja-se!


Mudanças no roteiro e cenas simplificadas:
Se a inserção de um ‘merchan’ tinha que ser a mais natural possível, a adaptação de algumas cenas do roteiro também tinha que acontecer. Não dava para seguir tudo à risca, fosse pelo custo ou pela complexidade de execução.
O primeiro roteiro era muito maior (em termos de grandiosidade das cenas), lembro que tinha, no roteiro, lutas no deserto... Mas essas mudanças são normais. Todo filme tem dificuldades. Por exemplo: os negativos eram comprados em dólar e o dólar, como hoje, também flutuava. Então, era preciso enxugar algumas coisas, pois, por conta desses fatores externos, o orçamento também acabava diminuindo”. José Alvarenga Junior

Por conta do orçamento, cenas de grandes batalhas no deserto de Antar acabaram cortadas na revisão do roteiro


Juninho Bill também nos contou que algumas cenas que ele esteve presente tiveram que ser modificadas: o “caminhão” do castelo de Ratan era muito lento e teve uma cena em que as crianças estavam em cima dele. Por conta da lentidão, receberam a seguinte orientação do diretor: “façam os movimentos em câmera lenta, porque a gente vai acelerar o take na edição”.
               
Pré-estreia do filme:
Cenas modificadas, filme editado... Uma obra cinematográfica pronta! Havia chegado o momento de mostrar o trabalho de tantos meses para o grande público.
A pré-estreia aconteceu no dia 19/06/1989 (uma segunda-feira), nos cinemas Art-Casashopping 2 e 3, na Barra da Tijuca. Enquanto no Art-Casashopping 2 estavam presentes 700 convidados da produção, no Art-Casashopping 3 havia 450 crianças do Orfanato São José, de Jacarepaguá. Fazer uma sessão de cinema, em primeira mão, para crianças carentes já era uma tradição dos Trapalhões. Os baixinhos adoraram a presença do quarteto de humoristas, do grupo Trem da Alegria, mas a maior emoção mesmo foi ver a Xuxa de perto, cantando, dançando e falando com as crianças tal como no programa de televisão.

Xuxa, Os Trapalhões e o Trem da Alegria estiveram presentes na pré-estreia no dia 19/06/1989


Campanha beneficente com a LBA:
Trazer crianças de um orfanato para ver o filme não foi a única ação social envolvendo “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”. Em parceria com a LBA - Legião Brasileira de Assistência - firmou-se uma parceria de que no dia da estreia, 22/06/1989, no Brasil todo, um ingresso infantil poderia ser trocado por um agasalho. A arrecadação seria distribuída entre 291 instituições carentes assistidas pela entidade (Correio Braziliense, 22/06/1989).
A campanha foi lançada oficialmente na manhã do dia 22/06/1989, no Rio de Janeiro, quando estiveram presentes Xuxa, Os Trapalhões e o presidente da LBA, Irapoan Cavalcanti.
Como já era previsto, a campanha foi um sucesso, tendo sido arrecadados milhares de agasalhos. Devido ao êxito, no Xou da Xuxa especial de natal, exibido em 25/12/1989, o presidente da LBA foi entregar a Xuxa a “Medalha do Mérito Legionário”. Segundo o presidente, essa era a mais importante medalha da área social do país.
Essa seria apenas a primeira ação beneficente envolvendo lançamentos de filmes da Rainha. No ano seguinte, por exemplo, ainda viriam outras, também com parceria da LBA.



Divulgação
No dia da estreia do filme, 22/06/1989, o Xou da Xuxa destacou o longa-metragem durante todo o programa e contou com a participação dos Trapalhões durante um dos blocos. Até o momento da gravação daquele Xou,  Xuxa ainda não tinha visto nenhuma cena do filme.

Xuxa viu junto com seus baixinhos as primeiras cenas do filme, no palco do "Xou da Xuxa"


Já no programa “Os Trapalhões”, de 02/07/1989, durante um bloco, Xuxa, os Trapalhões e Trem da Alegria estiveram vestidos com o figurino do filme e contaram curiosidades sobre a produção.

Depois de receber os Trapalhões no Xou, foi a vez da loira visitar o programa do quarteto


A divulgação do filme continuou durante outros programas dos Trapalhões exibidos em julho/1989. O quarteto de humoristas fazia perguntas à plateia com relação ao longa metragem e quem respondia corretamente ganhava uma bicicleta.

Curiosidades:
Igual, mas diferente: os baixinhos que estavam acompanhando o Xou naquela manhã, se fossem ao cinema à tarde, notariam que as cenas exibidas no programa eram um pouco diferentes. Não foi exibida nenhuma cena inédita, porém, todas as cenas exibidas no Xou eram versões alternativas de cenas que entraram para o filme.



Cartão Cultura: quem também aproveitou o lançamento do filme foi o grupo Brazilian Foods, que eram um dos líderes do mercado de tickets refeição. Com o objetivo de expandir as atividades, o grupo associou-se ao empresário Sérgio Ribeiro, dono dos direitos de comercialização de “Princesa Xuxa", para testar a receptividade do "cartão cultura". O invento daria ao portador acesso gratuito a casas de espetáculo, cinemas e teatros credenciados a operar com essa nova modalidade de ingresso (O Globo, 18/06/1989). O lançamento do cartão foi publicado nos principais jornais brasileiros nos dias próximos ao lançamento do filme, citando, nos anúncios, “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”.


Crítica especializada x público
O filme foi recebido de maneira mista pela crítica especializada. Como pontos positivos, os jornalistas ressaltaram a qualidade da produção. Porém, também houve críticas à história, por não oferecer novidades (O Globo, 22/06/1989) e à interpretação de Paulo Reis como Ratan (Jornal do Brasil, 22/06/1989). No “Xou da Xuxa” especial de 3 anos, a Rainha rebate a crítica da revista Veja, cujo título era: "A união faz a força ladeira abaixo", dizendo:
"A Veja é uma revista séria, mas a revista tem alguns empregados que não são tão sérios quanto ela. Não me cobre por ser atriz. Eu não sou atriz. Eu sou uma modelo, modéstia a parte, das melhores. (...) Tem três coisas fundamentais para ser uma grande atriz: juventude, saúde e garra. Outra coisa: eu sou séria no trabalho. Eu estou onde eu estou por conta do trabalho. Trabalhe sério também, igual a mim".




Porém, o filme não era feito para os críticos e sim, para as crianças. Logo, ele precisava agradar apenas a elas. E isso o longa-metragem cumpriu com louvor!

O jornal O Pioneiro, de Caxias do Sul/RS, de 10/07/1989 enfatizou que, apenas no domingo, dia 09/07/1989, mais de 2 mil crianças congestionavam a calçada do cinema. Muitos que queriam ver o filme, não puderam ver, pois não havia mais ingressos. Esse mesmo cenário se repetiu nos finais de semana seguintes (O Pioneiro, 17/07/1989 e 25/07/1989).
“As crianças vibravam, gritavam. Isso era gratificante. Eu não tinha filhos na época desses filmes, mas fazia pensando neles, no que eles iriam gostar. Hoje tenho 4 filhos, todos já assistiram aos filmes e eles riram nos momentos que eu achei que eles iriam rir”.  (José Alvarenga Junior nos contando que após o lançamento foi a algumas sessões apenas para ver a reação das crianças)


Bilheteria:
O filme foi lançado em cerca de 140 salas do Brasil inteiro (Jornal do Brasil, 18/06/1989) com a expectativa de bater um público próximo a 5 milhões de espectadores.

A julgar pela recepção calorosa do público, era esperado que a expectativa chegasse bem próxima da realidade. E chegou! Mesmo concorrendo com o blockbuster americano "Indiana Jones e a Última Cruzada", que havia estreado uma semana antes, o filme da Xuxa e dos Trapalhões bateu o herói interpretado por Harrison Ford: até o final de julho, o último filme da trilogia clássica de Indiana Jones havia atraído cerca de 3 milhões de espectadores, contra 3.579.189 de Princesa Xuxa (Jornal do Brasil, 02/08/1989).



Até setembro, 4.018.764 espectadores tinham visto “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” (Jornal do Brasil - 16/10/1989). Esse mesmo número está publicado no site da Ancine - Agência Nacional de Cinema. Porém, em 1989, havia muitos cinemas no interior do Brasil que demoravam a receber as cópias dos filmes. Então, é provável que o filme continuou sendo exibido por mais um tempo, pelo menos, até o final de 1989.

O Jornal do Brasil de 10/08/1991 divulgou que o público final do filme foi de 4.310.085 espectadores, mesmo número que consta na contracapa do VHS lançado em 1998 pelo jornal O Globo. Sendo 4.018.764 ou sendo 4.310.085, o fato é que o longa-metragem foi um sucesso incontestável!



Lançamentos em home vídeo:
A Princesa Xuxa e os Trapalhões” foi lançado em VHS pela Globo Vídeo já no mês de agosto do mesmo ano. O lançamento inicialmente previsto para a semana do dia 17/08 sofreu um atraso por um bom motivo: com apenas três dias de lançamento, foi necessário parar para selecionar os pedidos, tamanha a procura pelo filme! Por conta disso, as fitas só começam a ser entregues às locadoras, lojas e magazines a partir do dia 25/08/1989 (Revista AMIGA, 28/08/1989). O sucesso foi tanto que Princesa Xuxa foi a 4º fita mais vendida de 1989, com 11.026 cópias (Jornal do Brasil, de 10/02/1990).


"Princesa Xuxa e os Trapalhões"  foi a 4ª fita de videocassete mais vendida de 1989
A propaganda da fita era veiculadas nos intervalos da Rede Globo (como no meio da exibição do Jornal Nacional, de 19/10/1989), e no ano seguinte também inserida em outras fitas lançadas pela Globo Vídeo, como “Xou da Xuxa 2”, “Lua de Cristal” e “O Mistério de Robin Hood”.



Dois relançamentos do filme em VHS aconteceram: um em meados dos anos 90, pela "Reserva Vídeo Especial" e outro dentro da coleção “Férias com Os Trapalhões”, do jornal O Globo. Comprando o jornal de 19/12/1998, e pagando mais R$ 4,90, levava-se o pôster, a fita do filme e um ingresso de adulto para assistir ao lançamento de Renato Aragão na época, "Simão, o Fantasma Trapalhão".



Em DVD, o longa-metragem teve dois lançamentos: um no final de 2001, pela Som Livre e outro em setembro de 2008, pela Europa Filmes.


O primeiro lançamento do filme em mídia digital (Som Livre - 2001)


No relançamento em DVD pela Europa Filmes, o filme ganhou uma luva (slipcase) que reproduzia a arte da capa. Em compensação, os extras (making of e videokê) foram limados


Visto que, atualmente, o público consome menos mídia física e acaba assistindo filmes por plataformas de streaming, neste ano, “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” foi incluído no catálogo da Globosat Play, estando também disponível pelo aplicativo NOW, para os assinantes da NET ou Claro TV.

Curiosidades:

- Ora pois pois: Princesa Xuxa, junto com o filme "O Casamento dos Trapalhões", foi distribuído em fitas de videocassete em Portugal pela empresa Vista Vídeo (Jornal do Brasil - 29/04/1990)

- 99 ou 112 minutos? Os fãs mais detalhistas talvez tenham notado que na VHS do filme, lançada pela Globo Vídeo, é dito que o filme tinha 112 minutos. Essa informação também era replicada nos jornais, nas fichas técnicas do filme, a cada reprise do filme na Rede Globo ou na TV paga. Porém, na verdade, o filme possui 99 minutos, ou seja, 13 minutos a menos.

O filme nunca teve 112 min, mas essa informação só foi corrigida no relançamento de 2008

Os créditos finais do filme demonstram que houve cenas cortadas, como a da Amanda com um dos guardas do castelo, bem como algumas cenas seriam maiores, como o discurso de posse da Rainha Xaron para seu povo. O trailer do filme também mostra cenas que ficaram de fora no corte final. Então, existia a dúvida: será que chegou a existir uma versão de 112 minutos de “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”?

José Alvarenga Júnior nos disse que não. A versão que foi aos cinemas era a versão definitiva. Porém, ele disse que, durante o processo de edição do filme, muitas cenas “caíram” (ou seja, foram filmadas e foram cortadas na edição): “Prezo muito pelo ritmo de um filme. O ritmo é o rei. Pode ser sido a cena mais cara da produção: se ela não está funcionando na história, eu corto”.

Exibições na televisão:
Se em Portugal, o filme seria lançado em home video, na França houve negociações com o Canal Plus, para exibição na TV do país (Jornal do Brasil, 29/04/1990).

Já aqui no Brasil, a primeira exibição de “A Princesa Xuxa e os Trapalhões” na Rede Globo foi no dia 05/01/1992, um domingo. O filme foi exibido no lugar do programa “Os Trapalhões”, às 18h10. A última vez que a emissora o exibiu foi em 21/07/2005. Na TV paga, ele foi exibido inúmeras vezes no Canal Brasil (Globosat), entre 1999 e 2008.

Neste ano, o canal Viva, também da Globosat, exibiu o filme nos dias 30/03/2019, 31/03/2019 e 06/04/2019.

Quem nunca assistiu "Princesa Xuxa" na TV não sabe o que é infância, tá?


Você Sabia?
📆 As filmagens do longa começaram em 13/02/1989 (Revista Amiga, 06/02/1989)


Xuxa chega para as filmagens na cidade cenográfica de Antar


⛰️ Eram três as locações. Enquanto as cenas de estúdio foram filmadas na “Ponto Filmes” (tal como “Super Xuxa” e os últimos filmes dos Trapalhões), a parte da história que se passava no deserto foi filmada na Barra da Tijuca, bairro do Rio de Janeiro/RJ.  Já as cenas que se passavam no esconderijo dos rebeldes foram feitas na floresta da Tijuca. Alvarenga nos conta que, tanto a locação do deserto, quanto a locação da floresta eram locais muito fáceis e pertos de se chegar, o que facilitou bastante a produção.

O deserto de Antar era, na verdade, na Barra da Tijuca


📺  Havia 45 televisores na nave especial usada no filme (Manchete, 22/04/1989);
♻️ O nome do vilão, RATAN, tem as mesmas letras do nome do planeta que se passava a história: ANTAR (Correio Braziliense, 22/06/1989);

O nome do jogo é "crie o nome de seu filho a partir do nome do planeta"
_ Ratan, Natra,Taran, Artan e Narta: 


👸 A atriz que interpretou o papel de Princesa Xaron quando criança foi a mesma atriz que viria interpretar a Maria da Graça criança em "Lua de Cristal" (1990). Seu nome é Adressa Koetz e ela, anos depois, viria a fazer novelas na Globo, como "Andando nas Nuvens" (1999) e "O Clone" (2001);

Adressa Koetz: a primeira Xuxinha no cinema a gente nunca esquece


👎 Nos créditos iniciais do filme, o sobrenome de Xuxa está errado: escreveram “Meneguel”;

#Xatiada


🤔 Se o sobrenome estava errado na abertura do filme, o que dizer do nome da sua personagem? A revista Amiga a chamou de Xena, a revista Manchete a chamou de Xaren. Já a revista Contigo chegou a chamar de Xana (!?). E os erros não ficaram restritos ao período das filmagens. Se na contracapa da VHS lançada pela Globo Vídeo a grafia estava certa (Xaron), o mesmo não pode se dizer do relançamento da fita pelo jornal O Globo de 1998: chamaram a personagem de “Xeron”. Os lançamentos em DVD, em 2001 e 2008, seguiram o erro e continuaram a chamando de “Xeron”;

Xaron, Xena, Xeron, Xana, Xaren
Muita princesa pra nascer de um nome só...


🎬 A mesma empresa responsável pela abertura em desenho animado de “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”, Sketch Filmes, viria a produzir a última abertura do Xou da Xuxa, que ficaria no ar do dia 26/03/1990 até o término do programa;

Se você se lembrava de Princesa Xuxa quando via a abertura do "Xou", você tinha razão


🤝 Esse filme foi o primeiro filme coproduzido pela Xuxa Produções e ainda marcou o início da parceria da empresa da loira com a Art Films/Columbia Pictures, que seriam aliados em todos os filmes produzidos pela XP até 1991: "Lua de Cristal" (1990), "O Mistério de Robin Hood" (1990), "Sonho de Verão" (1990), "Inspetor Faustão e o Mallandro" (1991) e "Gaúcho Negro" (1991).




No futuro de um passado já distante...
No final do longa-metragem, Xaron e Diron partiram, de nave espacial, rumo ao Planeta Terra, rumo ao desconhecido. Diferente dos personagens do filme, revisitar "A Princesa Xuxa e os Trapalhões" foi partir ao encontro de velhos amigos, pois nós, assim como muitos os que viram e reviram o filme na infância, guardamos uma forte memória afetiva dele.
Por isso, não podemos deixar de fazer um agradecimento especial a José Alvarenga Junior e Juninho Bill, por toda a disponibilidade e gentileza e por nos ciceronear nessa viagem. 



Passaram-se 30 anos, mas a mensagem do filme sempre será atual para quem mantiver o coração aberto como era quando criança.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Clube da Criança - O Disco || 35 anos ||




“Por detrás do arco-íris, além do horizonte, há um mundo encantado feito pra você...” Esses versos bem poderiam representar a indicação do “endereço” do Clube da Criança no imaginário infantil dos anos 80. Não por acaso, são eles que abrem o primeiro e único disco “Clube da Criança”, lançado em 27 de março de 1984.

Você já assimilou a data com o aniversário de uma certa loira, certo? Bom... o caminho é por aí, mas dessa vez nossas atenções serão divididas entre a fundadora desse Clube, a ilustríssima Xuxa,  e seus dois sócios honorários: Patrícia Marx e Luciano Nassin.

As carreiras fonográficas dos dois maiores sucessos em vendas de discos infantis partem do mesmo ponto: Xuxa e Trem da Alegria começaram no disco “Clube da Criança”. E para nos conduzir nessa volta ao tempo ninguém melhor do que o idealizador de todo esse projeto: Paulo Massadas. Prontos? O nosso “Carrossel” já vai começar a girar...

Clube da Criança - O Disco: Xuxa, a "sócia fundadora", Patrícia & Luciano, os "sócios honorários" e Paulo Massadas, o idealizador nosso guia nessa viagem através do tempo


🎼MPB – Música Para Baixinhos
Entre 1983 e 1984, o mercado fonográfico enfrentava uma crise que fez o Brasil cair alguns lugares entre os maiores consumidores de discos. Na contramão dessa situação, um filão se destacava e continuava crescendo: o da música infantil. Hoje pode parecer estranho falar de sucesso na música infantil sem que haja um disco de Xuxa no meio, mas até 1984, o destaque era a Turma do Balão Mágico, que bateu a incrível marca de 1,23 milhões de cópias do seu segundo disco (até então só Roberto Carlos tinha passado do 1 milhão).

Portanto, a gravadora que quisesse se livrar da crise, precisava investir nas crianças e até mesmo artistas que já tinham uma discografia sólida começaram a se abrir para projetos infantis. Bons exemplos são Maria Bethânia e “Brincar de viver”, Raul Seixas e “Carimbador Maluco” no disco “Pluct Plact Zuum”, Guilherme Arantes e “Lindo Balão Azul”... todos entre as mais tocadas nas rádios e originários de especiais de TV infantis.

Antes de Xuxa: o número de faixas infantis entre as mais pedidas das rádios era algo inédito. Se hoje crianças consomem música adulta, em meados dos anos 80, os adultos que demandavam boa parte dos temas infantis


Uma gravadora em particular, a RCA Victor, sentia a crise fonográfica mais de perto e amargava um lugar nada confortável nas vendas (mesmo tendo em seu catálogo nomes como “Os Menudos”). Para reverter a situação ela precisava se reinventar, trazer o novo. Foi quando o então diretor artístico, Miguel Plopschi, recorreu a Paulo Massadas e Michael Sullivan. A dupla estava sob os holofotes graças ao sucesso “Me Dê Motivo” (gravado por Tim Maia), mas já conhecia Plopschi de outros trabalhos e resolveu encarar o desafio.

Massadas e Sullivan: convite para a nova gravadora, a RCA


🎼MPB – Massadas Para Baixinhos
Paulo Massadas dispensa apresentações; cada um de nós sabe, no mínimo, uma dúzia de composições dele (e Sullivan) de trás para frente, de frente para trás. O que você pode não saber é a ligação de Paulo com o universo infantil.  E, coincidentemente, isso já começa no nascimento: aniversariante do dia 12 de outubro, sua primeira música composta foi infantil: “O Mago de Pornóis”, gravada por Vanusa e lançada em 1973.

Massadas já acalentava a ideia de fazer um projeto infantil há algum tempo e o momento não poderia ser mais favorável para colocá-lo em prática: ascensão do mercado de músicas infantis e casa nova onde poderia desenvolver seu projeto com mais liberdade:
Eu já havia falado com o Sullivan que precisávamos criar um projeto infantil. Já tínhamos até um nome provisório: A CARRUAGEM ENCANTADA. Quando fomos pra RCA, resolvemos tirar isso do papel e decidimos tudo em uma só noite para já no dia seguinte mostrar à gravadora. 



Vanusa gravou a primeira composição de Massadas: uma música infantil.
A faixa ganhou até clipe no Fantástico (Rede Globo), isso que podemos chamar de uma estreia e tanto!


👧👦A chegada de Patrícia e Luciano
O disco ainda não era do “Clube da Criança”, era o projeto infantil da RCA e a gravadora queria mais novidade. O “Balão Mágico” havia estourado, era de outra gravadora e de certa forma não pretendia sair de sua zona de conforto: as adaptações de músicas estrangeiras feitas por Edgard Poças. A solução era correr atrás de crianças tão carismáticas quanto.

Houve uma pesquisa realizada pela gravadora em São Paulo e eles ficaram sabendo da Patrícia e o Luciano, duas crianças talentosíssimas que já cantavam em shows de calouros, concursos e festivais. Eram o que precisávamos: crianças e com um potencial de voz incrível. Nós apostamos neles. Com a música certa, eles dariam certo. De qualquer maneira, dariam certo.



Patrícia e Luciano: duas crianças prodígio que já se apresentavam em shows de calouros e festivais de música


🍫É de Chocolate
A faixa que abre o disco também foi a primeira a ser gravada. Antes mesmo da gravadora se decidir por Patrícia e Luciano a composição já estava pronta a espera de seus intérpretes:
Precisávamos de uma primeira música. No apartamento do Sullivan, nos questionamos: e agora, vamos falar de que? Tinha que ser uma coisa arrasadora, impactante, afinal era a abertura do disco. Veio aquele estalo: ‘quando você quer agradar uma criança de imediato, ou você dá um sorvete ou um chocolate...’ A primeira vez que uma criança prova o chocolate, a vida dela muda. Então já que o chocolate é tão universal, por que não um tema como esse? “Vou te mostrar que é de chocolate, de chocolate o amor é feito...” (cantarolando), o processo de composição foi muito fácil.
Levamos para a gravadora a música gravada só com violão e nossa voz. Quando o Miguel ouviu ele não entendeu nada daquilo, era uma coisa extremamente nova, algo que ninguém estava preparado. Havia uma carência de novidade no mercado infantil. Quando mostramos a música os caras não botaram fé. Todos ficaram com um pé atrás. Foi passando de diretor para diretor, até que eles resolveram arriscar. 

O processo de gravação de “É de Chocolate” e as inovações de Lincoln Olivetti
Então lá fomos nós gravar a primeira música do disco. A guitarra da introdução é do Robertinho do Recife, que também faz os vocais da música junto com a então esposa, Emilinha. Os arranjos são do Lincoln Olivetti. No dia de gravar a música foi engraçado, pois quando eu cheguei no estúdio vi tudo vazio, não tinha ninguém. “Onde está todo mundo?” - Vi um setup com vários instrumentos dentro da parte técnica, onde estavam o Robertinho e a Emilinha. Um técnico deu o play e eu ouvi toda a base pronta. A única coisa “real” era a guitarra do Robertinho do Recife. O resto foi criado pelo Lincoln com os chamados “módulos multitimbrais”, que nada mais eram a música computadorizada, uma tecnologia onde já existiam todos os instrumentos musicais gravados. O Lincoln fazia tudo sozinho e arranjava toda a música com essa técnica. Uma inovação naquela época no Brasil. Ele foi pioneiro! Foi uma das primeiras gravações do Lincoln utilizando esse recurso. A sonoridade dele era única.

Lincoln Olivetti e seus famosos módulos multitimbrais (imagem ilustrativa): pioneirismo na música brasileira


🎶Mais Convidados
Era certo que Patrícia e Luciano seriam o destaque do disco, mas eles não eram conhecidos o suficiente para segurar a divulgação sozinhos. Massadas e Sullivan queriam tudo que agradasse à criançada e também nomes de sucesso para impulsionar o disco, mesmo que não tivessem ligação com o universo infantil. Vieram Vanusa, Sérgio Reis, Martinho da Vila e o grupo Absyntho.




🎠A Carruagem vira o Clube da Criança
Todos os discos infantis de sucesso da época vinham de algum programa de TV: Turma do Balão Mágico, Pluct Plact Zuum, Arca de Noé, Pirlimpimpim e a Rede Globo detinha os direitos das trilhas. Fora desse domínio, quem despontava era Xuxa no comando do Clube da Criança, na Rede Manchete.

Estava decidido: o Clube seria o principal instrumento de divulgação do disco. Portanto o nome tinha que ser “Clube da Criança”, até para que se criasse uma referência na cabeça das crianças: “o disco do Clube da Criança”. Tudo perfeito se não fosse um probleminha: Xuxa, a “sócio fundadora” desse Clube não queria de jeito nenhum participar, pois não sabia cantar.

Como fazer um disco do Clube sem Xuxa? Paralelamente a isso, Massadas e Sullivan já tinham convidado dois nomes do universo infantil: o palhaço Carequinha, que também tinha uma atração na Rede Manchete e Sérgio Mallandro que, apesar de não ter um programa infanti,l já conquistava a simpatia da garotada.

Quarteto Fantástico: Carequinha, Xuxa, Patrícia e Luciano.
Xuxa e Carequinha já eram estrelas da Manchete, Patrícia e Luciano seriam as estrelas do disco


👑Xuxa
Se tem uma coisa que ninguém nunca vai poder falar de Xuxa é que ela se acha cantora. Mesmo depois de vender milhões de discos, o que certamente lhe daria argumentos para aceitar a condição, ela sempre afirmou: "não sei cantar". Imaginem, então, ela aos 20 anos, sem nunca ter pisado num estúdio de gravação... “Na cabeça dela, era a mesma coisa que fazer um jacaré voar” lembra Massadas.

Por isso mesmo, Xuxa tem uma participação tímida no disco que levava o nome do seu programa e esse pouco não foi fácil:
Para tentar convencê-la, marcamos uma reunião na Manchete com ela e com o Miguel Plopschi. Levei a letra de “Carrossel de Esperança” para que ela pudesse ter uma dimensão da nossa ideia. Eu ainda não a conhecia pessoalmente.
No dia desse encontro, o Sullivan tinha feito a melodia, mas eu não tinha acabado a letra, já estava quase na hora da reunião e nada...  Terminei a letra dentro do metrô a caminho da emissora. Era tudo ou nada, era a chance de ter Xuxa no disco. Não podíamos errar.  Cheguei, chamei o Miguel num canto e mostrei. Quando a Xuxa ouviu, ela ficou com cara de perdida, no final dessa reunião o que sobrou foi um ponto de interrogação. Não convencemos, ela disse que ia consultar a mãe dela, o Dico (Pelé)...  Ela tinha muitas dúvidas se participava ou não, pois ela não sabia cantar.
Quando ela falou em consultar o Pelé, veio a ideia: vamos chamar o Pelé, isso vai deixa-la mais segura. E não deu outra. O Pelé topou na hora e ela se convenceu.



Xuxa e seu autojulgamento: não sei cantar!
(mas sabe encantar, loira...)


🙏Finalmente o disco!
Com todo o elenco definido e suas respectivas canções, o disco alinhou 14 músicas que traduziam bem o clima do programa da Rede Manchete.  A direção artística foi de Miguel Plopschi (compositor e ex-integrante do The Fevers) e a produção de Guti Carvalho (que também produziu, entre outros, “Profana” de Gal Costa -1984 e o primeiro disco do Kid Abelha).

▶️1. É de Chocolate
Como definiu Massadas, a música de abertura precisava ser “arrasadora” e assim foi. Já falamos da faixa e seu processo de gravação, mas vale lembrar que, exatamente dez anos depois do lançamento da versão original, “É de Chocolate” foi regravada por Xuxa para o repertório do seu disco “Sexto Sentido”(Som Livre – 1994).

A faixa original ganhou seu primeiro registro em CD no último disco do Trem da Alegria (uma coletânea com algumas faixas inéditas, lançada em 1992).

Um clipe foi feito pela gravadora para divulgação e Patrícia e Luciano participaram de vários programas, sendo um dos mais memoráveis a apresentação no concurso Miss Brasil 84, exibido no SBT.

Abertura arrasadora: É de Chocolate se tornou o maior sucesso do disco


▶️2.    Carrossel de Esperança
Carrossel de Esperança se tornou a segunda música mais famosa do disco. A faixa que foi a “isca” para Xuxa acabou não tendo os vocais da loira (embora seja creditada a ela) e as atenções ficaram com o grupo Roupa Nova, que estreava na RCA Victor. Foi primeiro trabalho deles na gravadora. Um chamariz e tanto pro álbum pois a banda já tinha público cativo e estava em ascensão.



Como parte da estratégia de divulgação, um clipe foi gravado no Playcenter (antigo parque de diversões de São Paulo) e uma versão da faixa sem os vocais do Roupa Nova era utilizada para que Patrícia e Luciano pudessem apresentar a música nos programas e shows que participavam.
A faixa apareceu em inúmeras compilações infantis lançadas nos anos seguintes pela RCA e foi regravada por vários artistas, como Mariane e Celso Portiolli (até ele!). A gravação mais recente é a de Michel Teló e foi lançada no disco Michael Sullivan apresenta "Carrossel de Esperança", de 2017.



▶️3.    O Mundo Encantado de Um Palhaço
Carequinha é o homenageado da vez. Patrícia e Luciano cantam versos cheios de carinho ao mais famoso palhaço da TV: “quem quiser encontrar o amor, siga sempre seus passos / Se quiser acabar com a dor, ele tem um abraço”. A composição traduzia bem um sentimento de Massadas:

O Carequinha era meu ídolo quando criança. Mesmo antes da TV, eu já participava dos shows que ele fazia. Ele não poderia faltar no disco.

O palhaço Carequinha era interpretado pelo artista George Savalla Gomes e nos deixou em 05/04/2006, aos 90 anos. Lançou discos, atuou em filmes e participou de vários programas de TV, além de ter seu próprio programa na TV Manchete: O Circo Alegre do Carequinha.



▶️4.    Dartagnan e os Três Mosqueteiros
Se você se acostumou a ouvir pelo menos uma música dedicada a um desenho animado nos discos do Trem Alegria, saiba que tudo começou aqui. D’artagnan e os Três Mosqueteiros é uma versão do tema oficial do desenho animado espanhol D'Artacan y los Tres Mosqueperros. O desenho é de 1981, mas foi comprado pela TV Manchete para ser exibido no Clube da Criança. Anos depois o SBT adquiriu os direitos e passou a exibí-lo. Como o nome já fala, é uma versão animada do clássico “Os Três Mosqueteiros”, porém todos os personagens são cachorrinhos. A Julliete da música é a camareira da rainha. por quem D’artagnan é apaixonado.



▶️5.    A Moda do Sapo
O LP era cheio de suportes para dar certo” lembra Massadas. Certamente um desses suportes era a presença de Sérgio Reis. O cantor já tinha uma discografia sólida naquela época, além de ser uma das estrelas do catálogo da RCA Victor (desde 1973). Sérgio estava em alta pois tinha lançado, em 1983, um dos maiores sucessos de toda sua discografia: Panela Velha. Quem não conhece? A incursão de Sérgio no universo infantil veio através da “Moda do Sapo”, uma espécie de ciranda (“bate palma pra dentro, bate palma pra fora”). Patrícia e Luciano também dividem os vocais com o cantor.



▶️6.    Xuxa Xuxu
O primeiro destaque de Xuxa no LP é uma música feita em sua homenagem. A canção traduz o carinho que as crianças do Clube tinham por ela e a vontade de brincar junto. Composição de Juninho Ferreira (que também compôs Sete Quedas para o disco “Xuxa e seus Amigos” – 1985) e Edgard Barbiere, Xuxa Xuxu fala do lado menina da apresentadora (“Xuxa criança também, Xuxa menina também”). Era interessante frisar esse lado, pois Xuxa vinha da carreira de modelo em que a imagem que as revistas mais queriam vender era a de mulher sensual e ali, junto às crianças, esse lado não tinha vez. Era a amiga das crianças e pronto. Os vocais são de Patrícia e Luciano.




▶️7.    Meu Ursinho Blau Blau
A música não foi feita para o disco, Meu Ursinho Blau-Blau foi lançada um ano antes, em 1983, e estava tocando bem em todas as rádios, mas o grupo Absyntho, que cantava a música, ainda não tinha lançado nenhum álbum no mercado (apenas um compacto de 7’). Era unir o útil ao agradável: a música sairia em um álbum e também serviria de chamariz para o LP do Clube.

Nessa época a música Meu Ursinho Blau-Blau já estava estourada, era um gancho que serviu de apoio para o disco. Era preciso dar certo. O Absyntho não teve LP na época, só três compactos. Então foi também a chance deles incluírem a música em um álbum. (Paulo Massadas)

O processo de criação também passou pelas mãos de Massadas (ainda na BMG), que se incumbiu de transformar a faixa “Na Toca da Ilha” naquilo que hoje conhecemos como “Meu Ursinho Blau Blau”.

Sylvinho, o vocalista, deu alguns detalhes:
"Éramos uma garotada com uma banda de "rock and roll" de estilo pesado mesmo. Fizemos umas músicas e levamos para a BMG. Eles ouviram uma canção que tínhamos, "Na Toca da Ilha", e falaram: "Vamos mudar essa letra para algo mais popular". Deram a letra para o Paulo Massadas e aí nasceu "Meu Ursinho Blau-Blau”. (Declarações ao jornal Folha de São Paulo, em 13/01/2001)

E Paulo arrematou:
O Miguel Plopschi, diretor artístico, me chamou e disse que tinham uns rapazes de uma banda nova que tinham uma música e queria que eu fizesse a letra. Eles começaram a cantar “lalalala, ui Blau Blau”. O “blau blau” já existia, era uma espécie de onomatopeia que eles criaram, apenas um som e não um personagem. Eles mostraram a melodia, o “blau blau” e falaram: agora você coloca uma letra. Aí eu pensei: o que tem a ver com Blau Blau? Eu levei uns 15 dias tentando descobrir como eu poderia dar um significado para “blau blau”, quase desisti, até que me lembrei de um documentário que eu havia assistido na TVE que falava de garotas que dormiam com bichos de pelúcia.
Pensei: é isso! Blau Blau vai ser um ursinho de estimação, amigo e confidente. E como o vocalista não era uma menina e sim um rapaz jovem, chamaria muito mais atenção. E foi um tremendo sucesso.






▶️8.Debaixo do seu Nariz
Rá! Só por esse início já dá para saber quem era o convidado da faixa... Sérgio Mallandro, mas a canção não tem nada de “pegadinha do Mallandro”. É uma das letras mais bonitinhas e ensina que a felicidade está nas pequenas coisas, “bem debaixo do seu nariz”. Se não fosse pelas brincadeiras faladas de Sérgio no meio da faixa daria até para se pensar “mas é o Sérgio Mallandro mesmo? Aquele meio louquinho?”

A faixa foi feita pensando nele, como conta Massadas:
O Serginho já tinha uma projeção com o lado infantil, a garotada também gostava, não era só o adulto, por isso o chamamos. Por mais que ele fosse amigo da Xuxa, isso não foi determinante.  O ato de compor é muito interessante, é quase uma incorporação. Quando a gente já sabe qual artista vai cantar, a gente tenta imaginar como ele imaginaria a letra.





▶️9.    Recado à Criança
Quando se fala em Pelé cantando, apostamos que você se lembra do “ABC... ABC”, embora essa música também tenha a ver com nosso assunto, não é hora de falarmos dela (ainda). Em “Recado à Criança”, Pelé é o compositor e o cantor. O jogador não tem seus melhores momentos na função, mas o faz com boa intenção, pois tinha consciência de sua influência na garotada que o via como ídolo no esporte.

Recado à Criança foi apresentada pela primeira vez no Especial de Natal do Clube da Criança de 1983. Pelé cantou a música ao vivo com o acompanhamento de um violão.




▶️10.Lápis de Cor
Quando se ouve “Lápis de Cor”, talvez você não consiga imaginar uma outra cantora no lugar de Xuxa, mas se for mais atento, vai encontrar algo que remete ao estilo de Rita Lee. Como disse Massadas, Xuxa tinha o potencial de fazer a “ritaleezação” da música infantil:

A ideia de Lápis de Cor era fazer uma coisa mais Rita Lee, mais sussurrada, já que Xuxa não queria evidenciar tanto a voz. A música foi feita pra Xuxa cantar, respeitando seu timbre e todas as limitações que ela tinha de voz. Como não era a faixa de abertura do disco, não precisava ter grande impacto, então fizemos algo mais gostosinho, docinho. O objetivo era Xuxa participar, então éramos nós que tínhamos que nos adequar a ela.
A Xuxa sempre teve a favor dela um autojulgamento muito bom. Ela sabe quando pode e quando não pode. E desde o começo, ela deixou bem claro: “eu não sei cantar”. E isso foi ótimo, pois pudemos ajudá-la da melhor maneira possível. E ela aceitou toda aquela ajuda.

Xuxa já contou que chegou a beber doze copos de água para conseguir gravar, Massadas lembra que isso acontecia porque ela ficava rouca rapidamente.
E a mistura de água, boa vontade, profissionalismo e ajuda de quem sabe causou boa impressão. Olha só o que disse a Veja sobre a estreia de Xuxa como cantora:




▶️11.Circo Alegre do Carequinha
Segunda música de Carequinha no disco, essa era também o tema de seu programa que levava o mesmo nome e era exibido na Rede Manchete. O programa “Circo Alegre do Carequinha” estreou alguns meses depois do Clube da Criança, em 17/10/1983.




▶️12. Dorme Meu Bem
Entramos na leva de canções mais calmas do disco, estrategicamente alocadas ao final como se fosse hora de “desligar” a garotada. Vanusa canta com Luciano uma espécie de diálogo entre mãe e o filho, que chama pela mãe após um pesadelo e não quer mais dormir. Uma delicada canção de ninar. Vanusa já fazia parte da RCA Victor há algum tempo e a maioria de seus discos saiu pela gravadora.




▶️13.Sonhos de Criança
Se na faixa anterior o destaque foi de Luciano, agora é a vez de Patrícia. Ela faz dueto com Martinho da Vila, outro importante nome da gravadora desde 1969. Composição do próprio cantor, “Sonhos de Criança” traz citação da cantiga popular “O Cravo e a Rosa”.

Hoje a canção pode causar certo espanto pelos versos “o cravo transou com a rosa”, mas é preciso se lembrar que no final dos anos 70 e início dos anos 80, o verbo “transar” não tinha a conotação exclusivamente sexual de hoje. Era um verbo “multiuso”: namorar era paquerar e era transar.  As coisas bacanas ou não, em geral eram transas. Transar era fazer, brincar, curtir… Então nada de criar polêmica onde não tem.

A música também segue na linha mais calma, diminuindo o pique para preparar a garotada para o encerramento do disco.




▶️14.Eu Vi
Imaginem uma música que toda mãe amaria... é essa! Fala exatamente tudo que nossas mães nos ensinam a fazer antes de dormir, da forma mais simples e didática. “Eu vi que é hora de dormir... mas antes vou guardar meus brinquedos pra amanhã, guardar também minha lição e antes de deitar, meus dentes escovar e depois fazer minha oração”.

Dá até pra imaginar alguma mãe de noite falando: “menino, vamos fazer igual a música da Xuxa, vamos?”... Pois é, a loira cantava essa música no encerramento do Clube e se tornou uma das marcas do programa. A música já existia mesmo antes do disco sair, porém com arranjos bem diferentes do registro oficial.



Trazê-la para o disco foi uma forma de reafirmar a necessidade de se criar um vínculo com o programa, facilitando a assimilação pelas crianças.






🎧Formatos e divulgação
Tanto se fala no LP do Clube da Criança – ou “disquinho do Clubinho”, como Xuxa preferia dizer – que a gente quase esquece que ele também foi lançado em fita K7. A fita, por razões óbvias, não tinha grandes atrativos, diferente do LP que, além da capa e contracapa bem coloridas, trazia internamente todas as letras das faixas numa segunda capa interna.



Clube da Criança em LP e K7

Cadê a estrelinha azul que tava aqui?
hahahaha quem percebeu a diferença?


Inicialmente foram liberados dois discos single: um para É de Chocolate e outro para Lápis de Cor. A arte principal das capas é a mesma, mudando apenas os convidados da vez.




Os discos-single foram distribuídos às rádios antes do lançamento do disco


Um fato curioso é que podemos ver uma capa “alternativa” para o LP principal, que ainda não tinha saído. A arte foi feita por Elifas Andreato, já consagrado por realizar capas de discos para Toquinho (Aquarela), Vinícius de Moraes (Arca de Noé 1 e 2) e Chico Buarque (Ópera do Malandro).

Qual vocês preferem? A provisória ou a definitiva?


Na TV, o disco ganhou um comercial com direito a uma exclusiva locução de Xuxa ao final. A exibição, obviamente, era na Rede Manchete.



A mídia impressa recebeu anúncios do disco, entre abril e maio, e também cupons de desconto, veiculados em gibis da Editora Abril, no mês de outubro. Esses cupons davam o abatimento de Cr$1000,00 (cerca de R$5,00 hoje) na compra do LP ou da K7.


Anúncio publicado nos gibis da Editora Abril no mês de outubro de 1984

Falando em cupom, dentro do disco vinha um para que a criança se tornasse “sócia” do Clubinho e ainda concorresse a prêmios sorteados por Xuxa e que também valia uma entrada no Playcenter.


Anúncio veiculado nas revista da Editora Bloch em maio de 1984
Com o disco já lançado, saiu ainda um compacto 7’ com 4 faixas: Carrossel de Esperança, Lápis de Cor, Xuxa Xuxa e Moda do Sapo. Era a RCA apostando alto!


O compacto de 7' reafirmava Carrossel de Esperança como segunda música de trabalho do disco




🎉Festas de lançamento
O disco foi o primeiro projeto infantil da gravadora RCA e ela já o aclamou com ares de grande estrela. Duas festas, uma em São Paulo e outra no Rio, foram realizadas para apresentar o disco à imprensa.

São Paulo
Realizada na discoteca Dancing, no dia 19/03/1984. A festa reuniu quase todos os intérpretes do disco. As atenções, claro, ficaram para Xuxa, Patrícia e Luciano. Cerca de 1000 pessoas se aglomeraram na boate para ver de perto os cantores. A ausência da noite foi Pelé, que tinha outros compromissos, mas mandou seu filho, Edinho, para representá-lo.



Rio de Janeiro
No dia seguinte, 20/03/1984, a festa aconteceu na boate Studio C. Estava todo mundo lá de novo e, dessa vez, Pelé apareceu e ainda cantou Recado à Criança com Patrícia e Luciano. Sérgio Mallandro, Vanusa, Roupa Nova... como disse a revista Manchete: “esse clube tem espaço para todos” (07/04/1984).







🏅Vendagem
E as apostas deram certo: de acordo com Paulo Massadas, em menos de 1 mês, o Clube da Criança ganhou o disco de ouro e vendeu 100 mil cópias. Em dezembro daquele ano, o álbum já havia vendido 250 mil. Patrícia e Luciano chegaram a ir ao programa do Velho Guerreiro receber a certificação.



A vendagem final foi informada pela revista Afinal, em matéria sobre o já consolidado Trem da Alegria, em 1988: 350 mil cópias vendidas, garantindo disco de platina duplo (na certificação da época). Um excelente número de estreia.



❓Curiosidades
Existiram faixas descartadas? Em entrevista à revista do Mickey, publicada em maio de 1984, ao ser perguntada sobre sua estreia como cantora, a loura conta algo interessante:

Toda criança gosta de ouvir historinha e músicas, né? Então gravei um disco onde conto a história de uma princesa que... bom, só sei que procurei transmitir uma mensagem de valor para todo mundo. Além de contar a historinha, canto outras três músicas e o disco conta ainda com a participação do Pelé, do Sérgio Mallandro e da turma do “Ursinho Blau-Blau”.

Clube da Criança – volume 2! Sim, houve o projeto de um novo disco para o Clube, mas com a chegada de Juninho Bill e a formação do Trem da Alegria, o que seria o volume 2 do Clube se tornou o disco de estreia do Trem da Alegria. E a ordem era não mexer em time que estava ganhando, tanto que alguns convidados são os mesmos: Pelé, Carequinha e, claro, Xuxa. Em março de 1985, Xuxa e Pelé entraram em estúdio para gravar algumas faixas, a imprensa chegou a noticiar o nome das músicas, que acabaram reaproveitadas no LP do Trem.

Lembraram do ABC... ABC...?
Pois é, seria para o Clube da Criança 2


🌈Xuxa menina também...
Hoje, 35 anos depois, conseguimos ver o quanto o destino já estava traçado. Quem diria que aqueles versos lúdicos de “Lápis de Cor”, seriam realidade? “Uma nave pra você viajar... Essa vida é doce... Se eu pudesse ser um dia uma fada, seu desejo iria realizar...

Sem saber, Massadas previu todo o universo que Xuxa construiria. A moça que não sabia cantar se tornou a recordista em vendas de discos no país, a voz tímida arrastou multidões e aquele lápis de cor pintou até um arco-íris.



Xuxa modelo, Xuxa apresentadora, Xuxa cantora... 
na formação de tudo: Xuxa menina também!


🏆Nosso agradecimento especial aos queridos Paulo Massadas e Sandra, que sempre numa gentileza ímpar, nos conduzem nessa volta ao tempo de maneira tão atual, fazendo com que 35 anos fosse como ontem. Muito obrigado por tudo!

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